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Fé e mistagogia


Por Pe. Paulo Henrique da Silva

Professor de Teologia


Chegamos à metade do Tempo Pascal. Já podemos refletir sobre o caminho percorrido até agora. Neste tempo pudemos contemplar as aparições do Ressuscitado que nos colocam na origem do anúncio Pascal e representam o testemunho fundante da experiência da fé cristã. Claro que devemos reconhecer que a Ressurreição é um evento acontecido na realidade do mistério divino, oculta aos nossos olhos, envolvendo a história do Filho eterno feito carne. A Ressurreição é um mistério transcendente, não foi visto no ato mesmo da ação de Deus. Não pôde ser visto, só pode ser acolhido na fé. E para que isso possa acontecer hoje, foi preciso que fosse acolhido por aqueles que conviveram com o Ressuscitado antes dele ser crucificado. Também devemos reconhecer que a Ressurreição não é mais um milagre de Jesus, como os outros milagres realizados por ele, inclusive os que são denominados de "ressurreição”, tal como a de Lázaro, do Filho da viúva de Naim, da filha de Jairo. Esses são apenas eventos evocativos do real significado da Ressurreição acontecida na Páscoa, depois da última ceia, e daquela sexta-feira santa, expressão máxima do amor benevolente de Deus e do seu Filho amado.


A Ressurreição de Cristo é central para a nossa fé e nesta fé precisamos nos concentrar para que vivamos a partir dela. Viver a partir da fé significa assumir a nossa vida na união com Jesus, na união e comunhão com Deus Pai na força do Espirito Santo. Isso pode acontecer aprofundando a fé. Quando falamos de fé devemos entender os dois polos que a compõem: o lado subjetivo, a fides qua creditur e o lado objetivo, a fides quae creditur. O lado objetivo consiste na revelação divina, acontecida no evento da encarnação, paixão, morte e ressurreição de Cristo, como também toda a realidade dos conteúdos da fé que a Igreja, à luz da Revelação, anuncia, reflete, interpreta e propõe para nosso entendimento do desígnio salvífico. O lado subjetivo diz respeito ao nosso assenso, isto é, a nossa atitude de assumir a revelação, o mistério de Cristo, com o dom do Espírito Santo e aceitação da vontade de Deus e conformidade de nossa vontade com a vontade divina.


Aprofundar a fé significa "mistagogia". A fé é mistagógica, porque não se trata apenas de um conhecimento das verdades de fé, mas de reconhecer que as verdades de fé nos colocam na experiência de uma relação. Ter fé significa aceitar a vinda de Deus em nossos corações, e mais precisamente, da aceitação do evento da automanifestação (Deus "aparece" no mundo) e autocomunicação de Deus em seu Filho e no seu Espírito Santo (Deus se comunica aos homens e às mulheres). Fé indica relação com Deus. A mistagogia, portanto, nos leva a viver a fé como estilo de vida, assumir a comunhão trinitária, razão pela qual Deus criou-nos à sua imagem e semelhança. Em primeiro lugar, a mistagogia nos leva a refletir sobre o evento fundante da Revelação: criação em Cristo, predestinação, alianças, a Encarnação do Filho eterno, a sua entrega à Cruz por amor, a sua glorificação na Ressurreição, o dom do Espírito aos seus seguidores, e a condução do mesmo Espírito na história da vida de seus seguidores, isto é, na Igreja e na sociedade em que vivem. Tudo isso nos leva a ver, a contemplar e a reconhecer a ação da graça divina, e essa ação possibilita a realidade da fé, que apresenta e estabelece para nós uma nova visão de mundo, coloca-nos diante das consequências da mesma fé para a sociedade, para o empenho político, social e transformador. E tudo isso, naquela relação especial e fundamental da graça e da liberdade, sempre reconhecendo com Santo Agostinho: a graça liberta a liberdade.


Reconhecer que a fé é mistagógica nos leva a compreender as dimensões da fé: “anamnética-estaurológica”: isto é, de memorial (em grego “anamnese”) do evento pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, doxológica-celebrativa, comunitária-sinodal-missionária, ecológico-escatológica. São dimensões que mostram a integralidade da mesma fé. Lembram os momentos ou lugares da memória da fé nos quais e pelos quais a comunidade de fé, a Igreja, tem vida e perseverança. A fé nos envia ao evento fundador, não como simples lembrança de um passado longínquo, mas nos permite fazer memorial, ou seja, entrar no evento permanente da Páscoa do Filho de Deus – no mistério da cruz (em grego “estaurós”) - e na ação do Espírito Santo protagonista desse mesmo memorial. O memorial não permanece no “luto” do Gólgota, mas nos encaminha para a experiência da luz, ou do transfigurado para sempre, o Ressuscitado dos mortos, Jesus Cristo. Daí porque na fé a dimensão do louvor, da glória (em grego “dóxa”), nos permite celebrar o evento pascal. Na celebração desse evento, Liturgia, especialmente da celebração eucarística, estamos envolvidos pela atualização da graça que permanece em nossa vida, em nossas comunidades. Por isso, a fé é vivida em comunidade, ninguém a vive isoladamente, embora ela seja pessoal, mas se configura na sinodalidade que expressa missionariedade, como forma de ser, de viver, de agir da própria comunidade eclesial. Por fim, a fé tem uma dimensão de cuidado, de louvor ao Deus criador, Aquele que estabelece o lugar de sua revelação, o espaço de sua presença para fora de si mesmo, o mundo, a natureza, as relações humanas. Mas, sempre lembrando, tal dimensão “ecológica” se une à dimensão escatológica, não no sentido de procurar ver a transitoriedade do mundo como se fosse aspecto negativo, que vai ser destruído, mas realidade de completude, de plenitude dessa mesma realidade do mundo, da natureza, do universo. Fé como experiência de uma relação integral, holística, se assim queiramos. Mas, sobretudo, fé como entrada na vida de Deus, fonte, origem e destino de nossa vida, destino de glória e de paz duradoura.

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