ARTIGO - A Igreja em saída e seus verbos
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Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Conj. Mirassol - Natal
Capelão da UFRN
Na Alegria do Evangelho, o Papa Francisco usa cinco verbos que assumidos ativamente, com um testemunho cristão, traduzem o que significa uma Igreja ‘em saída’, como a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que ‘acompanham’, que ‘frutificam’ e ‘festejam’. Faz-se interessante um aprofundamento mais contextualizado, já que no próprio número vinte quatro podemos encontrar uma descrição do significado de cada um, com suas questões fundamentais e caminhos metodológicos, aos quais somos chamados a ter presente para que tenhamos uma clara concepção do que seja uma Igreja em saída missionária. Desta forma, vale um breve esclarecimento do sentido de cada um deles, já que para Francisco “uma Igreja ‘em saída’ é a comunidade de discípulos missionários que primeireiam, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam” (cf. EG, 24).
Primeirear: a ação de Deus é graça dada. É dom e mistério de amor oferecidos a todos os seres humanos. Essa oferta deve ser conhecida e chegar ao alcance de todos, contando sempre com a livre decisão de acolhimento e conversão à proposta do Reino de Deus (cf. Mc 1,14-15). Para Francisco “a comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1 Jo 4,10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva. Há a urgência do nosso protagonismo, a nossa mudança de mentalidade e de atitudes. Nos falta um ato de fé na Verdade do evangelho, que quando torna-se a razão de ser da nossa existência cristã, nos torna discípulos missionários. Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como consequência, a Igreja sabe ‘envolver-se’. Pois, é preferível uma “Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida” (cf. EG, 49), asseverava Francisco.
Envolver-se: para Francisco “o Senhor envolve-Se e envolve os seus, pondo-Se de joelhos diante dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: ‘Sereis felizes se o puserdes em prática’ (cf. Jo 13, 17). Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o ‘cheiro das ovelhas’, e estas escutam a sua voz. Em seguida, a comunidade evangelizadora dispõe-se a ‘acompanhar’”. Ainda temos muito medo de estar com as diferenças. Os preconceitos, que muitas vezes também sinalizam uma forma distorcida de concepção do cristianismo, ainda hoje nos coloca em posição de autossuficiência e negação do outro, que nos leva também à negação de Deus. Não é assim que a Igreja foi chamada a ser. A sua sacramentalidade ‘acontece’ quando ela assume a história humana, com seus dramas e potencialidades, com a sua cultura e suas possibilidades de transcendência. Por isso, ela precisa estar com, ser com, para poder anunciar o evangelho a todos os que estão nas periferias geográficas e existenciais.
Acompanhar: segundo Francisco, uma Igreja em saída missionária “acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas e a suportação apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e evita deter-se a considerar as limitações. Fiel ao dom do Senhor, sabe também ‘frutificar’”. A proximidade, segundo Francisco, é o estilo de Deus. A Igreja, para acompanhar não pode renunciar a esse modo de conduzir o desenrolar da ação evangelizadora, sem pretender substituir as consciências, nem a liberdade das pessoas, confiando sempre de que cada batizado é chamado a ser “livre e fiel em Jesus Cristo” (cf. B. Haering). Não podemos cair na tentação da teologia do domínio, nem nos “abusos espirituais” que, infelizmente, estão a acontecer em alguns ambientes eclesiásticos e meios digitais. Urge um acompanhamento que leve os batizados à maturidade da fé, sem exoterismos superficiais e alienantes. O acompanhamento que a Igreja, como ‘mãe e mestra, deve promover passa pelo caminho da compaixão e do serviço.
Frutificar: para Francisco “a comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio. O semeador, quando vê surgir o joio no meio do trigo, não tem reações lastimosas ou alarmistas. Encontra o modo para fazer com que a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de vida nova, apesar de serem aparentemente imperfeitos ou defeituosos. O discípulo sabe oferecer a vida inteira e jogá-la até ao martírio como testemunho de Jesus Cristo, mas o seu sonho não é estar cheio de inimigos, mas antes que a Palavra seja acolhida e manifeste a sua força libertadora e renovadora”. A experiência pastoral encontra muitas barreiras. Nas comunidades existem pessoas que não agregam; não assumem o projeto do Reino de Deus; não assumem o propósito de conversão; querem aproveitar-se das possibilidades que as comunidades podem oferecer; ou seja, são corruptos. Mas, tendo consciência da nossa missão, não podemos nos entregar ao desanimo, ao medo e ao pessimismo. Precisamos acreditar que a obra é de Deus. A Igreja é de Nosso Senhor e nós, simples servos inúteis (cf. Lc 17,10). Quando há perseverança, os frutos do anúncio acontecer e o projeto do Reino de Deus apresenta seus frutos de conversão e de amor.
Festejar: segundo Francisco, uma Igreja em saída missionária é “a comunidade evangelizadora jubilosa que sabe sempre ‘festejar’: celebra e festeja cada pequena vitória, cada passo em frente na evangelização. No meio desta exigência diária de fazer avançar o bem, a evangelização jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da atividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar”. Podemos inferir, aqui, que uma Igreja missionária tem na celebração eucarística, especialmente na dominical, como reconhecimento do ‘Dia do Senhor’ e do testemunho de uma fé eclesial, na e com a comunidade, o seu ponto culminante. Nos faz muita falta uma catequese profundamente mistagógica e permanente dos mistérios da nossa fé. Não foi à toa que o Papa Francisco dedicou um consistente ensinamento sobre a importância das nossas ‘homilias’ (cf. EG, 112-132), com a sua preocupação com o ‘aprofundamento do kerigma’.
Enfim, já que a nossa Igreja arquidiocesana está vivendo o seu primeiro sínodo, diante dos desafios pastorais que temos em nosso contexto e tantas realidades de fronteiras, como a nossa pastoralidade pretende assumir o dinamismo destes verbos que nos provocam e traduzem o rosto de uma Igreja em “saída missionária”? Com a possível criação das futuras Dioceses - Assu e Santa Cruz - teremos um cenário ainda mais comprometido com os desafios da realidade urbana, com sua cultura da complexidade. Necessitamos duma teologia urbana mais consistente (cf. https://ihu.unisinos.br/categorias/635969-teologia-urbana-artigo-de-matias-soares). Essa interdependência verbal nos remete à compreensão, não só teórica e prática do estilo sinodal. Sem ele, não teremos uma ecologia pastoral verdadeiramente missionária. Assim o seja!



