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Homilia da missa exequial de Monsenhor Robério Camilo da Silva

há 30 minutos
6 min de leitura

Dom João Santos Cardoso

Natal, 19 de outubro de 2026.

 

Leituras bíblicas: Sb 3,1-9; Sl 109(110); Rm 8,31b-35.37-39; Mt 5,1-12

 

Queridos irmãos no episcopado, presbíteros e diáconos, religiosos e religiosas, familiares de Monsenhor Robério, comunidade de Mãe Luiza, irmãos e irmãs: “A vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá” (Sb 3, 1). Eis a nossa esperança!


A Palavra que escutamos ilumina nossa despedida. A Igreja de Natal chora um irmão, um pastor, um amigo. Trazemos ao altar nossa saudade e nossa gratidão, confiando Monsenhor Robério Camilo à misericórdia do Pai.


A morte de alguém querido nos atinge profundamente. Na perda da pessoa amada, experimentamos tudo o que a morte significa de ruptura e dor. É como se algo de nós também morresse. Sentimos falta de sua voz, de sua presença, dos encontros que já não mais acontecerão.


Fomos criados para viver; por isso, a morte nos interroga e pode despertar medo. Mesmo para quem crê, despedir-se desta primeira casa, deste mundo onde aprendemos a amar, exige uma entrega difícil.


Em Monsenhor Robério, chamou-me a atenção a consciência da proximidade da morte e a maneira como se preparou para ela. Disse-me que havia se despojado de seus pertences: doara seus livros à Biblioteca do Seminário, suas roupas e as poucas coisas que possuía. Quando o vi na terça-feira passada, durante o almoço, estava muito fragilizado e abatido. Sua condição me comoveu profundamente. Percebi a dor de quem se aproxima da despedida, mas também a esperança de quem se entrega nas mãos de Deus.


O testemunho do seminarista Manoel, que o acompanhou de perto durante sua enfermidade, confirma essa preparação: buscou a confissão, abraçou a cruz e entregou-se ao Senhor. Segundo seu relato, em suas últimas palavras afirmou que estava pronto para o céu, pronto para morrer. Sua confiança nasceu de uma vida marcada pela radicalidade do Evangelho. Escutei o desabafo de alguém que hoje sente a orfandade de perder um pai espiritual e um amigo, mas que guarda um ensinamento recebido dele: quando está difícil, precisamos amar mais. Que esse amor continue a dar frutos naqueles que ele ajudou a formar.


Irmãos e irmãs, a fé acolhe nossas lágrimas. Jesus também chorou diante da morte de um amigo. Quando a morte nos confronta com a finitude da vida terrena, precisamos de companhia, ternura e esperança. Hoje, a Palavra de Deus nos oferece este amparo: nossa vida está nas mãos de Deus. A essas mãos confiamos nosso irmão, que se preparou para o encontro com o Senhor.


O livro da Sabedoria contrapõe a aparente derrota da morte à certeza de que nossa vida está nas mãos de Deus. Aos olhos humanos, a morte pode parecer o fim de tudo, pura aniquilação; os justos, porém, estão na paz, e sua esperança está cheia de imortalidade. Nossa confiança repousa em Cristo, morto e ressuscitado. Nele esperamos a ressurreição dos mortos e a vida eterna. Como proclama a liturgia, para os que creem, a vida não é tirada, mas transformada.


É nessa esperança que recordamos o caminho de Monsenhor Robério. Nascido em Poço Branco, em 10 de dezembro de 1959, foi ordenado sacerdote em 15 de agosto de 1987. Sua formação passou pelo Seminário de São Pedro e pela PUC do Rio de Janeiro, fez o mestrado em Teologia Bíblica na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Durante décadas, ajudou a formar futuros sacerdotes no Seminário de São Pedro.

Em seus 39 anos de sacerdócio, serviu em Nova Cruz e em comunidades de Natal, entre elas São João Batista, Santa Teresinha e Nossa Senhora de Lourdes. Foi vigário-geral no governo de Dom Matias Patrício de Macedo. Sua dedicação alcançou o SAR, a Cáritas, a Campanha da Fraternidade e a Pastoral da Sobriedade. Em Mãe Luiza, como pároco e presidente do Centro Sócio-Pastoral Nossa Senhora da Conceição, uniu evangelização e promoção da dignidade humana.


Guardo uma lembrança que revela o sentido dessa caminhada. Logo depois de minha posse, foi um dos primeiros padres que me procuraram. Apresentou seu trabalho em Mãe Luiza e a ação social desenvolvida naquela comunidade. Contou-me que, depois de servir em paróquias de classe média, escolhera estar entre pessoas humildes, numa realidade socialmente desafiadora.


