ARTIGO - A peregrinação é um mosaico

Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Conj. Mirassol - Natal
Capelão da UFRN
No período de treze a vinte e oito de outubro, vivi uma ‘peregrinação’ com um grupo de paroquianos e outras pessoas que entraram conosco para viver este momento de fraternidade, cultura e espiritualidade. Falar de peregrinação é adentrar no âmago da religiosidade popular, que são expressões espirituais que brotam do coração do povo de Deus. O teólogo J. Ratzinger a percebia como “a grande força da Igreja, simplesmente porque está radicada no coração do homem e exprime verdadeiramente, por assim dizer, a alma do homem, transforma o cristianismo num ‘pensar e sentir’ (cf. OPERA OMNIA, 13/3, Ed. VAT. Pág. 153). Ancorar, pensar e sentir no coração humano é trazer para o centro da reflexão acerca da peregrinação uma visão integral do que é importante que seja a espiritualidade de uma peregrinação cristã.
O teólogo alemão também afirma que “é importante que existam lugares nos quais a experiência de séculos seja tangível; nos quais se possa ver como acreditaram, esperado e pregado todas as gerações precedentes e onde nós mesmos, por meio deste ver e escutar, ‘estando juntos’, podemos crescer na experiência da fé” (cf. Idem. Pág. 154). Por isso, a peregrinação é um mosaico de contemplação, olhares diversos e possibilidades de reconhecimento das diferenças históricas, sociais e culturais. Ela nos abre ao passado que é renovado; nos mostra um presente que é explicado por vidas com protagonismo. Na peregrinação todos nos auto-compreendemos como ‘homens-mulheres viajantes’. Por sermos peregrinos em busca da realização das promessas de Deus, nos tornamos testemunhas da Esperança.
O Papa Francisco trata da ‘religiosidade popular’ na Alegria do Evangelho (cf. EG, 122-126). Para o pontífice argentino, esse tipo de vivência da fé “não é vazia de conteúdos, mas descobre-os e exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental e, no ato de fé, acentua mais o credere in Deum que o credere Deum. É ‘uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários’; comporta a graça da missionariedade, ‘do sair de si e do peregrinar’: O caminhar juntos para os santuários e o participar em outras manifestações da piedade popular, levando também os filhos ou convidando a outras pessoas, é em si mesmo um gesto evangelizador” (cf. Idem. 124). O que vivemos, enquanto grupo de fiéis, foi essa forma de celebrar a fé, durante estes dias: as preparações espirituais, as reuniões, os encontros, o apoio mútuo, os esquecimentos, as dúvidas nos aeroportos, a alegria do estar juntos e, por último, mas não menos importante, considerando o cenário, evitar assuntos que gerassem algum dissabor na convivência.
Enquanto grupo, passamos pelas cidades de Assis, Roma, Atenas, Corinto - algumas ilhas gregas - Esmirna, Éfeso, İstanbul e Lisboa. Ainda agregamos visitas a Pagani, onde está sepultado Santo Afonso, Cássia e Pompéia. Foram muitas as percepções culturais, momentos de confraternização e de espiritualidade, que tiveram na celebração diária da Santíssima Eucaristia o seu ponto culminante. O peregrino católico não poderia deixar de elevar o mais digno louvor a Deus, numa peregrinação, sem a Celebração Eucarística, como o coração desta vivência catalisadora da esperança cristã. Por isso, a importância de um sacerdotes, como ‘diretor espiritual’ em cada grupo. Tendo em vista esses pressupostos, convém, por questão de ordenamento, declinar sobre esses três elementos constitutivos deste mosaico, a saber: 1- A fraternidade; 2- A cultura; e 3- A espiritualidade.
