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Cristianismo e sexualidade: reconciliação necessária


A sociedade contemporânea tem na questão da sexualidade uma das suas forças motrizes. A expressão ‘pansexualismo’ perpassa as lógicas mercadológicas, sociais, ideológicas e pessoais. S. Freud (1856-1939) deu à temática um lugar de destaque nas formas de percebê-la e tratá-la de modo transparente e ousado, com um esquema próprio, principalmente na abordagem do “inconsciente” e o seu significado para o conhecimento da condição humana. O cristianismo, assim como teve dificuldades dialógicas com outras descobertas inovadoras da modernidade, sentiu os solavancos das críticas freudianas e até os nossos dias é desafiado a reconciliar-se com as impostações de um dos “mestres da suspeita” (P. Ricoeur). Essa interação com as teorias do ‘pai da psicanalise’, sua fundamental contribuição para o pensamento moderno e a compreensão da condição humana, envolvida pela pulsão sexual, que não é limitada à questão genital, nem reduzida ao prazer biológico, faz-se mister para todos os que estão envolvidos na ordem sistêmica do cristianismo e no processo pastoral da Igreja. Em torno da sexualidade e a partir da mesma, as ações humanas ganham sentido e passam a ser fenômenos reveladores das formas de subsistir do Eu. Longe do que é preconizado por alguns, o mesmo a vincula integralmente ao ethos humano e às suas percepções de mundo na sua ‘totalidade unificada’.


Historicamente, principalmente depois das influências da filosofia grega, com o neoplatonismo no pensamento dos padres da Igreja nos primeiros séculos do cristianismo, com uma cadência em Santo Agostinho e sua ressonância na concepção sobre a sexualidade até a modernidade, que apresenta a ideia do corpo como cárcere da alma e, com esta, toda uma forma de ver a sexualidade de modo pessimista e como uma dimensão antropológica a ser direcionada à ‘procriação’, a marca que até hoje subjaz no consciente e inconsciente coletivo das pessoas é que a sexualidade é algo ‘feio’, vergonhoso e que deve ser tratado só em foro íntimo.


No contemporâneo, com o avanço de um cristianismo rudimentar, sem uma relação entre fé, razão e afetos, uma retomada da subjugação da sexualidade ganha espaço. O foco da moralidade está sendo o sexto mandamento. É olvidado, ou relativizado, o mandamento do amor. Esse fenômeno deveria nos preocupar. Não só os ministros ordenados, que constantemente nos deparamos com a escuta de milhares de pessoas. Não há uma teologia moral consistente, nem condizente com o autêntico pensamento da Igreja, acerca da temática da sexualidade, na atualidade. Aqui, tomo nota do documento “sexualidade humana: verdade e significado”, que prescreve o seguinte:

“O ser humano é chamado ao amor e ao dom de si na sua unidade corpórea-espiritual. Feminilidade e masculinidade são dons complementares, pelo que a sexualidade humana é parte integrante da capacidade concreta de amor que Deus inscreveu no homem e na mulher. ‘A sexualidade é uma componente fundamental da personalidade, um modo de ser, de se manifestar, de comunicar com os outros, de sentir, de expressar e de viver o amor humano’. Esta capacidade de amor como dom de si tem, por isso, uma sua ‘encarnação’ no carácter esponsal do corpo, no qual se inscreve a masculinidade e a feminilidade da pessoa. ‘O corpo humano, com o seu sexo, e a sua masculinidade e feminilidade, visto no próprio mistério da criação, não é somente fonte de fecundidade e de procriação, como em toda a ordem natural, mas encerra desde ‘o princípio’ o atributo ‘esponsal’, isto é, a capacidade de exprimir o amor precisamente pelo qual o homem-pessoa se torna dom e — mediante este dom — atuar o próprio sentido do seu ser e existir”. (...) E continua: “A sexualidade humana é, portanto, um Bem: parte daquele dom criado que Deus viu ser ‘muito bom’ quando criou a pessoa humana à sua imagem e semelhança e ‘homem e mulher os criou’ (Gn 1, 27). Enquanto modalidade de se relacionar e se abrir aos outros, a sexualidade tem como fim intrínseco o amor, mais precisamente o amor como doação e acolhimento, como dar e receber. A relação entre um homem e uma mulher é uma relação de amor: ‘A sexualidade deve ser orientada, elevada e integrada pelo amor, que é o único a torná-la verdadeiramente humana”.


O intuito da reflexão, que aparece claramente no ensinamento eclesial, é dizer da ideia personalista, humana e teologal que a Igreja tem sobre a sexualidade. Ela é a força que eleva a dignidade humana e a promove enquanto concebe a pessoa como ser vocacionado à felicidade e à bem aventurança. O seu fim primário é a realização das pessoas que estão envolvidas afetivamente. O cristão não pode temer a sexualidade. Ela é dom que oferece ao humano uma ‘teologia do prazer’.


O medo de pensar a sexualidade como algo ‘desejado’ por Deus para a relação harmoniosa entre os seres humanos e, inclusive destes, com a própria criação é complexo. Há dois caminhos recorrentes que podem ser percebidos à luz da espiritualidade, que nos trazem preocupações pastorais. São eles: ‘a negação que oprime ou a libertinagem que desequilibra’. Com frequência, em ambos os casos os sinais de neurose aparecem. Não é só a repressão que causa desvios na personalidade. A vivência desordenada da sexualidade também porta à frustração e às confusões passionais. O desafio é manter o ‘equilíbrio’. As revoluções sexuais sonhadas pós anos sessenta, com o afã de ‘liberar’ as vontades reprimidas pela religião e outros aparatos sociais, tomaram só alguns aspectos isolados das projeções antropológicas da modernidade. A teoria freudiana sobre a sexualidade, ainda hoje, é interpretada com perspectivas diversas, bem alinhada com as reviravoltas copernicanas pós-kantianas.


Enfim, o escrito tem uma finalidade mais questionadora e provocativa. A preocupação exige de todos nós mais atenção ao modo como abordamos essa necessária ‘reconciliação’. A antropologia cristã, principalmente no Concílio Vaticano II, assumiu definitivamente a impostação personalista como pressuposto hermenêutico da questão. A importância da sexualidade na vida e para a existência cristã foi objeto do magistério petrino em São João Paulo II, Bento XVI (cf. Deus Caritas est, 3-8)) e, ainda mais recentemente, o Papa Francisco, com a Amoris Laetitia, que deve ser acolhida na sua integralidade, que mostram a atenção da Igreja devotada ao tema (cf. AL 280-286). É importante o aprofundamento e atenta prudência no trato destas questões. A nossa época o exige e a Igreja padece. Assim o seja!


Pe. Matias Soares

Pároco da paróquia de S. Afonso M. de Ligório

Natal-RN

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