top of page

ARTIGO - Maria Santíssima, maio e mitologia

  • há 15 horas
  • 3 min de leitura

Padre João Medeiros Filho

Capelão do Mosteiro das Filhas de Santana

 

  Durante o mês de maio, os católicos homenageiam Maria Santíssima, Mãe de Cristo e dos homens. Na primavera europeia, especialmente em maio, mês em que as rosas desabrocham e florescem, quis a Igreja comemorar a beleza da Rosa Mística”, como se recita em uma das invocações da Ladainha de Nossa Senhora, conhecida igualmente por “Ladainha Lauretana”. É justo e merecido esse preito de gratidão à Virgem, a perfeita discípula do Evangelho, modelo dos fiéis e de todas as mães da terra.


Desde a Antiguidade, antes mesmo do nascimento de Cristo, ligava-se maio a uma personagem feminina. Sua denominação deriva de uma homenagem a “Maia”, diva da mitologia greco-romana. Segundo estudiosos, trata-se da mais jovem das sete Plêiades, filhas do titã Atlas e da ninfa Pleione (Vênus). Era mãe de Hermes, mensageiro dos deuses, deidade do renascimento, portanto, associada à primavera, que, no hemisfério norte, atinge o seu esplendor no quinto mês do ano. Mas, antes de existir no calendário organizado por Rômulo, quando da fundação da cidade de Roma (753 A.C), um mês com tal nome, já havia uma ligação desse período anual com um arquétipo feminino. De acordo com astrônomos, a constelação que mais se destaca nas noites desse mês é justamente a de Virgem, com sua brilhante estrela Spica. Esta era invocada como protetora das atividades de jardinagem. Assim, durante tal período, o céu passou a ser associado à figura de uma mulher. Vale salientar que a constelação de Virgem já foi conhecida como “Anna”, a deusa do céu e esposa da divindade suméria Anu. Outrora esteve ligada a Deméter, nume romana da agricultura e a Eva, esposa de Adão, mãe dos viventes, segundo o relato do Gênesis.


Com o advento do cristianismo, uma nova e grandiosa figura feminina destacou-se: Maria Santíssima, a Genitora de Cristo. E assim, a veneração à Mãe do Salvador veio preencher uma lacuna existente no catolicismo, religião até então exclusivamente patriarcal. De acordo com a tradição católica, o fato de Nossa Senhora ser filha de Ana – cujo nome era ligado à constelação de Virgem – contribuiu ainda mais para que houvesse tal associação. Cabe ressaltar que, segundo a teologia católica, Maria é chamada de nova Eva, o que veio reforçar tal analogia. Diga-se, de passagem, que, no Evangelho de Lucas (Lc 1, 28), o anjo Gabriel saúda Maria de Nazaré com a palavra Ave, que é o inverso de Eva.


O calendário romano, atribuído a Rômulo, foi modificado por Júlio César (45 A.C) e reformado pela Bula Papal “Inter gravíssimas”, promulgada em  24 de fevereiro de 1582 pelo Papa Gregório XIII, daí o nome de “calendário gregoriano”. Desde o início, verifica-se no calendário influência da cultura grega, o que se pode inferir dos nomes de alguns meses e dias da semana. Antes das mudanças, o quinto mês do ano era dedicado ao deus Apolo (irmão gêmeo de Ártemis), que recebeu de Hipérion o sol, a lua e a aurora. A lenda conta ainda que Apolo matou uma grande serpente, chamada Píton, que atemorizava o povo. A iconografia católica representa a Virgem Maria (sob o orago de Imaculada Conceição) pisando a cabeça de uma serpente.


Nossa Senhora, ao longo da história, recebeu incontáveis e merecidos títulos de seus devotos, oriundos de diversos países. Alguns exemplos: Nossa Senhora de Fátima, Lourdes, Guadalupe etc. É venerada como a “Rainha dos Céus.” Canta a prece “Ave, Regina Coelorum” (Salve, Rainha dos céus), uma das antífonas rezadas ou cantadas, durante o ano litúrgico, concluindo a oração de Completas na Liturgia das Horas. Na Ladainha de Nossa Senhora há uma invocação, denominando-a “Porta do Céu” (“Janua Coeli”). É justo reverenciar a Genitora de Jesus como: “Face feminina do Divino, “Expressão terrena do Eterno”, nas palavras do saudoso escritor Luiz Paulo Horta. Nossa Senhora é homenageada como “Mulher, espelho de Deus”, no dizer poético de São Boaventura, lembrando que Ela exaltou os pobres e gerou Jesus Cristo. Lembremo-nos de Nossa Senhora como “A Compadecida”, da dramaturgia de Ariano Suassuna; “O mais belo sorriso de Deus”, nas preces de Oswaldo Lamartine; a “Onipotência Suplicante”, na poesia de São Bernardo de Claraval. “Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.” 

 
 
bottom of page