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O desafio silencioso da acedia na espiritualidade

Dom João Santos Cardoso

Arcebispo de Natal

 

A acedia, tratada pela Doutrina Católica como o sétimo pecado capital (Catecismo, n. 1866), frequentemente é confundida com a preguiça. No entanto, existem diferenças significativas entre esses conceitos. Enquanto a preguiça pode ser caracterizada por uma falta de ação ou desinteresse, a acedia revela-se como uma espécie de tristeza ou melancolia, um amargor que invade o espírito e o afasta dos bens espirituais. Esta tristeza não é apenas prejudicial por si só, mas também é a origem de vários outros males, levando a atitudes extremas de ativismo frenético ou apatia total.


Através do ativismo excessivo, o indivíduo tenta fugir do vazio interno por meio da ocupação incessante. E, através da apatia, o indivíduo chega a um estado de paralisia total, onde a inação resulta em um profundo desânimo, confundindo-se com a depressão. Esta dualidade evidencia como a acedia está intrinsecamente ligada tanto à preguiça quanto a um tipo peculiar de ansiedade, configurando-se não só como um vício capital relacionado à espiritualidade, mas também como um mal-estar psíquico e emocional que precisará de cuidados clínicos.


Em uma época marcada pelo desencanto, o vício capital da acedia emerge como um mal-estar silencioso e profundo, que impede a vivência plena da espiritualidade como fonte de alegria. Conhecida tradicionalmente como preguiça, a acedia, segundo a sabedoria dos antigos Padres do Deserto, vai muito além da simples inatividade, manifestando-se como uma "falta de cuidado" que penetra profundamente na alma humana.


A acedia, descrita pelos padres do deserto como o "demônio do meio-dia", captura suas vítimas em momentos de vulnerabilidade, levando-as a um estado de aversão por tudo o que antes lhes proporcionava prazer e satisfação espiritual. Esta tentação insidiosa abate o espírito com um desejo de morte, tornando a relação com Deus e as práticas espirituais, antes vivificantes, agora experimentadas como tediosas e inúteis. Em sua essência, a acedia é uma crise de sentido, em que a vida e a fé perdem seu sabor e propósito, arrastando o indivíduo para um abismo de desespero e apatia.


Contudo, os mestres da espiritualidade oferecem antídotos valiosos contra esse mal espiritual, indicando, em particular, a "paciência da fé", para experimentar a presença de Deus no aqui e agora de nossa existência. Como destacou o Papa Francisco em sua catequese na Audiência Geral de 14/02/2024: “Diante deste vício, que reconhecemos ser muito perigoso, os mestres da espiritualidade preveem vários remédios. Gostaria de enfatizar o que me parece ser o mais importante, que chamaria de paciência da fé. Se, sob o açoite da acedia, o desejo do homem é estar ‘em outro lugar’, fugir da realidade, é preciso ter a coragem de permanecer e acolher a presença de Deus no ‘aqui e agora’, na minha situação tal como ela é”. Os monges afirmam que, para eles, a cela é a melhor mestra de vida, pois é o lugar que nos fala concretamente e diariamente da nossa história de amor com o Senhor. O demônio da acedia quer destruir justamente essa alegria simples do aqui e agora, o temor grato pela realidade; quer fazer-nos acreditar que tudo é vão, que nada tem sentido, que não vale a pena preocupar-nos com nada e com ninguém. Na vida, encontramos pessoas “preguiçosas”, sobre as quais dizemos: “Mas ele é tedioso!” e não gostamos de estar com elas; pessoas que também exibem uma atitude de aborrecimento contagioso. A acedia é assim!”

O Papa Francisco, na "Evangelii Gaudium"(n. 81-83), nos convoca a dizer não à "acedia egoísta", incentivando-nos a redescobrir a alegria do Evangelho, que tem o poder de iluminar os recantos mais escuros de nossa existência. O Santo Padre nos alerta sobre a acedia pastoral, que se manifesta tanto no ativismo desenfreado quanto na inação, ambos originários da mesma raiz de desesperança e desilusão.


Para combater a acedia, é necessário reavivar a chama da fé, esperando pacientemente pela ação revigorante do Espírito. A luta contra a acedia exige dedicação nos momentos de maior vulnerabilidade, mas também perseverança e uma confiança inabalável em Nosso Senhor, que jamais nos abandona.


Em um mundo frequentemente focado no imediato e no superficial, torna-se necessário sair da superfície para mergulhar na profundidade do nosso ser, a fim de reencontrar o mistério de Deus em nós. Enfrentar o demônio do desânimo exige consolidar nossa espiritualidade, na qual cada passo, por mais modesto que seja, é importante para restaurar o tecido de nossa relação com Deus e com a vida.


Em resumo, a batalha contra a acedia é uma luta pela esperança, pela alegria e pelo sentido profundo da existência. Superá-la não significa apenas afastar um perigo espiritual, mas abrir-se completamente à alegria que brota das coisas mais simples do cotidiano e nos liga ao divino. É um convite para reacender as chamas da paixão e do amor na relação com Deus, enriquecendo nossa vida com uma alegria plena e autêntica, que ilumina cada passo do nosso caminho.

 

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