ARTIGO - A política e as crises institucionais

Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Conj..Mirassol - Natal
Capelão da UFRN
O Brasil acompanhou, com tristeza e preocupação, o cenário eivado de joguetes interesseiros e estratagemas pérfidos, o que aconteceu no Supremo Tribunal Federal - STF - na segunda-feira (15/09/26). O cenário estava perpassado de joguetes interesseiros e estratagemas pérfidos, com suas elucubrações aguerridas e intenções partidarizadas bem direcionadas. O despreparo técnico e os comportamentos indignos de pessoas que não ‘honram’ o lugar que ocupam, com sua importância para os rumos do povo brasileiro, ficaram às claras. As incoerências e o clima odioso, com três grupos na rinha ou na furtividade devedora: os prós e contra Morais, com os demais que estão sendo citados nas tramas que envolvem o Vorcaro. Urge considerar a postura, até agora, mais coerente e digna, da ministra Carmén Lúcia. Contudo, temos que seguir na descrição e análise do que temos no atual e futuro contexto político, que tem na Suprema Corte o seu objeto simbólico; pois, o que está acontecendo naquela casa, sem dúvida, terá repercussões no que sucederá nas próximas eleições e nos seus desdobramentos.
Já faz alguns anos que os ministros do Supremo têm assumido os holofotes políticos e mediáticos no Brasil. Essa exposição excessiva tem sido problemática. A própria escolha dos magistrados é recheada de vícios, que obscurecem a liberdade dos mesmos quando chegam ao exercício das suas funções magistrais. Todos têm seus padrinhos políticos, com a dependência aprovativa do senado federal. A probidade técnica e jurídica não tem tido deveras a última palavra. As conveniências ideológicas e interesseiras assumem o critério mais importante. Já escutei de magistrados e membros do ministério público comentários depreciativos, quanto às qualificações de alguns que assumem aqueles cargos. O que significa que faz-se necessário uma reforma no processo de escolha daqueles que têm uma missão de fundamental importância aos rumos da República Federativa do Brasil. Uma instituição que não considera as qualificações humanas, éticas e acadêmicas dos seus operadores mais importantes, está fadada a ver exposta de forma circense e vergonhosa, o que existe de fato nas suas coxias e submundos, como tivemos a lastimável oportunidade de acompanhar nos acontecimentos recentes.
A política brasileira é um fracasso sistêmico. Existe por causa da sua necessidade comunitária, já que “somos animais políticos”; mas não está aí para servir à sociedade brasileira, como um todo. Existe para partes. É elitista e corrosiva do espírito público. Um sintoma mais recente desta decrepitude são as “emendas parlamentares”. Elas existem para que os representantes do povo, que estão no Congresso, sejam cooptados pelo chefe do executivo, que torna-se refém dos deputados e senadores, que, por sua vez, têm os meios para fazer as campanhas com o dinheiro do próprio povo. Há jogos de conveniência. Além de tudo isso, as dificuldades na transparência de como esse dinheiro é usado e os caminhos que são feitos até que os valores cheguem lá na ponta dos municípios. Havia uma pequena esperança de que o judiciário, representado pelo Supremo, pudesse pautar critérios de consecução da justiça; mas, agora, estamos diante de um profundo impasse e desencantamento geral. A crise na República está ampliada e o que nos aguarda poderá ser ainda pior, já que, no campo político, há tantos candidatos a cargos eletivos, que estão envolvidos com a esculhambação arquitetada pelo banqueiro.
Diante de tudo o que estamos vendo, o problema é que as instituições, que poderiam iluminar a política, foram contaminadas por esta forma nefasta de acontecer: política ↔ corrupção ↔ dinheiro. Muitas expressões eclesiais também estão lambuzadas com esse modus operandi. Precisamos urgentemente daquela “melhor política”, sobre a qual nos ensinava o Papa Francisco (cf. Fratelli Tutti, cap. V). A reflexão sobre a sua importância e sua razão de ser, não deveria ser negado por muitos setores da sociedade. Sem essa formação e conscientização, entramos nessa forma nociva de vivê-la, que só interessa aos demagogos, que fazem da politicagem um meio de vida. Esses desmandos fazem com que os homens probos não desejem assumir essa forma de praticar a justiça social e o bem comum. Ainda existe algo mais preocupante: dependendo do lugar de fala, a partir do qual abordamos essa questão, poderemos ser tratados com violência, desrespeito e intolerância por aqueles que tornaram-se massa de manobra dos políticos carismáticos do nosso Brasil contemporâneo.
Sendo assim, é tempo de discernimento e prudência. Apesar de tudo, não podemos permitir que nos roubem também a esperança e, dentro do que for possível, não pequemos por omissão. Todos nós, cidadãos, temos que nos mobilizar, seguindo os meios possíveis e legítimos, para que as denúncias sejam investigadas; desde que tenham fundamentos. Há muitos sinais que colocam vários representantes públicos sob suspeita. A verdade e a justiça precisam prevalecer. Sem estas, a credibilidade das instituições e agentes públicos mencionados irá ao fundo do poço. A democracia, sobre a qual, verborragicamente, tanto falou-se nos últimos tempos, também passa pela punição das condutas ilícitas daqueles que não estão acima da lei. Não são semideuses, que só decidem sobre a vida dos outros. Eles também podem ser investigados e devem assumir suas culpas, dentro do justo processo legal. Em nossos dias, as paixões partidárias estão dando as cartas, infelizmente. Todavia, assumindo a nossa responsabilidade cívica e cidadã, temos a obrigação de conclamar a todos para que sejamos lúcidos e razoáveis na busca do que for melhor para o nosso país. Assim o seja!



