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ARTIGO - Um encontro necessário

  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Pe. Matias Soares

Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal

Capelão da UFRN

 

A Igreja viveu nos últimos meses o preocupante Cisma testemunhado pelos Lefebvrianos, “apesar das generosas tentativas dos santos Paulo VI e João Paulo II, da decisão de revogar a excomunhão tomada por Bento XVI e das faculdades concedidas por Francisco, com as consagrações ilícitas realizadas contra a vontade do Papa, a Fraternidade volta a separa-se de Roma” (cf. https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-07/o-cisma-de-lefebvre-se-repete-apos-38-anos.html). Essa radical tomada de decisão já vinha sendo preparada. Sem dúvida, havia uma expectativa de que o Papa Leão retrocedesse no magistério desenvolvido pelos seus predecessores, especialmente, em relação ao de Francisco, que teve uma marca decisiva na implementação dos ensinamentos conciliares, especialmente na dimensão missionária e no estilo sinodal para toda a Igreja. Ainda temos que fazer uma ponderação mais ampliada deste acontecimento; pois, estes cismáticos são a ponta do icebergue de algo mais profundo, que são os que não aceitam na eclesiologia e nas ações os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Estes, que são mais católicos do que o Papa, que minam e ferem o corpo místico de Jesus Cristo, estão por aí, com seus cismas furtivos e traiçoeiros, nas redes sociais e nas celebrações tribais, dizendo claramente que não aceitam o que a legítima Tradição Viva nos ensinou, através dos sucessores dos apóstolos, no Concílio Ecumênico Vaticano II.

 

O paradigma da política, que a partir das bases ideológicas do “senhor e do escravo”, com raízes hegelianas, portadas às demais relações sociais, com canalizações universitárias até às perfurações institucionais, que colocam no jogo dialético a busca permanente da superação do nós contra eles, entrou com força nas várias eclesiologias contextuais pós-conciliar, gerando perplexidades e hermenêuticas bipolares das construções teológicas do Concílio e, com isso, impostações nominais como ‘direta e esquerda’, ‘conservador e liberal’, ganharam corpo e ‘partidos’, que corrosivamente empobrecem e desvirtuam a beleza e a grandiosidade eclesiológica do Concílio, com suas inovações bíblicas, litúrgicas, dialógicas, ecumênicas e missionárias. Nos distanciamos da eclesiologia do Povo de Deus e daquela do Corpo Místico de Cristo, tendo como referência o paradigma teológico, e em muitos casos nos deixamos envolver mais pelo das ciências humanas. O grande embate ideológico existente nas estruturas da Igreja no pós-concílio é na sua raiz um problema teológico. Até os nossos dias não conseguimos internamente ‘escutar’ as subjetividades contemporâneas. Quando estudamos a Crítica da Razão Pura (cf. Immanuel Kant), começamos a ter uma idéia de uma das suas grandes causas, que nos paralisam nas possibilidades pastorais que nos foram oferecidas pelo Concílio. Por isso, o apego obtuso de muitos ao movimento “retrópico” (cf. Z. Bauman) com a narrativa de auto-engano da fidelidade ao catolicismo ‘puro e simples’; mas sem comunhão com o que está sendo vivido pela Igreja na sua catolicidade, com Pedro e sob Pedro.

 

Desta forma, faz-se mister um ‘encontro necessário’ e sinfônico. Rogo-me aqui, subir nos ombros de um gigante da reflexão católica, o teólogo Hans Urs von Balthasar, que deu ênfase ao papel institucional de Pedro e de Maria ao carismático (cf. Esistenza Sacerdotale, pág. 47-58). Concernente especificamente a Pedro, o teólogo suíço afirma que “a Igreja visível não é algo abstrato, mas é concretizada em cada momento de modo simbólico-real nos homens e através de si mesma: por meio dos Doze com Pedro ao centro, como o campo sobre o qual é constituído o edifício”. E continua ele, “a promessa a Pedro (que Mateus acrescenta à primeira profissão de fé de Pedro no Messias, mas que talvez tenha sido pronunciada só depois da Pascoa), pressupõe já a chamada dos Doze, o seu deixar tudo e a sequela. A instituição e os poderes sacerdotais vem só em segundo lugar, precedidos de uma existencial ser-com Jesus. Nele, afirma Balthasar, “a instituição ou a missão é superior à pessoa: ‘Tu és Simão, mas serás Pedro’ - de novo o futuro torna-se tempo soberano”. Essa teologia do primado é irrenunciável à autêntica catolicidade da Igreja. Onde está Pedro, está a Igreja. Esse sinal visível de unidade é uma das marcas que fazem com que ela seja reconhecida como Una e Católica.

 

O encontro é o caminho para que de fato reencontremos a Verdade da nossa fé. Quando um Reino se divide, está a buscar a própria destruição (cf. Mt 12,25). Numa cultura tão marcada pelas negações e polarizações ideológicas, a Igreja não pode cair nesta armadilha do inimigo; pois, a comunhão é o sacramento da comunidade (cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/a-comunh%C3%A3o-o-sacramento-da-comunidade). A sua existência mais profunda deve ser sempre um reflexo do mistério trinitário. Em nossos tempos, com o Papa Francisco, e agora com Leão, reassumimos a emergência de sermos uma Igreja da comunhão, da participação à missão permanente, e isso “porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo” (cf. Lumen Gentium, 1). Sendo essa a preocupação dela mesma para as demais pessoas, ainda mais para ela mesma, na sua interioridade.

 

Desta forma, as categorias ideológicas com as quais muitos tentam estigmatizar quem faz parte da constituição da Igreja, como Povo de Deus e Corpo Místico de Cristo, graças ao batismo, precisam ser superadas pelo paradigma da teologia sinfônica e da justa hermenêutica, que favorece o desenvolvimento e a atualização das linhas mestras da eclesiologia presente nos documentos conciliares, mais especificamente na Lumen Gentium - Luz dos Povos - e na Gaudium et Spes - Alegria e Esperança. O contra testemunho eclesial dos Lefebvrianos deveria ser um alerta para todos; ainda mais àqueles que flertam com essas variações pré-modernas e carregadas de imaturidade eclesial. Aprendamos a caminhar juntos nas diferenças, sentindo com a Igreja e sendo confirmados na fé por aquele que é o único sucessor de Pedro, que, no momento reinante, é o Papa Leão XIV. Os desafios culturais nos puxam para a ‘ditadura do relativismo’; mas também, podemos buscar um fechamento que não foi a orientação dada por Jesus Cristo, quando nos enviou para anunciemos o Evangelho a toda criatura (cf. Mt 28, 19-20). Assim o seja!

 
 
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