top of page

Amemos à Igreja de Natal

  • pascom9
  • há 11 minutos
  • 5 min de leitura

Por Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal Capelão da UFRN A Igreja é a nossa “Mãe e Mestra” (cf. Papa João XXIII). Com ela, a nossa relação é mística. Por ela, nascemos como filhos de Deus. Por ela, somos educados na fé e através dela somos alimentados eucaristicamente. Desde jovem seminarista, ouvi essa expressão bela e consciente do nosso querido Arcebispo Emérito, Dom Heitor: “Matias, a Igreja é a nossa Mãe”. Essa afirmação filial até hoje ecoa em meus ouvidos e coração. O nosso modo de estarmos na Igreja precisa ter esse toque de ternura filial. Basta que pensemos no que ela realiza em nossa vida cristã, como humanamente nos beneficiou e apoiou. Sem ela, não temos como atualizar o mistério da vida e obra de Jesus Cristo, sem esse reconhecimento da sua ‘sacramentalidade como corpo místico do Senhor’ (cf. Lumen Gentium,7), podemos ter uma relação utilitarista e mecanicista com ela. Perderemos o encantamento com o seu significado para a nossa ‘existência cristã’ e passaremos a ser seus funcionários e aproveitadores do que nos pode ser oferecido através das suas conjunturas humanas. Seremos filhos carentes da luz de Cristo da qual ela é Sacramento. Poderemos cair na tentação de sermos parte dos seus pecados e não da sua bondade maternal.


Em tempos pós-conciliares, somos chamados a ter presente a eclesiologia ali desenvolvida para que não caiamos no ‘alzheimer’ próprio de uma época que afronta a memória que possibilita um presente consistente e que seja fonte de esperança para os que dele fazem parte; ou seja, do hoje da história. Quando tratamos da natureza da Igreja, que acontecendo na particularidade de cada Arqui(Diocese), sempre tem a horizontalidade à totalidade católica, precisamos apresentar o que ela é e qual é o seu significado para o Mundo, tendo em vista o seguinte: “A luz dos povos é Cristo: (...) Mas porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo” (cf. Lumen Gentium,1). Temos que manter a nossa fidelidade à pessoa de Jesus Cristo, justamente sabendo e tornando única e necessária a verdade sobre a Sua Igreja.


Para o que nos propomos, vale ter presente a descrição feita pelo sociólogo Zygmunt Bauman sobre a transição dos sinais da Era moderna e como a Humanidade assume outros modo de estruturar-se no período Pós-moderno. Segundo ele “a passagem da fase ‘sólida’ da modernidade para a ‘liquida’ - ou seja, para a condição em que as organizações sociais, estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que asseguram a repetição de rotinas, padrões de comportamento aceitável não podem manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam” (cf. ZB, Tempos Líquidos, pág. 7). Ou seja, perdemos a lucidez para desenvolvermos projetos coesos e consistentes, tendo em vista estilos de vida com significado e profundidade existencial. Essa “época de mudanças e mudança de época”, como nos lembrava o Papa Francisco, também nos coloca diante do desafio de termos clareza acerca da nossa identidade e da nossa missão enquanto Igreja. A liquidez da nossa dinâmica eclesial pode fazer com que percamos o referencial do Único Necessário, que é Jesus Cristo (cf. Lc 10,38-42). A nossa fé foi, é e sempre será Cristocêntrica.

