ARTIGO - O irmão mais velho

Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conjunto Mirassol - Natal
Capelão da UFRN
A Igreja Particular de Natal viveu a partida de um dos seus presbíteros, o Monsenhor Robério Camilo. O sacerdote descobriu, recentemente, duas enfermidades que o tornariam muito vulnerável a quaisquer formas de tratamento, que não fosse a do transplante de medula óssea e este, por sua vez, dependente da cura do pulmão que estava com complicações. A sua situação tornou-se muito complexa, mesmo tendo tido a assistência médica possível ao nosso contexto. O que veio a acontecer foi só resultado do agravamento das várias comorbidades. No último domingo (18/10/26), tivemos a tristeza da partida deste que, para mim, foi sempre “um irmão mais velho”.
A minha ligação com o então Pe. Robério começou no início da década de noventa, quando o mesmo foi pároco na minha Paróquia de origem, a da Imaculada Conceição, em Nova Cruz. Dele, cheguei a ser coroinha. O seu protagonismo era muito grande, principalmente junto às juventudes. Ouvíamos falar muito do seu trabalho com a PJMP - Pastoral da Juventude do Meio Popular. Mesmo assumindo uma postura pastoral mais ousada, sempre foi muito atento à história de evangelização da nossa Paróquia, que tinha fortes sinais eclesiais deixados pelo Monsenhor Pedro Moura e pelo Pe. Matias Patrício de Macedo, que fora eleito Bispo para a Diocese de Cajazeiras-PB.
O Pe. Robério era um presbítero de uma inteligência privilegiada. Isso sempre foi determinante para que ele pudesse ser “diferenciado no meio de poucas diferenças”. Um ponto que faz-me assumir essa percepção foi o modo com o qual ele internalizou sempre os movimentos da história. Esses que o fizeram acolher as grandes mudanças da Igreja na América Latina, com seus referenciais teológicos postos pelo Concílio Vaticano II e as reivindicações sociais - juvenis - do pós-1968. Gostaria de situar o meu ‘irmão mais velho’ neste mosaico eclesial e social, sem esquecer a sua origem pobre e desafiadora, desde Poço Branco, a sua terra natal. O Pe. Robério não tinha medo da sua humanidade, nem renegava a sua história.
A sua formação teológica em Roma - teologia bíblica - na Pontifícia Universidade Gregoriana o ajudou a moldar suas potencialidades intelectuais e de leitura de mundo. Em Camilo, o particular - Natal - e o Universal - Roma - encontraram-se e ele tinha condições antropológicas de entender isso. Tanto que não voltou da Cidade Eterna como um burocrata, nem mais um “desenraizado”. Veio com mais sofisticação intelectual, sem perder o que era-lhe essencial. Por isso, conseguiu contribuir tanto com a formação dos futuros presbíteros e ter uma vida pastoral tão dinâmica, como foi por todos testemunhado pelo seu tempo na Paróquia de São João Batista - Lagoa Seca, coordenador de campanhas e outras responsabilidades pastorais arquidiocesanas.
Neste período, já falava-se, dentre os fiéis leigos e irmãos presbíteros, que não eram envenenados pela “inveja clerical e a síndrome de Caim”, que Roberio tinha as qualidades necessárias para servir à Igreja no terceiro grau do sacramento da ordem: o episcopado. As conversas de sacristias eram muitas. Quando Dom Matias assumiu o governo arquidiocesano, logo o requisitado sacerdote foi escolhido para ajudá-lo diretamente no seu governo como Vigário Geral. Essa fase foi complicada, pois alguns perceberam que Roberio teve “dificuldades de gerenciar essa missão”. Como já foi declinado, ele era “diferenciado no meio de poucas diferenças”. Talvez, não tenha conseguido dar esse salto e tivemos tensões internas, principalmente com as preocupações de “transferências constantes de padres”, com a simples preocupação de desestabilizar os menores em função da supremacia do maior. Essa fase foi difícil.
O Pe. Robério surpreende e assume uma postura, mais uma vez, diferenciada: deixa a Paróquia da Santa Teresinha e, para poder estar mais presente em Mãe Luiza e assumir os trabalhos do Pe. Sabino Gentili, vai para a Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes. Tomou esse desafio e depois dedicou-se exclusivamente à Mãe Luiza. Ali chegou ao momento áureo da sua trajetória presbiteral, que, por sinal, também foi marcada por “incompatibilidades internas”, que impossibilitaram a sua confirmação como Bispo para o serviço da Igreja, mesmo ele tendo as qualidades necessárias ao exercício deste ministério. Ele não era de viver de lamúrias, mas em alguns momentos pincelávamos também suas dores.
Estou vivendo uma peregrinação. Estou fazendo alguns dos caminhos do Apóstolo Paulo. Mesmo distante e através de um celular, não poderia deixar de dar esse testemunho de reconhecimento e amizade ao Monsenhor Robério. Ele sempre foi para mim “um irmão mais velho, que sempre esteve comigo nos momentos mais difíceis e também nos de maior alegria”. O seu testemunho de serviço, doação, entrega e amor às pessoas que estavam com ele, superaram infinitamente o que, por acaso, tenha sido sinal de pura humanidade. Sempre foi meu conselheiro e cuidador. Todas as palavras ditas sobre o Pe. Robério nestes últimos dias são verdadeiras. O povo de Deus o amava. Tudo foi tão rápido, até a sua morte; mas, tudo com tanta intensidade. Penso também que poderíamos ter lutado mais com ele, nestes últimos tempos. Estado mais, priorizado-o mais. Nos faltou um pouco mais de ‘sinodalidade na dor’.
Enfim, sei que vou sentir muita falta dele. O meu irmão mais velho continuará a ser lembrado por mim, como também por muitos que foram tocados evangelicamente pela sua vida, seus ensinamentos e o seu testemunho. Agradeço a Deus por tê-lo colocado em minha caminhada presbiteral. Sem dúvida, o “guardarei no lado esquerdo do peito”. Um dia nos encontraremos e, mais uma vez, teremos a felicidade de viver a plenitude da amizade, que aconteceu em nossas vidas, com alegrias e esperanças, dificuldades e vitórias, lealdade e confiança. É assim, que terei presente a memória daquele “meu irmão mais velho”. Obrigado, Pe. Robério, e descanse em paz. Assim o seja!



