ARTIGO - O dia em que Natal parou

Pe. José Freitas Campos
Do clero da Arquidiocese de Natal
No início do século XX, em 1905, a capital do Rio Grande do Norte era ainda uma pequena cidade, com aproximadamente 10 mil habitantes. Eclesiasticamente, pertencia à Diocese da Paraíba, sediada em João Pessoa (PB). Natal possuía uma única paróquia, a de Nossa Senhora da Apresentação, criada ainda no período colonial, em 1599, como a freguesia mais setentrional do Brasil.
Havia quase 25 anos, a paróquia era pastoreada pelo padre João Maria Cavalcanti de Brito, que, antes de chegar à capital potiguar, havia exercido seu ministério nas paróquias de Santa Luzia do Sabugi (PB), Acari, Flores — atual Florânia — e Papari, hoje município de Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte.
Ao chegar a Natal, fundou o jornal 8 de Setembro, em homenagem à festa litúrgica da Natividade de Nossa Senhora. Empenhou-se na luta pela libertação dos escravizados, manteve diálogo com a Maçonaria e, sobretudo, fez-se próximo dos mais pobres e desamparados, dedicando sua vida ao serviço dos que mais necessitavam de amparo e solidariedade.
Foi justamente no exercício dessa missão de caridade, em meio à epidemia de cólera, que contraiu a doença. Sua trajetória sacerdotal foi marcada por uma entrega generosa e incondicional ao povo de Deus, sem reservas, fazendo da caridade evangélica a expressão mais eloquente de seu ministério.
Na manhã de 16 de outubro de 1905, o padre João Maria fez sua Páscoa definitiva. Ao meio-dia, seu corpo foi trasladado do Alto do Juruá, na atual região de Petrópolis, para a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação, acompanhado por uma expressiva multidão. O cortejo fúnebre foi marcado por profunda comoção: fiéis, amigos, familiares e admiradores se reuniram para prestar a última homenagem àquele sacerdote que, posteriormente, entraria para a memória religiosa do povo potiguar como “O Anjo da Caridade”.
Às 16 horas, após as celebrações fúnebres, o corpo foi conduzido ao cemitério do bairro do Alecrim, onde recebeu sepultura. Calcula-se que aproximadamente oito mil pessoas tenham comparecido às despedidas, numa manifestação extraordinária de pesar e reconhecimento, sobretudo quando se considera a população de Natal naquele início de século.
Segundo os registros de Pedro Soares de Araújo Filho, publicados na obra Padre João Maria: subsídios para a História (1906), à medida que o cortejo avançava pelas ruas da cidade, o povo, tomado pela dor e pela saudade, exclamava: “Com sufocada saudade e dor, morreu o nosso bom vigário. Acabou-se a nossa proteção e amparo.”
Entre homenagens, preces, lágrimas e despedidas, Natal sepultava não apenas um sacerdote, mas também um homem que fizera da própria existência um testemunho de amor ao próximo. Naquele 16 de outubro de 1905, a cidade parecia deter o seu ritmo para chorar a partida de seu vigário, cuja memória permaneceria viva na devoção popular e na história da Igreja norte-rio-grandense.
Natal chorou a morte do padre João Maria; o tempo, porém, não apagou a lembrança de sua caridade.



