ARTIGO - O amor como experiência de plenitude

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal
Recentemente, li um texto em que o autor procurava traduzir em palavras uma das experiências humanas mais profundas e, ao mesmo tempo, mais difíceis de definir: o amor. Entre tantas expressões de singular beleza e sensibilidade poética, uma despertou especialmente minha atenção: “E talvez seja isso o amor: não encontrar no outro a metade que nos falta, mas descobrir, em sua existência, uma beleza pela qual vale a pena continuar inteiro”.
Essa afirmação remete à reflexão filosófica sobre o amor apresentada por Platão em O Banquete. Nessa obra, diferentes personagens procuram compreender a natureza de Eros, recorrendo a discursos, imagens e narrativas míticas. A multiplicidade de perspectivas revela que o amor não se deixa aprisionar numa única definição.
No discurso de Aristófanes, encontramos o mito dos seres humanos originalmente esféricos, posteriormente divididos, que procuram sua metade perdida. Amar seria buscar no outro a recomposição de uma unidade primordial. Já no discurso de Sócrates, inspirado nos ensinamentos de Diotima, Eros aparece como filho de Penúria e Recurso, trazendo consigo a marca da carência e o desejo de possuir aquilo que lhe falta.
Entretanto, o texto descortina outro horizonte: o amor não apenas como experiência da falta, mas como descoberta de plenitude; não como busca de alguém que preencha as carências, mas como encontro com uma presença que ilumina a existência, revelando-lhe novos horizontes de sentido.
Há sentimentos que chegam silenciosamente, sem pedir licença, e passam a habitar os lugares mais profundos da alma. O amor é uma dessas experiências. A presença do outro torna-se tão significativa que já não permanece exterior à existência de quem ama, mas passa a integrar sua maneira de sentir, compreender e habitar o mundo. O outro deixa de ser apenas alguém cuja presença se deseja e torna-se uma presença que ilumina a própria existência, despertando sentimentos, revelando novos horizontes de sentido e suscitando o desejo de cuidar e de se doar.
Essa experiência encontra profunda ressonância na encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI. Para o Papa, eros e ágape não são realidades opostas, mas dimensões de um mesmo amor, chamado a amadurecer e a alcançar sua plenitude. O eros, sem perder a intensidade do desejo e do encantamento, abre-se progressivamente à dimensão do ágape, na qual o amor ultrapassa a busca da própria satisfação e se transforma em solicitude pelo bem do outro. Assim, o amor não se realiza apenas na alegria de encontrar alguém que dá sentido à existência, mas também na gratuidade de oferecer a própria existência como dom.
Amar não significa possuir o outro, mas acolher sua presença como um dom que, mesmo na distância, permanece vivo na interioridade. Há no amor uma força espiritual que nos faz transcender a nós mesmos: o outro deixa de ser apenas alguém cuja presença se deseja e torna-se alguém por cujo bem se é capaz de doar a própria vida. O amor revela, assim, algo do mistério divino, pois, ao abrir-se à gratuidade, torna-se reflexo daquele Amor que é fonte de toda comunhão. Talvez resida aí sua beleza mais profunda: descobrir que certas pessoas passam a habitar nossa existência como uma luz, despertando a esperança e a vontade de florescer. Afinal, a luz não precisa possuir aquilo que ilumina; sua presença basta para revelar uma beleza que, sem ela, talvez permanecesse oculta.



