top of page

ARTIGO - O abuso de poder e de consciência na Igreja

  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Por Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal

 

O Papa Francisco nos provocou a superarmos o Clericalismo, que, segundo ele, “se manifesta claramente num modo anômalo de entender a autoridade na Igreja - tão comum em muitas comunidades onde ocorreram as condutas de abuso sexual, de poder e de consciência, sendo - o Clericalismo - aquela ‘atitude que não só anula a personalidade dos cristãos, mas tende também a diminuir e a subestimar a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo’, favorecido tanto pelos próprios Sacerdotes - Bispos e Diáconos - como pelos leigos, gera uma ruptura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de Clericalismo” (cf. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2018/documents/papa-francesco_20180820_lettera-popolo).


É relevante o Pontífice tenha situado a ideia do que seja esse estilo de exercício de poder na Igreja, quando dos escândalos que assolaram a conjuntura eclesiástica da Igreja no Chile. Os desafios neste âmbito do abuso de poder continuam; mas, como nos últimos tempos a ênfase foi dada às questões sexuais, as demais formas ainda são percebidas e não consideradas como enfaticamente nocivas ao corpo eclesial e à sociedade, mesmo que indiretamente, se consideramos a força institucional da mesma Igreja, com sua rede de relações e força simbólica. Essa carta dirigida à Igreja chilena deveria ser aprofundada e rezada nas demais Igrejas Locais da catolicidade, principalmente para ajudar-nos no discernimento acerca das demais perversões do modus operandi de ministros ordenados - Bispos, Padres, Diáconos, Religiosos(as) - e demais membros do povo de Deus, que oprimem e agem de modo autoritário.

 

Na construção e para uma justa hermenêutica deste desafio à vida da Igreja e à sociedade na sua totalidade, já que o abuso de autoridade tem outras formas e contextos, faz-se necessário ter presente o papel e o lugar da ‘consciência’ no processo relacional das pessoas, com suas histórias, personalidades e, antes de tudo, como sujeitos eclesiais. O Concílio Vaticano II nos colocou a baliza contemporânea para pensarmos e construirmos um modo diferenciado, inclusive de ressignificação da obediência, que não pode ser mais ‘cega’, como pretendem algumas mentes autoritárias e violentadoras da condição humana, mas respeitadora da liberdade de consciência, sendo esta o sacrário mais íntimo e profundo onde o amor e a verdade de Deus são revelados (cf. Gaudium et Spes, 16). Esse ‘lugar teológico’ não pode ser tratado com desrespeito e abusos, inclusive aquele ‘espiritual’, como temos acompanhado e sentido em muitos ambientes religiosos, ainda mais amplificados pela capilaridade omnipresente e a força avassaladora das mídias sociais. Não podemos ter a pretensão de substituir a consciência das pessoas, como nos admoestou o Papa Francisco referindo-se ao respeito devido à consciência dos casais e a nossa missão enquanto Igreja, nos dias atuais, reconhecendo que “nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (cf. Amoris Laetitia, 37).

 

O tema da consciência e a sua importância à liberdade religiosa, principalmente no contexto das inovações eclesiológicas e antropológicas do Concílio Vaticano II, eram relevantes ao pensamento do teólogo Ratzinger, quando ele pretendia que o Estado moderno afrontasse a questão. O encontro com os grandes temas da idade moderna não está na grande Constituição pastoral, segundo ele, mas nos dois documentos menores, que, pouco a pouco, ganharam corpo com a ‘recepção’ do Concílio, a saber: A Declaração sobre a Liberdade Religiosa - Dignitatis Humanae - e a que trata da relação da Igreja com as religiões não cristãs - Nostra Aetate (cf. J. Ratzinger. Prefácio, Opera Omnia, L’ Insegnamento del Conc. Vat. II, pág. 7-9). Segundo o comentário da introdução das suas obras completas, para o teólogo “a fé cristã reivindicava a liberdade pela convicção religiosa e pela prática no culto, sem com isso violar o direito do Estado no seu próprio ordenamento: os cristãos rezavam pelo imperador, mas não o adoravam” (cf. Idem). A questão central era a liberdade de escolher e de praticar a religião, como a de mudar, enquanto direito fundamental de liberdade do homem. Com essa constatação, podemos contextualizar, tanto o dado personalíssimo da consciência como lugar do discernimento e acolhimento da vontade de Deus, como também os reflexos antropológicos e sociais desta relação. Nos ambientes eclesiais, há a urgência do aprofundamento desta reflexão sobre as novas formas de vivência da fé cristã e o modo com o qual muitas lideranças estão a assumir, de modo invasivo, a ousadia de substitutos da vontade dos outros. Urge uma profunda humanização a partir da beleza dos valores do Evangelho e uma teologia moral que tenha atenção aos ensinamentos pós-conciliares.

