"Reconhecimento do luto’ torna a vida mais leve"

Por Danny Nunes Jornalista


Entre as diversas formas de encarar a perda de alguém querido, a prática religiosa é tida como caminho positivo, na busca da serenidade e ressignificação das dores provocadas pelo luto.



Se falar sobre a intermitência da vida não fosse um grande tabu em nossa sociedade, talvez a experiência do luto pudesse ser algo mais leve e até natural. Nesses últimos tempos, em razão das restrições sanitárias, nos quais muitos enterraram seus entes queridos sem as honras e os rituais de despedidas, marcas psicológicas foram deixadas na sociedade, apontam especialistas.



A partir destas circunstâncias, profissionais que lidam diariamente com as questões emocionais e espirituais destacam a importância de encarar as dores do luto. Segundo a psicóloga da empresa Vila, Milena Câmara, precisam ser validados pela sociedade. “O luto não-reconhecido e não-valorizado, muitas vezes gera um sofrimento silencioso e um sentimento solitário na vida do enlutado. E essa dificuldade que as pessoas têm de reconhecer os nossos vínculos, igualmente revela a dificuldade de reconhecer nossas perdas. O não-reconhecimento leva o enlutado a pensar que ele não possui o direito de sentir sua dor”, destaca.


A empresa Vila atua há 73 anos no mercado funerário atendendo ao público do Rio Grande do Norte e da Paraíba e dispõe do serviço de suporte para os clientes, a fim de oferecer o acolhimento, para cada um que precisa de apoio para vivenciar o processo de luto e se readaptar à nova situação e continuar a vida.


A psicóloga do Vila explica, ainda, que os aspectos que envolvem as experiências de luto são subjetivos, entretanto refletem-se até organicamente nos indivíduos. Sintomas desencadeados pelo luto, como a ansiedade, tristeza profunda, raiva, a negação, falta de ar devem ser e acolhidos com empatia e atenção por quem está ao lado da pessoa enlutada. “A gente sofre não é por um vínculo sanguíneo ou social, mas a gente sofre por significado, o sofrimento é por amor, e isso só cada pessoa sabe a medida”, explica Milena Câmara.


Entre as diversas formas de encarar a perda de alguém querido, a prática religiosa é tida como caminho positivo, na busca da serenidade e ressignificação das dores provocadas pelo luto. Nesses últimos dois anos, muitas famílias foram impedidas de vivenciarem suas perdas, em função da pandemia. A ausência das celebrações da esperança, dos ritos de encomendação, das orações de corpo presente, fez muita falta e deixou lacunas profundas.

Para Igreja Católica Apostólica Romana, seguidora da Sagrada Escritura, a tradição e também o ensino do Magistério, que são os documentos oficiais da Igreja escrito por papas, a morte é uma condição natural transformada em vida eterna. De acordo com Monsenhor Lucas Batista, Pároco Emérito da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório e Capelão da Casa da Criança, em Morro Branco, o sofrimento pela ausência de alguém querido pode se tornar mais leve com a vivência dos ritos e auxílio do atendimento espiritual. “A gente encontra fundamento sobre o luto no livro do profeta Isaías capítulo 60, Versículo 19 e 20, ‘O seu sol nunca se porá, e a sua lua nunca desaparecerá. Porque o Senhor será a sua luz para sempre. E teu Deus será teu esplendor. Teu sol não voltará a pôr-se e tua lua não minguará. Porque Jave servirá de luz eterna e os dias do teu luto cessarão.’ Portanto, essa palavra já no antigo testamento do profeta Isaías mostra que Deus não quer a tristeza, não quer o desamor, não quer o luto, não quer a morte”, destaca.


Outro fundamento da Igreja está descrito no Novo Testamento, o qual apresenta a morte com resignificação a dor da perda, que é transformada em bênção por Jesus Cristo, o filho de Deus sofreu também a própria condição humana. “O próprio Jesus quando se despediu dos Apóstolos, disse: ‘Agora estão tristes porque eu vou partir, mas a tristeza de vocês vai se transformar em alegria’. Isso porque, Ele ressuscitou. E com a vida e ressurreição de Jesus, se mostra que a vida continua e de uma forma perfeita”, ressalta Monsenhor Lucas.


Com o Concílio Vaticano Segundo e a Reforma Litúrgica, a Liturgia mostra que o cristão não é para alimentar a tristeza e que as atividades pastorais e vivências sacramentais ajudam a superar a dor do luto. O sacerdote explica de que forma podemos nos preparar para ajudar alguém que esteja passando pelo processo de luto. “A gente não termina com a morte, mas a gente termina com a vida não estamos é tanto que quando a gente começa a Liturgia da Exéquias, Sétimo dia, Trigésimo Dia ou de Corpo Presente, dizemos que nós não estamos presentes para celebrar a morte, mas nós estamos para celebrar a vida. Toda a Paixão de Jesus passou, o sofrimento que superou, era porque Ele tinha esperança na ressurreição. Seguindo o exemplo Dele, as celebrações hoje em dia são mais festivas e mais alegres, justamente para nos dar o sentido da mesma esperança experimentada pelo Cristo”, orienta.


Diante de muitas mortes enfrentadas em curto espaço de tempo, em razão da pandemia, muitas paróquias formaram grupos de apoio. “Hoje temos em muitas paróquias grupos de viúvas, grupos de mães que entregam seus filhos, grupo de jovens, que se reúnem para dar testemunhos. Esses movimentos para acolher quem está vivenciando o luto deixa mais leve como encarar uma perda. Assim conversar ajuda, e com o apoio um vai confortando o outro”, reforça Monsenhor Lucas Batista.


O sacerdote reitera, que viver com esperança afasta de nós o pensamento de achar que está tudo perdido. A confiança em Deus testemunha, por meio da fé, que a vida vai seguir e se renovar. “Diz o livro do Apocalipse que a dor, a lágrima, o luto, o sofrimento, tudo isso desaparecerá, porque Deus vai vir na Sua Glória para acalentar todos aqueles que choram derrama as suas lágrimas”, finaliza.