ARTIGO - Sínodo arquidiocesano de Natal – Sacramentos: experiência de fé e de transcendência

Tállison Ferreira da Silva
(Delegado Sinodal)
A III Assembleia Sinodal conduziu-nos a uma profunda reflexão acerca do Diretório dos Sacramentos. Foi um tempo fecundo de oração, estudo e discernimento comunitário, no qual a Igreja se colocou diante de si mesma para compreender, à luz da fé, aquilo que celebra e testemunha no cotidiano de sua missão. Nas palavras do assessor, Pe. Ricardo Rubens, da Diocese de Santa Luzia de Mossoró (RN), “o sínodo nos convida, pelo tema dos sacramentos, a refletir sobre o que cremos, celebramos e vivemos, porque a vida sacramental está também no âmbito da pastoral”.
Os sacramentos — Batismo, Eucaristia, Confirmação (Crisma), Penitência, Unção dos Enfermos, Ordem e Matrimônio — constituem sinais visíveis e eficazes da graça divina. Mais do que práticas religiosas isoladas, inserem o ser humano em uma experiência de comunhão, santificação e abertura ao mistério de Deus. Neles, a fé não permanece confinada ao âmbito das ideias, mas se faz gesto, palavra, celebração, compromisso e modo de existir.
Nesse sentido, a iniciação cristã não pode ser reduzida ao Batismo. Ela constitui um itinerário existencial de fé, que encontra na Eucaristia e na Confirmação (Crisma) momentos fundamentais de amadurecimento e fortalecimento da vida cristã. Sob a ação do Espírito Santo, o ser humano é continuamente chamado à reconciliação, à paz, à comunhão e ao serviço, a fim de viver plenamente sua vocação. Assim, ninguém deve permanecer à margem da experiência sacramental da Igreja.
Sob uma perspectiva filosófica, os sacramentos podem ser compreendidos como experiências simbólicas nas quais se entrelaçam imanência e transcendência. O símbolo possui precisamente essa capacidade de ultrapassar aquilo que imediatamente apresenta. O sacramento, portanto, não é apenas um sinal exterior de uma realidade invisível, mas uma linguagem por meio da qual a existência humana se abre ao mistério e encontra possibilidades de significação para além daquilo que é imediatamente perceptível. É nesse horizonte que a filosofia de Paul Ricoeur (1913-2005) oferece uma chave hermenêutica relevante. Em sua reflexão sobre o símbolo, o filósofo compreende que o sentido não se esgota naquilo que aparece de maneira imediata. O símbolo provoca o pensamento, conduzindo-o para além de si mesmo. O visível pode, assim, remeter ao invisível; o finito pode abrir-se ao infinito; e a experiência concreta pode tornar-se lugar de manifestação de um sentido que a transcende.
A vivência dos sacramentos compreende também uma dimensão ética e pastoral. Os sacramentos não podem ser relativizados, comercializados ou banalizados, pois não são mercadorias submetidas à lógica do mercado nem objetos destinados à satisfação de interesses particulares. São dons da graça de Deus confiados à Igreja e destinados à vida e à santificação de seu povo. Por isso, como enfatizou Dom João Santos Cardoso em sua palavra na abertura da III Assembleia Sinodal, a graça não se vende e o pobre não pode ser privado daquilo que pertence à própria missão evangelizadora da Igreja. Isso, contudo, não nos exime de nossa pertença e corresponsabilidade pela manutenção da Igreja.
A reflexão da III Assembleia Sinodal recorda-nos, portanto, que uma Igreja verdadeiramente sinodal é aquela que caminha com o seu povo, escuta suas necessidades, discerne os sinais dos tempos e procura tornar acessíveis a todos os meios pelos quais a graça se manifesta. Os sacramentos, celebrados com dignidade, profundidade e espírito de comunhão, podem renovar a consciência de que a Igreja não existe para si mesma, mas para anunciar, celebrar e testemunhar a presença de Deus na história.



