ARTIGO - A contemporânea sede de amor
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Pe. George Vinicius Lima da Silva
Vigário paroquial da Paróquia de Santana e São Joaquim – São José de Mipibu
O poeta modernista Carlos Drummond de Andrade, em sua crônica intitulada A banda, escrita no ano de 1966, descreve o vazio existencial provocado pela ausência de afeto e humanidade, que somente o amor – em sua totalidade – pode saciar: “Pois de amor andamos todos precisados! Em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para frente!”. De fato, vivemos tempos sombrios, difíceis e confusos em que a violência, o ódio, o egoísmo, a prepotência, a indiferença parecem de tal maneira sobrepor o amor, a paz, a paciência, a compreensão, o perdão, a humildade e a caridade. Com isso, diagnosticamos a sede de amor, de sentido e de identidade, que o homem contemporâneo, carrega em si, assemelhando-se a Samaritana do Evangelho (cf. Jo 4,5–42), encontrando em Jesus, a fonte da água viva, o verdadeiro amor que a compreendesse e preenchesse o seu interior de esperança e vida.
Estamos acompanhando com tristeza, preocupação e medo as guerras acontecendo e as vidas inocentes sendo ceifadas injustamente e desumanamente de modo que a paz que tanto pedimos e almejamos se torna quase que uma utopia. A humanidade ainda não aprendeu com o passado e caminha para sua repetição, aumentando ainda mais as feridas – não curadas e jamais esquecidas – das duas guerras que já tivemos, fruto de um pensamento egoísta, quando homem se coloca como seu próprio “deus e senhor”, considerando-se o dono do mundo. A humanidade carece de amor e percebemos que em tudo falta o amor. O diário de Anne Frank – obra incrivelmente formidável que todo ser humano deveria conhecer e lê – retrata de forma emocionante a vida de uma menina judia, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), revelando-se um forte testemunho da força e da resiliência humana – fruto de um coração movido pelo amor e esperança – diante da adversidade e, ao mesmo tempo, oferecendo uma visão centrada no sofrimento que a humanidade padece, longe do amor.
Desse modo em meio ao clima conturbado e de incerteza, Anne começa a escrever em seu diário, ganhando-o em 12 de junho de 1942, no dia de seu aniversário de 13 anos e recebendo-o como presente de sua irmã Margot e de sua mãe, Edith. A primeira vez que ela escreveu foi em 14 de junho de 1942 e, ao longo do tempo, o diário se tornou um refúgio emocional para a jovem Anne. Mesmo passando e sendo vítima da maldade humana, Anne Frank conseguia contemplar a beleza e a bondade existente no ser humano, quando afirma “Apesar dos pesares eu ainda acredito na bondade humana”. O ser humano, criado segundo a imagem de Deus, em sua essência é bom (cf. Gn 1,26 – 31), ao ponto de ser criado um pouco acima dos anjos e coroado de honra (cf. Sl 8, 6), fixando no seu coração, através do amor aos mandamentos, a sua morada (cf. Jo 14, 23).
O Papa Bento XVI descreve a essência do amor de Deus como uma questão fundamental de identidade: “O amor de Deus por nós é questão fundamental para a vida e coloca questões decisivas sobre quem é Deus e quem somos nós” (Deus Caristas Est, 2). A identidade do homem em nossos tempos, continua em crise. Por isso, utilizamos a interpelação antropológica do salmista “Quem é o homem, Senhor?” (Sl 8, 4) e respondemos que somente em Cristo (o Verbo Encarnado), releva-se verdadeiramente o mistério e a identidade do homem (GS 22). Assim sendo, quando o homem se afasta de sua verdadeira essência e natureza, perde-se o sentido e o realismo de sua existência, pois somente Deus, que é o seu Criador e revelado pelo seu Filho, Jesus Cristo, como amor (cf. 1Jo 4, 16), pode realmente preencher o vazio e a inquietude – uma inquietude ontológica – que habita no íntimo de cada pessoa, revelando a sua identidade, a partir da experiência belíssima do amor pascal.



