top of page

ARTIGO - A sociedade do ruído e o desafio de reaprender o silêncio

  • há 12 minutos
  • 2 min de leitura

Dom João Santos Cardoso

Arcebispo de Natal


Vivemos a era da conexão permanente. Nunca foi tão fácil falar, opinar, compartilhar imagens e reagir instantaneamente aos acontecimentos. Paradoxalmente, porém, nunca foi tão difícil cultivar o silêncio. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han observa que a comunicação digital produz um permanente "barulho comunicativo", que enfraquece nossa capacidade de contemplar, refletir e estabelecer relações verdadeiramente humanas.


Em No enxame, Han descreve a sociedade digital como um enorme "enxame" formado por indivíduos permanentemente conectados, mas incapazes de constituir uma autêntica comunidade. Diferentemente da massa, que possui uma voz comum, o enxame digital é constituído por indivíduos isolados que apenas reagem, comentam e emitem opiniões. Por isso, afirma o filósofo: "Também falta ao Shitstorm uma voz. Por isso ele é percebido como barulho."


Esse excesso de comunicação não produz necessariamente mais compreensão. Ao contrário, muitas vezes elimina a escuta, a ponderação e a profundidade. Em uma das passagens mais expressivas da obra, Han cita o escritor Michel Butor e conclui: "O medium do espírito é o silêncio. Claramente, a comunicação digital destrói o silêncio. O aditivo, que produz o barulho comunicativo, não é o modo de proceder do espírito."


Essa reflexão ajuda a compreender um dos grandes paradoxos do nosso tempo: quanto mais informação circula, menos espaço resta para o pensamento. Han observa que o excesso de informações compromete nossa capacidade de distinguir o essencial do acessório e afirma categoricamente: "O excesso de informação faz com que o pensamento definhe." A abundância de dados não produz necessariamente sabedoria; muitas vezes apenas aumenta a dispersão.


Essa preocupação não é exclusiva de Han. Já Arthur Schopenhauer, em seu ensaio Sobre o ruído e o barulho, denunciava que o excesso de ruído destrói a concentração e empobrece a vida intelectual. Mais recentemente, o explorador norueguês Erling Kagge recordou que o silêncio constitui um caminho privilegiado para a liberdade, o autoconhecimento e a contemplação.


A tradição cristã reconhece essa verdade há séculos. O silêncio nunca foi entendido apenas como ausência de sons, mas como espaço interior onde Deus pode falar ao coração humano. Foi no silêncio que Elias reconheceu a presença divina na brisa suave; Maria guardava e meditava tudo em seu coração; Jesus frequentemente se retirava para lugares desertos antes das grandes decisões de sua missão.


Talvez um dos maiores desafios da cultura digital seja precisamente reaprender o silêncio. Desligar, ainda que por alguns momentos, os aparelhos eletrônicos, limitar o fluxo incessante de notificações e reservar tempo para a oração, a leitura e a contemplação não constitui fuga do mundo, mas um ato de liberdade. Em uma civilização marcada pelo barulho comunicativo, o silêncio tornou-se uma necessidade espiritual e humana. Somente quem aprende a silenciar pode voltar a escutar, pensar com profundidade e reencontrar a si mesmo, ao próximo e a Deus.

 
 
bottom of page