ARTIGO - A tenda do encontro: uma Igreja que acolhe, caminha e se alarga

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal
Entre as imagens escolhidas pelas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2026–2032), destaca-se, por sua força bíblica e pastoral, a imagem da tenda. Essa metáfora ajuda-nos a compreender a identidade e a missão de uma Igreja que não se fecha em si mesma nem permanece imóvel, mas caminha com a humanidade, discerne os sinais dos tempos e se mantém aberta à presença de Deus. Sustentada pelas firmes estacas da fé, da esperança e da caridade, essa tenda torna-se espaço de comunhão, participação e missão.
A imagem da tenda é muito recorrente nas Sagradas Escrituras. Em Gênesis (18,1-8), à entrada da tenda de Abraão, junto ao carvalho de Mambré, acontece o encontro com três visitantes misteriosos, nos quais o patriarca reconhece a presença do próprio Deus. Abraão corre ao encontro deles e oferece-lhes água, alimento e repouso. É nesse gesto generoso de hospitalidade que ele recebe o anúncio do nascimento de Isaac. A tenda torna-se, assim, lugar de acolhimento, encontro e promessa. Ao abrir espaço para o outro, Abraão acolhe a visita do próprio Senhor.
No Êxodo, a tenda recorda a condição peregrina do povo de Israel. A caminho da Terra Prometida, o povo não possui morada definitiva, arma e desarma suas tendas conforme avança pelo deserto e recebe de Deus uma nova direção. Por isso, a tenda fala de mobilidade, discernimento e disponibilidade. Também a Igreja não pode confundir fidelidade com imobilidade. Há estruturas e métodos que serviram bem em determinado momento, mas podem ser revistos quando já não favorecem o anúncio do Evangelho.
Após as dores do exílio, o profeta Isaías dirige ao povo uma palavra cheia de esperança: “Alarga o espaço da tua tenda” (Is 54,2). Alargar a tenda é voltar a acreditar na promessa de Deus. É abrir espaço para quem chega, acolher quem se encontra distante e permitir que a esperança seja maior do que os nossos medos. Uma Igreja que se alarga não perde sua identidade; ao contrário, manifesta com maior clareza sua vocação de mãe, capaz de gerar novos filhos na fé e de oferecer abrigo aos feridos da história.
No Evangelho, essa imagem alcança sua plenitude: “E o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14). O Verbo “armou sua tenda” no meio da humanidade. Em Jesus, Deus não permanece distante, assume nossa condição humana, partilha nossas fragilidades e percorre nossos caminhos. Cristo é a verdadeira tenda do encontro entre Deus e a humanidade. Nele, somos acolhidos, restaurados e conduzidos à morada definitiva que o Pai nos prepara.
A imagem da tenda, contudo, também nos impede de romantizar a realidade. Em nosso tempo, muitas tendas e barracas são sinais de vulnerabilidade. Nelas vivem refugiados, migrantes, pessoas em situação de rua e famílias privadas de uma moradia digna. A Igreja não pode apenas convidá-las a entrar em sua Tenda, mas precisa aproximar-se das tendas improvisadas dos pobres que lutam pela sobrevivência e onde o próprio Cristo continua esperando acolhimento.
O grande desafio da Igreja hoje é firmar as estacas da fé, da esperança e da caridade sem estreitar a tenda. Fiel ao Evangelho e aberta à conversão pastoral, ela acolhe, escuta e discerne; não espera que as pessoas venham, mas sai ao encontro delas e arma sua tenda onde a vida acontece. Como “hospital de campanha”, cuida dos feridos; como mãe, gera na fé; como povo peregrino, caminha na esperança. A exemplo de São Paulo, fabricante de tendas e construtor de comunidades, anuncia o Evangelho e reúne discípulos missionários, pois “não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hb 13,14).



