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ARTIGO - O sofrimento como condição da existência humana

  • pascom9
  • há 6 minutos
  • 3 min de leitura

Dom João Santos Cardoso

Arcebispo de Natal

 

Existir é, simultaneamente, dom e provação. Não se trata de um paradoxo retórico, mas de uma verdade estrutural da condição humana. Desde que o ser humano tomou consciência de si, percebeu que a vida não se oferece como um caminho linear de satisfação, mas como uma travessia marcada por tensões, perdas, frustrações, desejos não cumpridos e dores que escapam à lógica da razão instrumental.


A filosofia moderna, especialmente a tradição pessimista alemã, ousou nomear essa ferida constitutiva da existência sem subterfúgios. Entre seus expoentes, destaca-se Arthur Schopenhauer, para quem o sofrimento não é um acidente da vida, mas o seu traço estrutural. Sofremos não porque algo deu errado, mas porque existimos. Essa afirmação, à primeira vista dura, não pretende negar a beleza da vida, mas libertá-la de ilusões ingênuas. Existir é uma dádiva, porém exigente, que cobra lucidez, maturidade e coragem interior.


Em sua obra O Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer sustenta que a essência última da realidade não é a razão, mas a Vontade: um impulso cego, incessante e irracional que impele o ser humano a desejar continuamente. O sofrimento nasce exatamente desse movimento incessante da vontade. Enquanto desejamos, sofremos pela falta; quando alcançamos o objeto desejado, sofremos pela saciedade, da qual brotam o tédio e o vazio interior. A existência oscila, assim, entre dois polos igualmente inquietantes: a carência e o tédio.


Essa estrutura não é episódica, mas universal: ninguém escapa a essa condição. Mudam apenas os objetos do desejo: amor, reconhecimento, sucesso, prestígio, segurança financeira, pertencimento, aceitação social. O sofrimento não se dissolve com a posse do objeto desejado; ao ser alcançado, ele apenas se transforma, assumindo novas formas.


O primeiro grande modo do sofrimento é a carência. Sofremos porque nos falta algo ou alguém: amor correspondido, amizade leal, reconhecimento, compreensão, estabilidade, segurança. A falta fere porque revela nossa vulnerabilidade radical. Esse sofrimento se intensifica quando nasce da não aceitação, da frustração de expectativas alheias projetadas sobre nós. Quando o sujeito percebe que não corresponde aos ideais de perfeição exigidos por pessoas próximas, a dor deixa de ser apenas emocional e se torna existencial: sofre-se não apenas pelo que falta, mas pelo que se é ou pelo que se julga ser.


Aqui o sofrimento toca a dignidade. A alma nobre, sensível e profundamente humana é, muitas vezes, a mais vulnerável a esse tipo de dor, justamente porque sente com profundidade e não se protege com o cinismo.


Paradoxalmente, quando a carência é satisfeita, não encontramos a paz prometida. Surge, então, o segundo grande sofrimento: o tédio. Uma inquietação silenciosa instala-se como sombra persistente sobre a existência. Essa experiência é retratada de modo magistral e profundamente irônico na canção Ouro de Tolo, de Raul Seixas, na qual o sujeito constata ter alcançado tudo aquilo que socialmente lhe foi apresentado como sinônimo de felicidade — emprego estável, reconhecimento, bens, conforto e sucesso — e, ainda assim, vê emergir o vazio e o tédio, revelando a insuficiência dessas conquistas para conferir sentido último à vida. A crítica não se dirige ao sucesso em si, mas à ilusão de que ele seja capaz de redimir a condição humana. Assim, a saciedade não liberta; ao contrário, evidencia a falta de sentido quando a existência é reduzida à lógica da posse.


Há ainda um terceiro nível de sofrimento: a dor propriamente dita — física, psíquica, emocional e espiritual, a dor da alma. Essa dor não se resolve com distrações nem com argumentos; exige presença, escuta, tempo e, muitas vezes, silêncio. Negá-la ou rebelar-se contra ela apenas intensifica o drama. A dor que não é acolhida torna-se corrosiva.

Schopenhauer ensina que o sofrimento é inevitável porque existir é desejar. A fé cristã, contudo, acrescenta uma palavra decisiva: o sofrimento não é definitivo.

 
 
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