ARTIGO - “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”: a responsabilidade do amor à luz do Evangelho!
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Pe. Luiz Antônio Aguiar da Silva
Vice-reitor do Seminário de São Pedro
Entre as frases mais notórias de O Pequeno Príncipe jaz esta esplêndida afirmação: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” À primeira vista, trata-se de uma reflexão sobre amizade. Entretanto, sua profundidade ultrapassa o campo das relações afetuosas e suscita uma questão fundamental: qual é a responsabilidade que nasce quando se institui um vínculo verdadeiro com outra pessoa? Ou ainda: temos a consciência de que nossas atitudes, palavras, ações e decisões podem impactar na história de alguém? A célebre frase de Antoine de Saint-Exupéry traduz o princípio de que despertar apreço demanda um compromisso duradouro. À luz do Evangelho, essa responsabilidade eleva-se à essência do amor cristão: o mandamento de "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo" (Cf. Mt 22,37-39).
Na obra clássica de Sant-Exupéry, o principezinho pergunta à raposa: “o que significa cativar?”. E ela responde: “uma coisa que as pessoas frequentemente negligenciam. Significa estabelecer laços”. E continuou explicando: “Para mim, você é apenas um menino e eu não tenho necessidade de você e nem você tem necessidade de mim. Mas se você me cativar, então nós precisaremos um do outro”. Neste belo diálogo entre o “principezinho” e a raposa “cativar” significa criar laços. Antes do encontro, ambos eram apenas mais um entre tantos. Depois do encontro, tornam-se únicos um para o outro. Essa experiência revela uma verdade profundamente humana: ninguém permanece indiferente diante de um encontro autêntico. Toda relação verdadeira modifica quem ama e quem é amado. A tradição cristã compreende essa realidade como comunhão. O ser humano foi criado para a relação/comunhão: com Deus, consigo mesmo, com os outros e com a criação. Desta maneira, à luz do Evangelho, a responsabilidade do amor transcende o mero sentimento; trata-se de um compromisso ativo e incondicional com o bem-estar do próximo. O amor cristão (ou ágape) exige doação, cuidado prático e a superação do egoísmo, tendo como padrão máximo o exemplo de entrega de Cristo. Em seus encontros, Nosso Senhor sempre procurou transformar as pessoas, criou relações com elas, as olhou com compaixão (Cf. Mc 10, 21; Mt 9, 36; Lc 7, 13; Jo 11, 33).
Em sua Encíclica Deus Caritas est, o Papa Bento XVI evidencia que o verdadeiro sentido do ágape “Consiste, precisamente, no fato de que eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou nem conheço sequer”, mas, a partir de um encontro íntimo com o Senhor, “aprendo a ver aquela pessoa já não somente com meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo”. Contudo, se me falta esse contato íntimo com Deus, vejo o outro sempre como estranho, contento-me apenas em ser “piedoso” e “cumprir meus deveres religiosos” sem se importar com o meu irmão. O ágape é também a descoberta do outro, o outro que vem até mim: “agora , o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio, não se busca a imersão no inebriamento da felicidade; procura-se, ao invés, o bem do amado” (Deus Caritas est). Com estas palavras do papa Bento XVI podemos dizer que o amor-ágape só tem sentido se for em realização com o outro. Mas para isto precisamos ter para com o outro os olhos de Deus.
Nosso Senhor Jesus Cristo, na sua última ceia com os discípulos, afirmou: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (cf. Jo 13, 34). A novidade do mandamento não está simplesmente em amar, pois o Antigo Testamento já ordenava o amor ao próximo (cf. Lv 19,18). O novo está na medida do amor, na forma de amar. O discípulo deve amar “como Cristo”. Esse “como” não indica apenas uma comparação moral, mas uma participação no próprio modo de amar de Jesus. Cristo ama: gratuitamente; sem interesse; até o fim; oferecendo a própria vida; sacrificando-se por amor a cada um de nós. É justamente aqui que a frase do Pequeno Príncipe encontra um horizonte ainda mais profundo. O amor do Príncipe pela Rosa resume o ágape: apesar de ela ser exigente e cheia de espinhos, ele a rega, protege do vento e a abriga. Ele a ama pelo cuidado e dedicação. Quem ama verdadeiramente não abandona. Quem ama assume responsabilidades. Quem ama permanece. Quem ama cativa e deixa-se cativar.