1- A fraternidade: a ideia da nossa peregrinação surgiu, em anos passados, num contexto de confraternização com um círculo do ECC da nossa Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligorio. A ideia foi tomando corpo, até que foi feita a solicitação à Obra de Maria, duma proposta de viagem, com o objetivo claro de que gostaríamos de fazer uma peregrinação. Pouco a pouco, alguns paroquianos e demais interessados foram aderindo à proposta. Pessoas de Mossoró e até de outros estados - Goiás e Amapá - juntaram-se ao grupo. A construção da irmandade aconteceu de modo gradativo e continuado. A ajuda mútua e a integração aconteceu desde as nossas reuniões preparatórias até aos momentos finais da jornada. A vida cristã é autenticada historicamente pelo testemunho de fraternidade. Durante a peregrinação, muitas oportunidades de amizades e alegria são tidas, principalmente quando o que nos motiva são os valores do Evangelho.
2- A cultura: a construção social dos fenômenos humanos é cultura. Ela faz a história, seja ela religiosa, economica, política etc. Durante estes dias, tivemos a oportunidade de transitar por muitos sinais destas engenharias. As visitas aos lugares sacros, museus, monumentos, cidades, palestras e testemunhos, são como que ‘lugares antropológicos’ nos quais os reconhecemos enquanto seres humanos, com as subjetividades, que elevam o dinamismo da história. Neste sentido, foi é providencial o discurso do Papa Leão XIV da quarta-feira (28/10/26), no qual o mesmo afirmou que “enquanto expressões da dimensão espiritual do ser humano, as várias manifestações da cultura contribuem para abrir as mentes às perguntas perenes sobre o sentido do mundo e da existência humana, preparando assim para receber o Evangelho de Jesus Cristo”. Ainda afirmou que “A relação entre fé e cultura encontra o seu fundamento principal na Encarnação: se a Palavra divina se fez carne e veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14), então também a fé é uma realidade encarnada, entrelaçada com a cultura em que está inserida” (cf. https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2026/documents/20261028-udienza-generale.html). Nesse sentido, a cultura torna-se via irrenunciável à espiritualidade da peregrinação.
3- A espiritualidade: viver segundo o Espírito é o fundamento da nossa ‘espiritualidade cristã’ (cf. Rm 8,5-17). Viver segundo o Espírito é o fundamento à compreensão da nossa espiritualidade. As narrativas espiritualistas dos nossos dias têm explorado amiúde essa temática. Alguns movimentos religiosos em nossos dias têm apropriado-se destes discursos, tomando distância do seu conteúdo mais profundo. Partindo do dado revelado, como foi sublinhado anteriormente pelo ensinamento do Papa Leão, portando o mistério da Encarnação, sinfonicamente unido ao da Páscoa, é que nós, como cristãos, falamos sobre espiritualidade. Existem variações de tradições espirituais, como tivemos a oportunidade de perceber em nossa peregrinação; contudo, para nós, cristãos, “uma só é necessária” (cf. Lc 10,42). Essa consciência é o que nos dar fundamento e liberdade para estarmos no mundo e em contato com as variadas diferenças culturais, sem sermos do mundo, nem renegarmos a nossa fé. Por isso, a celebração diária da Santa Eucaristia ocupa o lugar central de cada jornada e de toda a peregrinação.
Por fim, seja por estes lugares, ou por nossas realidades brasileiras e potiguares, a peregrinação é um método de reconhecimento dos testemunhos dos que nos precederam na fé; já que somos um ‘povo peregrino’ (cf. LG, cap. VII). Enquanto Igreja Particular de Natal, precisamos valorizar ainda mais os santuários e lugares de peregrinação existentes em nossa realidade eclesial: os dos Protomártires e demais santuários do RN. Alguns destes espaços ainda necessitam de mais organização estrutural e humana ao seu melhor funcionamento e acolhimento dos peregrinos. Quando conhecemos outras realidades, retornamos com mais consciência disso. Continuemos a aprofundar essas possibilidades, tendo presente o valor das peregrinações como canais de evangelização e bem espiritual ao ser humano contemporâneo, que continua a ter, como o do passado, sede de Deus. Assim o seja!



