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ARTIGO - A defesa dos presbíteros

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal

 

O clericalismo foi uma chaga existente nas estruturas eclesiásticas denunciada pelo Papa Francisco, que ainda vai exigir de todos nós uma profunda conversão ao Evangelho. O poder é uma tentação que sufoca a existência de todos os seres humanos e, ainda mais, os seguidores de Jesus de Nazaré, já que o Mesmo foi tentado por Satanás e este teve a ousadia diabólica de apresentar-Lhe como moeda de troca as condições de poder, desde que Nosso Senhor abandonasse o projeto de Deus (cf. Mt 4,8-10). Jesus é fiel e coloca no centro da Sua existência o culto ao Pai, o Único a quem somos chamados a adorar. Uma outra passagem emblemática, ainda na tradição sinótica, é o momento em que os discípulos já começam as conspirações acerca dos ‘lugares’ que cada um almeja assumir quando for implantado o Reino de acordo com suas lógicas humanas; mas, Jesus os repreende e mostra que os carreirismos não podem fazer parte da autêntica caminhada dos discípulos do Senhor (cf. Mc 10, 35-45). No esquema joanino, sem dúvida, o capítulo treze do seu evangelho tem a síntese que gravita em torno do serviço, como fenômeno do amor e do pertencimento à comunidade dos seguidores do único Mestre e Senhor (cf. Jo 13, 1-15). Na teologia paulina, no contexto de disputas e divisões da comunidade dos filipenses, há o modelo kenótico como fundamento dos sentimentos e testemunho dos cristãos (cf. Fl 2, 5-11).  

 

Na ‘Carta ao Povo de Deus’, que o Papa Francisco escreveu, no contexto dos dramas e escândalos dos abusos sexuais perpetrados por ministros ordenados, ao interno de algumas realidades eclesiais, o pontífice argentino denunciou outras formas de abusos que estavam ligados aqueles comportamentos obscenos e que são consequência da seguinte forma da mente e modo de agir, que assumem uma linha contraposta aos valores evangélicos: “...toda vez que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir em pequenas elites o povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas. Isto se manifesta claramente num modo anômalo de entender a autoridade na Igreja - tão comum em muitas comunidades onde ocorreram as condutas de abuso sexual, de poder e de consciência - como é o clericalismo, aquela ‘atitude que não só anula a personalidade dos cristãos, mas tende também a diminuir e a subestimar a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo’. O clericalismo, favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, gera uma ruptura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo” (cf.https://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2018/documents/papa-francesco, 2). Esses abusos estão, sem dúvida, em quaisquer organizações humanas onde existem relações de poder; e eles não são só sexuais, considerando o que é proposição desta reflexão, como também econômico e de autoridade. Essas situações tem levado os próprios presbíteros a serem vitimados pelas formas distorcidas do exercício do poder nas próprias comunidades eclesiais. Esse outro olhar tem que ser testemunhado para que muitos saibam que há vários presbíteros que estão a sofrer.

 

Existe um clericalismo oriundo dos leigos. Aquele que os coloca numa situação também de abuso de poder na sua forma de ser Igreja com os ministros ordenados. O protagonismo proposto pelo Concílio Vaticano II ainda necessita de aprofundamento também para os demais fiéis do povo de Deus. O apostolado dos leigos deve ser exercido com reconhecimento da dignidade dos presbíteros. Essa autonomia tem sombras de perversão quando a caridade e o respeito são renegados por atores eclesiais que são ofensivos, perseguidores e desleais com seus pastores. Infelizmente, isso outrossim acontece com frequência. Quando interesses pessoais, discrepâncias ideológicas e desencontros aparecem nas relações eclesiais, algumas confusões são criadas para o mal das comunidades. As mídias sociais fortaleceram as possibilidades de calúnias e difamações. Qualquer dificuldade que venha a surgir já vem a onda de denuncismo, mentiras e atitudes traiçoeiras. Os presbíteros, principalmente os mais jovens, quando não têm estruturas humanas alicerçadas, desistem logo das tarefas que assumem. Essas conjunturas também encontram espaço nos próprios ambientes clericais, já que há muitos sentimentos de inveja e complexo de Caim dentro dos presbitérios.

 

A defesa dos presbíteros necessita ainda mais da prudência e do espírito de justiça dos que têm a missão de ‘vigiar e não só punir’ estes irmãos. Há um princípio jurídico que afirma: “Dicere et non Probare est non dicere” - Dizer e não provar é não dizer. A primeira atitude de quem recebe acusações sobre alguém é exigir provas e investigar; e não assumir narrativas como ‘verdades’, valorando difamações e estratagemas pérfidos. Não pode ser quem é acusado a ter que provar nada; mas sim quem acusa que tem que apresentar provas. Em instituições carentes de seriedade e responsabilidade no trato para com a pessoa dos sacerdotes, e isso tem sido muito comum em nossos dias, uma inverdade é acolhida, às vezes, para fins persecutórios e interesses espúrios. Nos meios de comunicação acompanhamos muitos casos em que acusações eram calúnias; contudo, ‘a pena já tinha sido espalhada’. Alguns superiores estão mais preocupados em jogar os seus principais colaboradores na ‘cova dos leões’, sem nenhum pudor, nem peso de consciência. Aquela pessoa do presbítero só servirá, enquanto não atrapalhar os seus projetos pessoais. Neste cenário, também já começamos a detectar os ‘abusos de poder e consciência’. Existem superiores que ofendem, tentam humilhar e abusivamente falar com os seus principais, mesmo que não únicos auxiliadores na missão de evangelizar. Renegam a dignidade dos seus padres, com muitas formas autoritárias e atos nocivos ao bem comum dos presbitérios. Deveras, falta a algumas dessas personalidades uma ‘psicologia de pai’ para o testemunho da ‘paternidade espiritual’ (cf. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/663617-a-dignidade-dos-presbiteros-artigo-de-matias-soares).

 

Diante destas duas realidades dialógicas - fiéis leigos e superiores - com as quais nos deparamos - presbíteros - em nossos tempos sombrios; urge que alguém também possa ter a liberdade de apresentá-las com responsabilidade e pedido de ‘socorro’ para os que vivem esses constrangimentos. Ninguém esqueça que antes de ser um ministro ordenado, cada sacerdote é uma pessoa (cf. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/634071-o-presbitero-a-pessoa-artigo-de-matias-soares). Não trata-se, em hipótese alguma de vitimismos, nem conveniência com desmandos de alguns; mas de uma chamada de atenção ao que temos percebido de muitos irmãos desanimados, com doenças mentais, crise de sentido e toda uma sobrecarga de inquisições administrativas, e ainda tratados como simples ‘funcionários’, sem abertura para que possam ter uma “escuta qualificada, respeitosa e empática”, além de outras imposições que terão consequências psicológicas num futuro não tão distante. Muitos presbíteros também estão sendo objeto de abusos de poder e consciência em nossos dias e pouca gente está preocupada com isso. Desta forma, uma pequena e necessária defesa dos irmãos presbíteros deve ser feita. Rezemos pelos sacerdotes perseguidos e caluniados, tristes e abatidos, desanimados e feridos! Assim o seja!

 
 
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