Perante o mundo em que vivemos, podemos perceber que o grande desafio é deixar-se cativar. Como geralmente carregamos marcas de decepções em nossos relacionamentos, a tendência é ficarmos armados para evitarmos qualquer possibilidade de sofrermos de novo, e não nos deixamos envolver nem cativar. Assim, em vez de cativar, descartamos o outro. Como nos ensina o saudoso Papa Francisco, ao denunciar a “cultura do descarte” na sua Carta Encíclica Fratelli Tutti, denunciando que a sociedade contemporânea corre o risco de transformar também as relações humanas em objetos de consumo, descartando pessoas quando deixam de ser úteis ou convenientes. Por isso afirma: “As pessoas já não são vistas como um valor primário a respeitar e proteger (…). Tornamo-nos insensíveis a toda e qualquer forma de desperdício, começando pelo desperdício de vidas humanas” (Fratelli Tutti, n. 18). Diante dessa realidade, o amor ágape apresenta-se como a resposta cristã. Quem se deixa cativar pelo amor de Cristo aprende a enxergar no outro um irmão, nunca um objeto ou um meio para satisfazer interesses pessoais.
Assim, a frase do Pequeno Príncipe encontra sua plenitude no Evangelho: tornar-se responsável por aquilo que se cativa significa viver o mandamento novo de Jesus (cf. Jo 13,34), assumindo um amor que permanece, cuida, serve e conduz à comunhão. Nesse horizonte, o cativar deixa de ser apenas uma experiência afetiva e torna-se uma verdadeira vocação cristã, reflexo do próprio amor de Deus pela humanidade. Portanto, deixar-se cativar pelo amor de Cristo é a condição para aprender a cativar segundo o Evangelho. Somente quem experimenta o amor gratuito de Deus é capaz de romper a lógica do descarte e da indiferença, tão presentes na cultura hodierna. O discípulo de Jesus compreende que amar não é um sentimento efêmero, mas uma decisão permanente de cuidar, servir e permanecer fiel. Se, para Saint-Exupéry, cativar é criar laços que geram responsabilidade, para o Evangelho esses laços encontram sua plenitude no amor ágape de Cristo. O Santo Padre, o Papa Leão XIV recorda que “o amor cristão supera todas as barreiras” (Dilexi Te, n. 120) e que Jesus continua a chamar cada discípulo à amizade consigo. Num tempo marcado pela fragilidade dos vínculos e pela cultura do descarte, deixar-se cativar por Cristo torna-se a condição para aprender a amar como Ele amou. Somente quem acolhe esse amor é capaz de construir relações duradouras, responsáveis e fecundas, nas quais o outro jamais é descartado, mas reconhecido como irmão.
Assim, vamos buscar viver o Evangelho de Cristo, que é o evangelho do amor, do cuidado, do cativar. Busquemos dar passos, mesmo que sejam pequenos. Se for necessário, peçamos ajuda, mas não estacionemos em nossas feridas, em nossas barreiras. Recordemos que fomos criados por amor e para o amor e não podemos fechar o nosso coração para os relacionamentos, para o nosso irmão. Se isso fizemos, podemos viver pela metade e perdermos a chance de sermos felizes. Até porque quem decide não amar para não sofrer, acaba sofrendo de solidão e não é esse o projeto de Deus a nosso respeito: “Tenho em relação a vós um projeto de felicidade, de esperança” (cf. Jr 29,11). Então, tenhamos coragem! Vamos procurar ir além dos nossos medos e enfrentá-los! Recordemos o Pequeno Príncipe e nos deixemos cativar outra vez! Olhemos para Cristo e tenhamos a certeza que a vida floresce quando o coração se abre ao amor!



