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Existência presbiteral


Pe. Matias Soares

Pároco da paróquia de Santo Afonso/Natal-RN

Mestre em Teologia Moral (Gregoriana-Roma)

Pós-graduado em Teologia Pastoral (PUC-Minas)

Coordenador Arquidiocesano da Pastoral Universitária

Membro da SBTM (Sociedade Brasileira de Teologia Moral)


Pensar sobre a existência é algo que precisa fazer parte da vida de cada ser humano. Onde há o humano, a reflexão tem que acontecer. Não proporcionar e, muito pior, não permitir que seja concretizada essa dimensão da condição humana é algo muito sério, principalmente quando existem responsabilidades sociais e eclesiais envolvidas, como é caso dos presbíteros. É necessário pensar, e pensar bem, para a vida possa ser pautada em princípios e valores condizentes com a verdade. É necessário pensar para que tenhamos ambientes presbiterais mais saudáveis e humanizados. Alguém poderia ponderar que junto com o pensamento a vida de oração. Mas isso já deve estar subtendido. Se no contemporâneo, há uma crise da capacidade de pensar, devido aos muitos sons e vociferações da cultura digital hipermoderna, os presbíteros são chamados a fazer uso dessa faculdade concedida por Deus, a fim de que o chamado ao ministério possa ser consistente e autônomo. Com uma liberdade relacional e promotora da liberdade do povo de Deus. Mesmo sendo filhos do que preconizam os filósofos existencialistas de que “a partir do existir é que segue o ser”, a nossa identidade ainda é dependente do nos foi ensinado pela teologia medieval (cf. S. Tomás) de que é do “ser é que segue o existir”. Tem sido cada vez mais difícil sustentar essa perspectiva teológica.


O mundo é o do movimento, das conquistas e do instantâneo. O estático e dogmático tem sido obliterado e negado pelos que se tornaram objeto dos objetos. A existência dos presbíteros está envolta nessa nova forma de ser considerada a realidade. Como presbíteros que somos, nos faz bem pensar sobre a nossa existência enquanto tal. Não podemos pensar a nossa condição presbiteral sem esta preocupação com o discernimento acerca de quem somos: a nossa missão, a nossa ‘diocesaneidade’, a comunhão, a espiritualidade, a formação permanente, a personalidade e todos os outros elementos que têm a ver com a nossa vida. É necessária uma integração pessoal e social. Para uma renovação constante da caminhada, que nos possibilite inserção na história, com os demais presbíteros e outros membros do povo de Deus, temos que estar atentos ao processo que nos coloca em estado de alerta enquanto homens, cristãos e sacerdotes. Por isso, vejo por bem trazer algumas reflexões acerca desta existência, considerando basicamente questões eclesiais bem presente no magistério do Papa Francisco.


As minhas contribuições terão como referências eclesiológicas duas dimensões da identidade presbiteral, a saber: 1) a nossa catolicidade e 2) a nossa sinodalidade. Estas duas expressões as tomo, no primeiro ponto, de Henri de Lubac, não se referindo à pessoa do presbítero, mas propriamente sobre a realização da catolicidade eclesial, na Igreja Particular, ou seja, na Diocese; e a segunda, motivado pela preocupação do Papa Francisco de levar avante a sinodalidade eclesial; ou seja, o caminhar junto da Igreja e a sua comunhão nas diferenças. No presbitério, que está inserido nessa mentalidade polarizada dos nossos dias, tem surgido desafios constantes para que a comunhão seja testemunhada em vários âmbitos. Por isso, vejamos algumas proposições acerca destas questões:


