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A unidade do mandamento do amor a Deus e do amor ao próximo


Por Pe. Paulo Henrique da Silva Professor de Teologia


No Antigo Testamento, após Deus ter manifestado o seu amor, a sua compaixão, para com o povo hebreu, escravo no Egito, libertando-o,  pela ação de Moisés e Aarão, depois de o povo ter chegado ao Monte Sinai, passado pelas muitas provações, algumas delas devido à ingratidão do povo, após ter recebido o Decálogo (os Mandamentos), depois de ter sido infiel a Deus, adorando um bezerro de ouro, e Moisés ter intercedido a Deus pelo povo, depois de Deus ter renovado o seu compromisso com o povo, dando-lhe novamente as tábuas da Lei, eis que Deus exige do seu povo o temor e, especialmente, o amor incondicional a Ele: “Escuta, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu vigor” (Dt 6,4s). São palavras que introduzem o significado dos Mandamentos, tornando-se o “maior mandamento”, o mandamento por excelência. E no Código de Santidade, expresso no Livro do Levítico (cf. capítulos 18 a 26), se apresentará o eixo de todo esse conjunto de leis, com o mandamento do amor ao próximo (cf. Lv 18,19).


                Jesus assume esses dois mandamentos, e ensina a total implicação de um no outro. E essa unidade é tão forte que, mesmo que o próximo se torne nosso inimigo, Jesus exige amor para com ele, o apresenta como sinal como essência da lei ensinada por ele, dando o sentido da perfeição para o jovem rico, desejoso de obter vida eterna (cf. Mt 19,19). Jesus considera os dois mandamentos, o do amor a Deus e o do amor ao próximo, como o “apoio” de toda a Lei e dos Profetas (cf. Mt 22,39), e ainda afirma que o caminho para o Reino de Deus passa pelo entendimento da unidade desses dois mandamentos (cf. Mc 12,28-34). Em Lucas, para reforçar mais ainda essa unidade, Jesus conta a parábola do samaritano compassivo, afirmando que agindo com amor ao próximo, e mais precisamente, fazendo-se próximo dos outros, teremos a verdadeira vida. São Paulo dirá que os mandamentos relacionados ao semelhante, têm a sua síntese nesta palavra: “Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Rm 13,9) e aí reside a plenitude da lei (cf. Gl 5,14). E em Gálatas, o Apóstolo é contundente, relacionando a fé com o amor: “a fé que age pelo amor” (Gl 5,6, fides, quae per caritatem operatur). Na carta de São Tiago, cumprir a lei do reino é amar o próximo (cf. Tg 2,8), e na primeira carta de Pedro, o amor fraterno é fruto da purificação na obediência à verdade (cf. 1Pd 1,22).


                Mas, será no Evangelho segundo São João e na sua primeira carta, onde encontramos as afirmações ainda mais fortes sobre essa unidade do mandamento do amor. Primeiro, Jesus afirma que o amor ao próximo não está relacionado ao amor-próprio, mas sim ao amor de Jesus (cf. Jo 13,34, “como eu vos amei”, cf. tb. 15,12.17). Esse é o mandamento de Deus: crer em Jesus e amar-nos uns aos outros (cf. 1Jo 3,23). A unidade dos dois mandamentos é expressa na primeira carta de São João como realidade muito antiga (cf. 1Jo 2,7), mas que alcança em Jesus ele se renova mais ainda. Se estamos na luz, então não podemos odiar o irmão (cf. 1Jo 2,9), pois se não amamos o irmão, estamos nas trevas, e assim nos tornamos “filhos do Diabo” (cf. 1Jo 3,10). É um verdadeiro estilo de vida que o mandamento do amor traz para nós. Porque Deus é amor (cf. 1Jo 4,8.16), amar o próximo é manifestação de que fomos “gerados” por Deus, conhecemos a Deus (cf. 1Jo 4,7). Amar é consequência do amor de Deus por nós (cf. 1Jo 4,11). E, “nós amamos porque ele, por primeiro, nos amou” (1Jo 4,19). São João dá o veredicto sobre essa unidade do amor a Deus e do amor ao próximo: “Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar o seu irmão, é um mentiroso, pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?” (1Jo 4,20).


                Essa unidade do amor a Deus e do amor ao próximo coloca-nos no mistério de Deus que se dá a conhecer em Jesus e na realidade humana como imagem e semelhança de Deus. Podemos reconhecer assim que há uma verdadeira reciprocidade de inclusão de um no outro. “Não existe nenhum amor a Deus que não seja em si mesmo já amor ao próximo e que através do exercício do amor ao próximo não alcance o seu fim. Só quem ama o próximo pode saber quem verdadeiramente seja Deus. E só quem, profundamente, ama a Deus, pode chegar a entrar incondicionalmente em relação com o outro, sem torná-lo um meio para a própria autoafirmação” (Karl Rahner).

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