ARTIGO – Sínodo arquidiocesano de Natal: a complexidade da missão
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Tállison Ferreira da Silva
(Delegado Sinodal)
“Igreja de Natal, o que dizes de ti mesma?”
A elaboração de um Diretório de Pastoral durante uma Assembleia Sinodal significa a comunidade eclesial interrogando-se sobre sua identidade, sua missão e os caminhos pelos quais Deus continua conduzindo o seu povo. O Sínodo não nasce da mera necessidade de produzir documentos, mas da convicção de que o Espírito Santo continua falando à Igreja por meio da Palavra, da história e do Povo de Deus.
Na Missa de Abertura da II Assembleia Sinodal, realizada no Colégio Marista de Natal (RN), no dia 29 de agosto de 2026, Dom João Santos Cardoso, em sua homilia, inseriu-nos em uma reflexão sobre a missão profética de João Batista (cf. Mc 6,17-29), convidando-nos a olhar para o nosso fazer pastoral a partir da evangelização e da missão que o Batismo nos impele a assumir.
Diante de Herodes, João não negocia a verdade. Ele compreende que sua missão não consiste em anunciar a si mesmo, mas em preparar os caminhos do Senhor. Em contraste, Herodes simboliza uma consciência dividida. Reconhece que João é justo, escuta suas palavras e até o admira. Contudo, permanece incapaz de converter sua escuta em decisão. Essa oposição ilumina profundamente a realidade pastoral atual. Muitas vezes, a Igreja sabe quais mudanças são necessárias, mas hesita diante do desafio da conversão pastoral.
Uma compreensão reduzida de pastoral identifica-a com eventos, reuniões, calendários ou movimentos paroquiais. Entretanto, essa visão é insuficiente. Fazer pastoral significa participar da própria missão de Cristo, uma missão que se realiza no horizonte da complexidade e se tece nas múltiplas dimensões da realidade humana.
O pensamento de Edgar Morin (1921-2026) oferece uma contribuição extremamente fecunda para essa reflexão. Morin critica aquilo que denomina pensamento simplificador, uma forma de conhecer que fragmenta a realidade, separa aquilo que está unido e reduz problemas complexos a soluções lineares. Segundo ele, a realidade é um tecido (complexus) de relações, interdependências e múltiplas dimensões (cf. MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo, 2011). Conhecer exige conectar, contextualizar e integrar.
Aplicada à pastoral, essa perspectiva revela uma importante verdade: a evangelização nunca acontece de maneira isolada. Família, cultura, economia, juventude, política, educação, tecnologia, espiritualidade e pobreza não constituem temas independentes. São dimensões interligadas da mesma experiência humana. Assim, uma pastoral fragmentada tende a produzir comunidades igualmente fragmentadas.
Ademais, à luz das ideias de Morin, é preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas por meio de arquipélagos de certezas (cf. MORIN, Edgar. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, 2011). Na missão da Igreja na atualidade, permanecem como certezas fundamentais: Cristo, o Evangelho, a dignidade humana e o Reino de Deus. As incertezas dizem respeito aos modos históricos de anunciar e testemunhar essa mesma verdade.
Por isso, um Diretório Pastoral inspirado pelo pensamento da complexidade não oferece respostas fechadas para todas as situações; antes, apresenta princípios capazes de orientar o discernimento diante de realidades novas. Isso se torna particularmente relevante em tempos de profundas transformações tecnológicas e de expansão da inteligência artificial, que constituem alguns dos grandes desafios pastorais do presente e convocam a Igreja a testemunhar uma cultura da verdade, da responsabilidade e do cuidado, como nos exorta o Papa Leão XIV na Magnifica Humanitas (2026).
Portanto, a II Assembleia Sinodal, convocada para a elaboração do Diretório de Pastoral, interpela-nos a ampliar o radar do conhecimento, a fim de percebermos o quanto a tenda pode ser alargada, conforme nos sugere a narrativa bíblica (Is 54,2), utilizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2026–2032), para expressar que alargar a tenda significa criar espaço para novos sujeitos, novas linguagens e novas periferias existenciais. Significa reconhecer os pobres não apenas como destinatários da evangelização, mas como protagonistas da vida eclesial. Significa, ainda, assumir que a conversão pastoral exige permanente abertura ao Espírito Santo e atento discernimento dos sinais dos tempos.