1. A Catolicidade: Neste primeiro ponto, quero imediatamente ressaltar que o presbítero, e aqui a minha atenção está voltada ao presbítero diocesano, mesmo deixando claro que os religiosos devem viver a mesma experiência no interno das Dioceses, é aquele que assume a sua catolicidade na Igreja Particular, pois neste espaço acontece a universalidade da Igreja, mesmo cientes que somos responsáveis pelo bem de toda a Igreja Universal. Um presbítero não pode ser alguém desligado, nem indiferente à vida eclesial da sua Diocese. Consciente de que o sinal de unidade da Igreja Particular é o Bispo, como Pastor Próprio, o presbítero assume no dia da sua ordenação a responsabilidade de colaborar com o dinamismo e o bem de todo o povo de Deus que ali está, sob seu pastoreio, com os demais membros do colegiado presbiteral. Ele deve ‘ser’ profundamente católico, no sentido genuíno do termo. Não pode ser um homem de “tribos”, e aqui me aproprio da expressão de Maffesoli, sociólogo francês, quando fala da formação pós-moderna dos agrupamentos humanos por interesses e atrações comuns; nem, muito menos, uma figura “individualista e solipsista”, na interpretação do pensamento sobre a liquidez contemporânea, presente na obra de Bauman, e que trai profundamente a antropologia e eclesiologia do Concílio Vaticano II, como mais ainda o Evangelho (Cf. Jo 17). Essas bases de pensamento podem ajudar a pensarmos a situação complexa e confusa na qual se encontram os presbitérios de muitas realidades diocesanas do nosso Brasil. Eu diria até que, o embasamento dogmático aqui é insubstituível, quando temos clareza que a doutrina sobre a identidade do presbítero está em função da sua vida e ministério. Na experiência diocesana, o presbítero não pode sombrear a sua dinâmica pastoral formando tribos ou, sendo também, agregado ideológico de partidos e preferências espúrias. Ai, surgem os lobbies e as construções virais que fazem muito mal ao corpo presbiteral. Neste sentido, para quem tem a missão de gerar e promover a comunhão na vida diocesana, e aqui penso especificamente na pessoa do Bispo, há um grande desafio, que o compromete espiritualmente, intelectualmente e pastoralmente; pois, a vida missionária e pastoral de uma Igreja Particular depende profundamente da “harmonia e integração do seu presbitério”. O Bispo diocesano tem esse ministério da unidade a desenvolver na Igreja local. Em tempos do extremismo do individualismo e da neurose da vida social, uma categoria que não está amadurecida humanamente e socialmente, não faz bem aqueles para aos quais é vocacionada a servir e promover a vida cristã e eclesial. Ingenuamente, podemos até pensar que estamos fazendo o bem aos outros; porém, o nosso narcisismo pode nos fazer buscar o nosso próprio bem, com os disfarces e as máscaras.


2. A Sinodalidade: Neste segundo, vem a questão da sinodalidade presbiteral na Igreja Particular. Um presbítero diocesano existe numa Igreja Local, situada no tempo e no espaço. Com um povo, com sua cultura e valores. É santo povo fiel de Deus. Está incardinado nela e precisa caminhar com ela, juntamente com os demais membros do presbitério, seu plano pastoral, seu plano administrativo, suas orientações disciplinares, na interação com os fiéis, religiosos, religiosas, diáconos e as realidades circundantes. Um presbítero na Era pós-moderna não pode mais pensar que a sua vida é protegida por uma redoma sagrada. O mundano e o sagrado estão acontecendo juntos. Neste contexto, ele precisa ser um homem capaz de ‘discernimento’. Como os demais cristãos, o mesmo deve ser discípulo missionário, com testemunho de vida, aberto à conversão diária e convicto seguidor de Jesus Cristo. Nós, mais do que qualquer outro, temos que sentir com a Igreja. Ou fazemos isso ou, pouco a pouco, perderemos a nossa credibilidade presbiteral, como já acontece muito fortemente na Europa e em muitas outras regiões do mundo. Assumamos com muito senso de responsabilidade o bem das e pelas nossas Dioceses. Não é a Igreja que deve estar à nossa disposição para que nos aproveitemos do que ela nos oferece, mas somos nós que temos a missão de juntos fortalecermos a razão de ser da sua existência, que é a de evangelizar. Neste aspecto, é importante assumirmos a nossa existência sinodal e presbiteral, como homens desejosos da comunhão, participação e missão.


Por fim, essa nossa existência presbiteral, como por alegrias e desafios cotidianos, deve ser assumida com propósitos pautados no evangelho. É a questão da sequela de Cristo, que é a fonte perene da nossa espiritualidade cristã e presbiteral. Com realismo e abertura aos sinais permanentes da graça e do dom de Deus, é que devemos formar Cristo em nós. Tomando a imagem de Jesus Cristo, o Bom Pastor (cf. Jo 10, 10-18), poderemos fazer um caminho de santificação na vida e no ministério presbiteral. O apóstolo Pedro nos ensina como devemos ser no cuidado com o rebanho de Deus (cf. 1Ped. 5,2-7). “Nós devemos ser padres; simplesmente padres e nada mais do que padres”. Temos que pensar e meditar com o coração aberto à gratuidade de Deus, que é misericordioso para conosco. Assumamos a nossa existência presbiteral, no serviço, na missão, na pobreza, na honestidade, na responsabilidade, na comunhão, na participação, na verdade, na integridade, no testemunho, na doação... Assim o seja!

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