ARTIGO - Homem e mulher os criou
- há 6 horas
- 3 min de leitura

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal
O ministério pastoral tem me proporcionado uma experiência profundamente rica: a escuta. Entre celebrações, visitas, conversas e partilhas, nós, pastores, vamos tomando contato com inquietações silenciosas que habitam o coração das pessoas. Muitas delas revelam feridas profundas da alma humana e ajudam a compreender desafios culturais e espirituais do nosso tempo.
Algumas mulheres têm manifestado preocupação diante de um fenômeno crescente nas redes sociais e em determinados ambientes digitais: a chamada "machosfera". Trata-se de um conjunto de comunidades virtuais e influenciadores que difundem determinadas concepções de masculinidade, frequentemente marcadas pela desconfiança, hostilidade ou desprezo em relação à mulher. Em alguns desses espaços — associados a expressões como "red pill", "MGTOW" ou "incels" — percebe-se a propagação de discursos que reforçam antagonismos entre homens e mulheres, geralmente apresentados como reação às mudanças culturais contemporâneas e às transformações nas relações afetivas e sociais.
Embora esse fenômeno tenha origem no ambiente digital, suas repercussões ultrapassam as redes sociais e alcançam a vida concreta, influenciando comportamentos, afetos e formas de convivência. Por isso, ele merece ser observado com serenidade e discernimento, à luz do Evangelho e da dignidade da pessoa humana.
Sem alimentar polarizações, é preciso reconhecer que certos discursos banalizam a mulher, relativizam violências simbólicas e emocionais e até utilizam textos bíblicos para justificar posturas de dominação.
A Sagrada Escritura, porém, não pode ser lida isoladamente, fora do conjunto da Revelação e da luz de Cristo. Quando o livro do Gênesis afirma que a mulher foi criada como "auxílio" do homem (Gn 2,18), não está propondo inferioridade. O termo hebraico utilizado (ezer) é o mesmo empregado, em diversos textos bíblicos, para falar do próprio Deus como auxílio do seu povo. O relato da criação culmina justamente na afirmação da igualdade fundamental entre homem e mulher: "Deus criou o ser humano à sua imagem; homem e mulher os criou" (Gn 1,27).
Também é equivocado transformar a narrativa do pecado original em fundamento para culpar a mulher pela entrada do mal no mundo. O texto bíblico afirma que o homem estava "com ela" (Gn 3,6). Ambos participam da ruptura. Ambos necessitam da graça. Em Cristo, porém, a relação ferida entre homem e mulher é chamada à reconciliação.
Jesus rompeu muitas barreiras culturais do seu tempo. Dialogou publicamente com mulheres, como a samaritana; acolheu-as entre seus discípulos; defendeu sua dignidade diante de acusações injustas; e permitiu que fossem as primeiras testemunhas da Ressurreição. No Evangelho, não há espaço para o desprezo nem para qualquer forma de humilhação da mulher.
São João Paulo II, na carta apostólica Mulieris Dignitatem, recordava a igual dignidade e valor da mulher diante de Deus. O Papa Francisco, por sua vez, advertiu diversas vezes que toda forma de violência contra a mulher constitui uma profanação da obra de Deus. Em 2024, o Dicastério para a Doutrina da Fé, no documento Dignitas Infinita, reafirmou claramente que a dignidade humana é inviolável e deve ser reconhecida em cada pessoa, sem qualquer discriminação.
Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja reconstruir relações de reciprocidade. Nem dominação masculina, nem guerra entre os sexos. Homem e mulher não foram criados para competir entre si, mas para caminhar juntos. Quando um diminui o outro, ambos se empobrecem.
A Igreja é chamada a ser lugar de cura dessas feridas. Um espaço onde homens aprendam que força não é agressividade; e mulheres jamais precisem justificar sua dignidade. Afinal, diante de Deus, ninguém é menos imagem do Criador.