Falou dessa escolha como caminho de conversão e de salvação: aproximar-se dos pobres, partilhar suas dores, alegrias, sonhos e esperanças, deixar-se transformar pelo encontro com eles. Essa disposição me marcou. Um sacerdote culto, inteligente, de sólida formação bíblica e teológica, reconhecia que também precisava aprender o Evangelho na vida dos pequenos.


Nele pude reconhecer prudência, sinceridade, coragem nas adversidades e serenidade diante dos conflitos. Sabia escutar e oferecer ponderações que iluminavam questões pastorais. Sua proximidade tinha ternura de pai, fraternidade de irmão e lealdade de amigo. A oração, a Eucaristia e a meditação da Palavra alimentavam seu serviço.

Por essas qualidades, quis tê-lo entre meus colaboradores mais próximos e o nomeei vigário episcopal para as instituições sociais e caritativas. Agradeço a Deus por sua colaboração, por sua disponibilidade e pelas ocasiões em que me procurou para partilhar suas preocupações com a missão da Igreja.


Nesta despedida, recebemos a solidariedade de tantos bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas. Suas mensagens nos fazem experimentar a comunhão da Igreja. Assim, a dor da Igreja de Natal encontra acolhida na oração de muitos irmãos.


Comove especialmente o testemunho das Irmãs do Imaculado Coração de Maria. Elas acompanharam os primeiros passos de sua vocação em Taipu e Poço Branco, na comunidade então animada pela saudosa Irmã Natalina Rossetti. A Irmã Ondina Gonzatto o levou ao Seminário, e ele reconhecia na Irmã Therezinha Vieira uma mãe espiritual. A amizade e a colaboração missionária permaneceram durante toda a sua vida.


As Irmãs recordam seu amor compassivo às pessoas com dependência química, nas Fazendas da Esperança e na Pastoral da Sobriedade. Quantas famílias encontraram, nesse serviço, apoio para recomeçar! A memória de um sacerdote também permanece nas vidas que ajudou a levantar.


Hoje, São Paulo nos pergunta: “Quem nos separará do amor de Cristo?” A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, o perigo? Mesmo quando somos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro, “em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou”. E proclama sua certeza: nem a morte, nem a vida, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (cf. Rm 8,35-39).


Fomos criados para a vida e, em Cristo, chamados à eternidade. Seu amor nos sustenta na fragilidade e fundamenta nossa esperança na ressurreição. Nessa confiança, entregamos nosso irmão ao Senhor, cujo amor o acompanhou nesta vida e permanece para além da morte.


O salmo responsorial nos recorda o sacerdócio eterno de Cristo. Todo ministério sacerdotal participa do seu único sacerdócio. Nesta Eucaristia, entregamos ao Senhor aquele que tantas vezes reuniu seu povo ao redor do altar. Pedimos que o purifique, perdoe suas faltas e o acolha na comunhão dos santos.


Por fim, escutamos Jesus proclamar as bem-aventuranças: felizes os pobres em espírito, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça e os que promovem a paz. Esse Evangelho ilumina a vida e o ministério de Monsenhor Robério, pelos quais damos graças, e nos convida a perseverar no mesmo caminho de fé e serviço.


“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” Essa promessa de Jesus nos alcança em nosso luto e oferece especial conforto aos familiares de Monsenhor Robério, aos seus irmãos sacerdotes, aos seus amigos e às comunidades que ele serviu. O Senhor conhece cada lágrima, sustenta nossa esperança e nos chama a cuidar uns dos outros.


Agradecemos aos médicos e aos profissionais de saúde que cuidaram de Monsenhor Robério com tanto afeto e humanidade, especialmente às doutoras Lúcia Helena e Vanessa, amigas de longa data, que o acompanharam desde os primeiros sintomas de sua enfermidade, oferecendo-lhe cuidado e apoio para enfrentar o sofrimento com dignidade.


Confiemos Monsenhor Robério à intercessão de Nossa Senhora da Apresentação e de Nossa Senhora da Conceição, tão presentes na vida de nossa Igreja e da comunidade que ele serviu. Que Maria nos ajude a perseverar na fé e no serviço aos pobres.


Senhor Jesus, recebe nosso irmão na tua paz. Concede-lhe contemplar a tua face e participar da alegria do teu Reino. Sustenta em nós a esperança do reencontro, quando enxugarás nossas lágrimas e viveremos para sempre contigo. Amém.

 

 
 
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