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ARTIGO - A disponibilidade missionária do presbítero

há 11 minutos
2 min de leitura

Dom João Santos Cardoso

Arcebispo de Natal

 

A disponibilidade missionária constitui uma dimensão essencial da identidade presbiteral. Ela se manifesta não apenas na disposição do presbítero para servir nas diversas realidades da Igreja Particular ou assumir novas responsabilidades, mas, sobretudo, numa atitude espiritual que nasce de sua configuração a Cristo, o Bom Pastor, e se traduz na liberdade interior para responder às necessidades da Igreja e na dedicação concreta às pessoas confiadas ao seu cuidado pastoral.


O Evangelho apresenta uma tensão fecunda entre permanecer e partir. Em Cafarnaum, a missão de Jesus alcança grande êxito e encontra acolhida entre o povo. Ele anuncia a Palavra, cura os enfermos e estabelece relações de proximidade com as pessoas. Entretanto, quando todos o procuram, desejando que permaneça ali, afirma: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza, para que eu pregue também lá” (Mc 1,38). Sua partida não representa desinteresse por aqueles que o acolheram, mas expressa sua fidelidade à universalidade da missão.


Essa liberdade interior ilumina a vida do presbítero. O exercício do ministério favorece a construção de vínculos profundos, histórias compartilhadas e experiências de pertença. Tais relações não constituem obstáculos à missão; ao contrário, são expressão de sua fecundidade. O amor pastoral, porém, amadurece quando consegue conciliar a profundidade desses vínculos com a liberdade interior para partir e colocar-se a serviço de outras comunidades, onde sua presença se faz necessária à missão da Igreja.


A disponibilidade missionária possui também uma dimensão frequentemente menos lembrada: estar verdadeiramente presente onde se foi enviado. Não basta acolher uma missão; é necessário vivê-la, conhecer as pessoas, partilhar suas esperanças e dificuldades, acompanhar seus caminhos e reconhecer nelas a presença de Deus. A proximidade pastoral não se limita à realização de atividades religiosas. Exige tempo, escuta, convivência e participação na vida cotidiana das comunidades.


Essa disponibilidade, entretanto, não significa estar permanentemente ocupado. O cuidado com a própria saúde, a oração, o estudo, o descanso e a convivência fraterna são condições necessárias para um ministério humanamente equilibrado e espiritualmente fecundo.


Na perspectiva missionária, não existem comunidades de primeira e de segunda categoria. A dignidade de uma missão não se mede pela visibilidade social, pelos recursos disponíveis ou pela localização geográfica. Nas periferias, nas pequenas comunidades rurais ou nos grandes centros urbanos, encontramos o mesmo povo de Deus, com igual direito à presença e ao cuidado pastoral de seus sacerdotes. A esse respeito, o Papa Francisco advertia na Evangelii Gaudium (n. 200): “Dado que esta Exortação se dirige aos membros da Igreja Católica, desejo afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual”.


A maturidade missionária manifesta-se, portanto, nessa dupla capacidade: criar raízes sem transformar os vínculos em posse e partir sem deixar de amar. Afinal, o presbítero não é chamado a construir uma obra em torno de si, mas a colaborar numa história de fé que o precede e continuará depois dele. A verdadeira disponibilidade missionária consiste em pertencer inteiramente a Cristo para estar, com liberdade e generosidade, a serviço de seu povo.

 

 
 
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