ARTIGO - O Padre do abraço largo

Por Ir. Vilma Lúcia de Oliveira, FDC
Há ausências que não se medem pelo silêncio que deixam, mas pela luz que imprimem na história. Neste 18 de outubro de 2026, quando a notícia da partida de Monsenhor Robério Camilo percorreu a nossa Arquidiocese, ouvimos no íntimo da alma o eco de um profeta que cumpriu com louvor a sua missão.
Eu ainda trago na pele e na alma a força mística do nosso último abraço. Relembro o nosso encontro nos corredores do Seminário de São Pedro, poucos dias antes da sua hospitalização. Ali, com o olhar límpido e a serenidade dos santos, ele me segurou com afeto e soprou a profecia que hoje consola a minha alma: “Estou pronto! Já estou ansioso pelo GRANDE ENCONTRO!”. Robério já sabia. Sua alma já tateava a glória, e o Céu o chamou de volta para casa.
Não quero falar apenas do que ele fez — embora o SAR, SAUR (Serviço de Assistência Rural e Serviço de Assistência Urbana), Cáritas, a Pastoral da Sobriedade e a Comunidade de Mãe Luíza guardem o seu suor em cada pedra. Quero falar do que ele foi: um homem de inteligência brilhante, profundamente estudioso e extraordinariamente discreto. O padre do abraço largo, do olhar que acolhia sem julgar e do coração eternamente aberto.
Nascido em Poço Branco, escolheu morar no poço fundo da alma humana. Embora tenha apascentado com zelo outras paróquias, foi em Mãe Luíza que ancorou a maior parte do seu ministério, presidindo o Centro Sócio Pastoral e aprofundando a herança do saudoso Padre Sabino, de Feliz Memória. Ali, sua profecia desabrochou no Espaço Solidário e na Casa do Bem: resgatou idosos abandonados e dependentes químicos na sarjeta, ao mesmo tempo em que abriu horizontes para crianças, jovens e adultos por meio da educação formal, do esporte, da arte e da música. Para ele, o Evangelho nunca foi discurso estéril, mas porta aberta e mesa posta.
Mestre pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e Vigário Episcopal para as Instituições Sociais, fez do Seminário de São Pedro o seu canteiro de vocações. Como apaixonado professor de Teologia Bíblica, primava por um magistério encarnado, capaz de transformar o estudo da Sagrada Escritura em vida, amor e missão na alma dos seminaristas. No silêncio dos lares, foi conselheiro e acompanhante espiritual nas Equipes de Nossa Senhora. E como Vigário Geral, com visão profética ao lado de Monsenhor Assis Pereira rumo ao Centenário da Diocese de Natal (1909–2009), desmanchou a sala de espera do Gabinete do Arcebispo para ali erguer a Sala do Acervo do Arquivo Metropolitano — fazendo germinar o santuário da nossa memória eclesial.
Dono de uma sabedoria acadêmica profunda, a sua maior honraria, no entanto, foi traduzir o Evangelho na carne: no coração dos seminaristas, no brilho dos jovens resgatados pela arte e pelo esporte, nas rugas dos velhinhos e no prato cheio oferecido a quem tinha fome.
Por tudo isso, meu irmão, hoje não lhe dou um adeus. Entrego-o nos braços do seu tão esperado Grande Encontro. Vai, Monsenhor Robério. Entra na glória do teu Senhor, abraça o Padre Sabino e avisa que a obra de vocês continua viva. E quando te encontrares com o Ressuscitado, dá Nele, por mim, aquele abraço largo e demorado que você sempre soube dar.
Obrigada, meu padre do povo, por ter sido infinitamente mais do que tudo o que fez.
Com saudade e esperança na Ressurreição,



