ARTIGO - Existir é mais do que estar no mundo

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal
Recentemente, recebi de um filósofo uma reflexão que me fez pensar: “Existir não é só o fato de ser uma pessoa no mundo. É existir como alguém que dá sentido à minha existência também!”. A frase, aparentemente simples, toca uma das questões fundamentais da filosofia: a relação entre existência e sentido.
O mundo está repleto de realidades que existem independentemente de nós. Montanhas, rios, árvores, paisagens, animais e pessoas possuem existência própria. Entretanto, quando estabelecemos com essas realidades uma relação significativa, algo extraordinário acontece. Sem perderem sua autonomia, passam a integrar nossa história e nosso universo de sentidos.
Uma árvore pode ser simplesmente uma árvore. Mas aquela sob cuja sombra brincamos na infância torna-se memória, afeto e pertencimento. Um rio pode ser apenas um acidente geográfico. Entretanto, para quem cresceu às suas margens, suas águas carregam lembranças. Uma rua qualquer pode guardar a memória de um encontro que transformou uma vida.
Nada disso acrescenta existência às coisas. O sentido não cria o ente, mas transforma nossa maneira de encontrá-lo e revela uma dimensão de sua presença que ultrapassa a simples constatação de sua existência. Aquilo que antes era apenas percebido torna-se experiência. O que parecia exterior passa a habitar nossa interioridade. O que parecia indiferente adquire valor e significado. Não se trata de transformar a realidade em mera projeção de nossos sentimentos, mas de reconhecer que a existência humana não se realiza diante de um mundo de coisas isoladas, e sim no interior de uma trama de relações que conferem profundidade à nossa experiência de ser. Assim, o sentido não acrescenta ser àquilo que existe, mas confere profundidade à nossa maneira de existir e de nos relacionarmos com o mundo.
Martin Heidegger, em Ser e Tempo, compreende a existência humana como um ser-no-mundo. Não somos sujeitos isolados diante de objetos indiferentes. Existimos num horizonte de relações e significações. O mundo não é apenas aquilo que contemplamos, mas também aquilo com que nos envolvemos existencialmente.
Martin Buber aprofunda essa reflexão ao distinguir as relações “Eu-Isso” e “Eu-Tu”. Na primeira, prevalece a atitude de conhecer ou utilizar. Na segunda, acontece o encontro, no qual o outro é reconhecido em sua singularidade. A relação deixa de ser instrumental e torna-se presença.
Talvez resida aqui uma das grandes contradições contemporâneas: multiplicamos contatos, acumulamos experiências e percorremos lugares, mas nem sempre cultivamos vínculos que confiram profundidade à existência. Podemos estar cercados de pessoas e permanecer solitários; possuir muitas coisas e experimentar um profundo vazio.
Existir plenamente é mais do que ocupar um lugar no mundo. É deixar-se tocar pela realidade, reconhecer a singularidade do outro e transformar encontros em vínculos, experiências em memória e presença em comunhão. Afinal, a verdadeira riqueza da existência não se mede pelo que possuímos ou pela quantidade de pessoas que conhecemos, mas pela profundidade das relações que cultivamos. O sentido não acrescenta ser àquilo que existe, mas revela a profundidade do nosso próprio existir.



