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O desencanto sacerdotal


Por Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal


A palavra ‘desencanto’, com seu significado, tem sido recorrente em minhas meditações pessoais. Penso que a condição humana hipermoderna é marcada pelo ‘desencantamento’. O humano no contemporâneo é um ‘desencantado’. A modernidade tirou do sujeito a capacidade de contemplar a realidade e enamorar-se dela com a intenção de buscar a verdade e contemplar o Outro. Ver o outro, sendo capaz de reconhece-lo como pessoa, com sua dignidade e valor transcendental. O projeto de modernidade, que nos trará ao pós-secularismo, afoga essa possiblidade com a desconstrução de tudo que tinha referência com o dado teológico, que era lugar comum para o desenvolvimento da cultura até o alvorecer da história moderna. Essa nova fase na qual outras formas de espiritualidades são reconhecidas também propõe a ideia da ‘morte de deus’. O humano como medida de todas as coisas, inclusive de como a relação com a dimensão religiosa pode acontecer, terá nos mestres da suspeita, a saber: K. Marx, S. Freud, F. Nietzsche e L. Feuerbach, os seus mais reconhecidos pensadores.


Com estes, o autor da “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, M. Weber foi o profeta que falou sobre esse desencanto do indivíduo moderno nas suas relações com o mundo que haveria de vir. Sem dúvida, as grandes mudanças de paradigmas e início de novos processos, que levaram à desconstrução das concepções teológicas e dos valores oriundos destas, nos lançaram no que hoje alguns autores estão chamando de Era pós-deus, pós-cristianismo e, agora, pós-pandemia. Estamos no pináculo duma época de mudanças e duma intensa mudança de época, como já nos lembrava a V Conferência de Aparecida e, muito frequentemente, no hodierno, o nosso Papa Francisco. Esse tempo, marcado por essas e outras intempéries, é o lugar onde estamos, no qual agimos e a partir do qual precisamos interpretar os sinais dos tempos e os fenômenos do Espírito absoluto.


A crise de identidade que estão a viver muitos sacerdotes deve ser objeto de reflexão, com considerações profundas, tanto de ordem epistemológica, quanto no próprio estilo de vida de muitos de nós, presbíteros. Recentemente aconteceu no Vaticano um Simpósio que abordou questões contemporâneas acerca dos grandes acontecimentos que ‘perturbam’ a situação dos presbíteros nos tempos atuais. Os escândalos descobertos e publicados pelos meios de comunicação trazem uma penumbra de descrédito tanto para os sacerdotes, como à Igreja na sua totalidade, já que essa é pensada como um Corpo. Os fatos devem ser encarados com coragem e vontade de conhecer a verdade. Sem esta última não há lugar para a liberdade e o consequente testemunho que credibilizam a própria missão da Igreja no mundo de hoje.


Mesmo assumindo a preocupação com a formação permanente, há que ser destacada a atenção que deve ser dada às casas de formação dos futuros ministros ordenados. Tenho uma percepção de que os novos sacerdotes estão saindo destas instituições com uma “mentalidade infantilizada”. Não têm clareza dos desafios emergentes da sociedade na qual estarão inseridos e serão interpelados, quando começarem a exercer o ministério. Muitos abandonam a ‘barca’ quando surge a primeira tempestade. As preocupações com um esteticismo superficial, líquido e narcisista têm sido a grande ‘marca registrada’ destes recém-chegados na vivência ministerial no contemporâneo, além de carreirismo muito acentuado, com a organização de lobbies e facções dentro do corpo presbiteral. Em muitos, não é a preocupação com o serviço e o envolvimento com a comunidade que os impulsiona, como metaforicamente orienta o Papa Francisco: “pastores com o cheiro das ovelhas”, mas aparecem mais formas alienadas e exotéricas de exercer a vivência sacerdotal. Longe de assumirem as proposições pastorais destacadas pelo Papa Francisco, que clama pela ‘proximidade’ pastoral dos sacerdotes, com Deus, com o Povo, com o Bispo e com os irmãos do Presbitério, tomam muitas vezes uma via adversa, inclusive rechaçando o próprio Concílio Vaticano II.


Um sinal desse sufocamento que desencanta a vocação dos sacerdotes e que gera uma certa indiferença é perceptível quando muitos deixam de ter a alegria de viver como presbítero, ‘sendo padres, simplesmente padres’. É muito estranho quando um sacerdote ‘perde’ o gosto pela vida de oração, deixa o hábito de leitura e abandona a atualização continuada, foge da fraternidade presbiteral, caindo no isolamento ou buscando companhias espúrias, vive de pastoral de manutenção, com ênfase mais na celebração de sacramentos, sem atenção em formar a comunidade e, dentre outras deficiências, envereda pelas práticas simoníacas, tornando-se um mero funcionário do sagrado. Há a perda, nestes casos, da identidade sacerdotal. Diante das frustrações que são próprias do mundo hipermoderno, que é vendedor de ilusões, vem a crise de sentido e a infelicidade.


Encerro com a consciência que essa análise é continuada e muito mais exigente. Estamos imersos numa profunda quebra de modelos pessoais, estruturais e históricos. Necessitamos de pessoas, ou lideranças, capazes de fazer a leitura dos sinais dos tempos: com testemunho de vida, configuradas a Jesus Cristo, amantes da Igreja e hombridade existencial. Sem serem escravas da vaidade e avessas à mentalidade principesca. Com estrutura humana, espiritual e intelectual consistente. Assim o seja!

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