A Igreja Particular de Natal celebra o seu primeiro Sínodo arquidiocesano, com a seguinte questão como tema: “Igreja de Natal, o que dizes de Ti mesma?” A nossa amada Arquidiocese, da qual somos filhos e a ela ligados por um sentimento de pertença, tem uma história marcadamente de protagonismo cristão, eclesial e social. O que é mais interessante, os seus grandes feitos, principalmente aqueles vividos durante o “Movimento de Natal”, são construções de ministros ordenados e demais membros do povo de Deus, filhos desta terra querida. A nossa identidade católica é autóctone, com muito respeito e acolhida aos milhares de entusiastas que aqui vieram para beber da fonte de um protagonismo pujante. A Igreja de Natal é linda! Daqui são os Protomártires do Brasil. A nossa consagração, depois de feita ao Nosso Deus, à Nossa Mãe, Maria Santíssima, a Virgem da Apresentação, deveria ser feita a Eles: “Filhos do Rio Grande”! A sua mensagem é de grande atualidade: Centralidade eucarística, protagonismo dos Leigos e Presbíteros, com o mais fino e radical testemunho do Martírio. Penso que o fervor da Igreja de Natal está adormecido! Estamos carentes de lideranças e capital humano do quilate dos que viveram o belíssimo Movimento de Natal. Aqueles homens sentiam e viviam a Igreja. Eram apaixonados por essa Mãe Igreja. Eram poucos e conseguiam fazer tanto. Hoje somos muitos e queremos fazer tão pouco.


Na leitura dos sinais dos novos tempos, sem anacronismos e saudosismos pueris, deveríamos tentar atualizar a metodologia daquela Eclesiologia, que foi contemporânea do Vaticano II e ainda poderia nos ofertar frutos pastorais maravilhosos, ao invés de nos distanciarmos dela com a pastoral de conservação, ou apelos aos devocionismos massificados e alienantes. Sendo desafiada a pensar-se enquanto sacramento de salvação, tanto internamente, quanto externamente, com sua atenção às redes, microfísicas e estruturas sociais, a Igreja de Natal tem a vocação, respaldada pela sua história, de ser sal da terra e luz para cada pessoa humana que a ela estiver ligada, e, através dela, puder ser ‘afetada’ pela graça santificante da Santíssima Trindade. Todavia, esse dinamismo é exigente e nos interpela à conversão permanente. As nossas metodologias precisam ser repensadas. A conversão missionária não é questão geográfica, é ‘estado de vida’. É existencialismo cristão nas veias e no coração. Com a teologia sobre a sinodalidade, as nossas práticas devem passar pela escuta atenta e discernimento constantes. Todos os batizados somos chamados a ser sinodais. O que compete a todos deveria ser tratado por todos os envolvidos. Ninguém é lacaio de ninguém. A participação é o propulsor da comunhão, que nos anima à missão. O nosso vínculo, que é antes de tudo filial e de ligação embrionária, desde o nosso batismo, não pode ser determinado por normas e burocracias desumanas, mas pela relação dialógica timbrada pelo discernimento evangélico e eclesial.


Enfim, em tempos como os nossos, tive vontade de fazer essa reflexão. Instigado pela provocação sinodal: Igreja de Natal, o que dizes de Ti mesma? O que pensamos sobre nós mesmos, tendo por referência o nosso passado, que deveria ser um farol para o nosso presente, com suas ressignificações, mas também proposições, é o que nos fará amadurecer e sermos adultos eclesialmente. Temos um magistério fabuloso do saudoso Papa Francisco e tão bem recepcionado pelo querido Papa Leão XIV. Somos chamados a investir nas pessoas. Essa conversão pastoral da Igreja de Natal, não acontecerá sem a atenção a elas, desde o último batizado até o primeiro destes, que são filhos desta Mãe querida. Urge mais humanidade e amor à esta Igreja, antes de quaisquer projetos de poder. O mundanismo espiritual pode nos tragar de um modo terrível e nocivo ao corpo eclesial. Temos que rezar mais, estudar mais e testemunhar mais. Depois das pessoas, poderíamos fortalecer as pequenas comunidades; sejam elas missionárias, presbiterais, religiosas ou episcopais. Todos necessitam de metanoia - mudanças, conversão, reformas - e lucidez a partir do que o Espírito Santo diz à sua Igreja (cf. Ap 2,7). O nosso Sínodo poderá ser, oxalá, um tempo de Kairós. Em tudo, reforcemos esse amor à nossa amada Igreja Particular de Natal. Assim o seja!

 
 
bottom of page