 

A Constituição Federal também declina sobre alguns direitos à intimidade, justamente para proteger o cidadão de determinados abusos de poder (cf. Art. 5º, inc. VI-XII). Chamo à atenção ao inciso sexto, que assevera o seguinte: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas imagens”. Nas palavras de Mário Antônio Sanches “a objeção de consciência é direito da pessoa e salvaguarda princípios morais inalienáveis: o respeito à autonomia plena e consciente da pessoa e a sua liberdade. Essa valorização da objeção de consciência não pode esconder, nem se fundamentar em caprichos pessoais, subjetivismos nem intransigente obstinação. Por isso ela precisa ser temperada pela apresentação dos valores em questão, explicitação dos motivos pessoais e criativa abertura ao diálogo” (cf. https://www.jusbrasil.com.br/artigos/o-direito-a-objecao-de-consciencia:21/03/26). Tenhamos presente a relação e atualização que a teologia católica faz, justamente porque considera os sinais dos novos tempos e como a liberdade de consciência está associada ao modo como cada ser humano tem o direito à sua intimidade salvaguardada.

 

O Papa Francisco também trata do abuso espiritual no processo missionário da Igreja, quando citando o seu predecessor, Bento XVI, afirma que “os cristãos têm o dever de o anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível. ‘A Igreja não cresce por proselitismo, mas ‘por atração’” (cf. Evangelii Gaudium, 14). O anúncio da Alegria do Evangelho precisa ser proposta, não imposição; nem menos violência à liberdade religiosa. Ainda em nossos dias, nos deparamos com muitas formas de abusos espirituais e formas errôneas de alienar as pessoas e oprimi-las e colonizá-las através do discurso religiosos fundamentalista e belicoso. Nos ambientes religiosos há muitas formas de “violências simbólicas” acontecendo, com a realização de exploração econômica, sexual e de poder. Ainda quem não queira entender - por conveniência, ou por má fé - e acolher o ensinamento do Papa Francisco acerca deste estilo pastoral, que não condiz com a prática missionária de Jesus de Nazaré. Não devemos evangelizar só para aumentar o número das tribos e bolhas religiosas, como percebemos em alguns movimentos, inclusive católicos, mas para que as pessoas façam a “experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo” (cf. Evangelii Gaudium, 1).

 

            Enfim, também é necessário que a “dignidade dos ministros ordenados” seja respeitada (cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/artigo-a-dignidade-dos-presbíteros). Inclusive nas relações hierárquicas da própria Igreja. Nas comunidades eclesiais também nos deparamos com muitos fiéis leigos que perseguem, caluniam, ofendem e maltratam os seus pastores. Há também uma distorção do que seja o “autêntico protagonismo”, em alguns casos. Uma ‘autonomia relacional’, respeitosa e marcada pelo espírito de serviço, é o que precisa animar as comunidades cristãs e estruturas eclesiais. O que somos chamados a fazer é ter docilidade à ação do Espírito Santo em nossas mentes, corações e atitudes fermentadas pelas práticas das Bem-Aventuranças (cf. Mt 5,1-12).  Se a nossa preocupação for com ‘o poder, pelo poder’, a nossa existência não será nem cristã e, consequentemente, não promoverá atração à pessoa de Nosso Senhor. O abuso de poder e de consciência na Igreja é uma chaga a ser superada, antes de tudo, pela busca permanente da conversão pessoal, que nos levará à mudança das nossas conjunturas seladas pelo pecado. Rezemos sempre nesta intenção. Assim o seja!

 


 
 
bottom of page