ARTIGO - O impacto das novas tecnologias sobre o trabalho humano
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Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal
Entre os diversos temas tratados na Encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV dedica especial atenção aos impactos das novas tecnologias e da Inteligência Artificial sobre o trabalho humano. Máquinas cada vez mais inteligentes realizam tarefas antes desempenhadas por pessoas, transformando profissões, criando oportunidades e, ao mesmo tempo, suscitando preocupações quanto ao desemprego, à precarização das relações de trabalho e ao agravamento das desigualdades sociais (MH, n. 151).
O Papa reconhece que o progresso tecnológico é um bem quando está a serviço da pessoa humana. É desejável que as máquinas assumam atividades pesadas, repetitivas ou perigosas, preservando a saúde e a segurança dos trabalhadores. Contudo, a tecnologia não pode ser orientada exclusivamente pela busca de maior lucro e redução dos custos de produção. Quando isso acontece, o trabalho deixa de ser valorizado como expressão da dignidade humana e passa a ser tratado apenas como um fator econômico (MH, n. 152).
A Igreja recorda que o trabalho é muito mais do que um meio de sustento. Por meio dele, a pessoa desenvolve seus talentos, constrói relações, participa da vida social e colabora com a obra da criação. Uma sociedade em que grande parte das pessoas é excluída do trabalho corre o risco de experimentar não apenas dificuldades econômicas, mas também isolamento, perda do sentido de pertença e enfraquecimento da própria convivência social. Por isso, o acesso ao trabalho deve continuar sendo um objetivo prioritário das políticas públicas e um critério para avaliar a qualidade humana de qualquer modelo de desenvolvimento (MH, n. 154).
A Encíclica também chama a atenção para as desigualdades produzidas pela difusão da Inteligência Artificial. Enquanto alguns países avançam rapidamente na automação, outros permanecem marcados pelo trabalho precário, pelos baixos salários e pela instabilidade econômica. Essa realidade exige soluções adaptadas às circunstâncias de cada sociedade, com participação das comunidades locais e proteção efetiva das pessoas mais vulneráveis (MH, n. 153).
Por isso, o desenvolvimento da Inteligência Artificial deve ser acompanhado por responsabilidade ética, compromisso político e solidariedade social. A inovação precisa caminhar lado a lado com políticas públicas que favoreçam a criação de empregos, a qualificação profissional contínua e a proteção dos trabalhadores diante das rápidas mudanças tecnológicas. Também as empresas são chamadas a medir seu sucesso não apenas pelos lucros obtidos, mas pela qualidade e pela dignidade dos empregos que oferecem (MH, nn. 155-156).
O desafio é orientar o desenvolvimento tecnológico para o bem comum. A Inteligência Artificial deve ampliar as capacidades humanas e não substituir indiscriminadamente as pessoas. Quando colocada a serviço da dignidade humana, ela pode tornar o trabalho mais seguro, criativo e produtivo. Quando utilizada sem critérios éticos, corre o risco de ampliar desigualdades e aprofundar formas de exclusão (MH, n. 156).
A Doutrina Social da Igreja recorda um princípio sempre atual: a economia e a tecnologia existem para servir à pessoa humana e nunca o contrário. O verdadeiro progresso será aquele que unir inovação, justiça social e promoção integral da dignidade de cada trabalhador (MH, nn. 152; 154; 156).
