ARTIGO: A dignidade dos presbíteros
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Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal
Capelão da UFRN
A minha intenção em desenvolver esta reflexão não tem nada a haver com os movimentos percebidos em nossos dias, com o fomento do Clericalismo, como já denunciava o Papa Francisco. Tenho em mente apresentar algumas preocupações pessoais e percepções dos sinais dos tempos e de como cada presbítero é chamado a ser e a existir no contemporâneo. Penso estar aqui o estado da questão por excelência; já que a passagem da modernidade à pós-modernidade tem nos forçado a assumir a reviravolta antropológica, que afeta também a teologia do sacramento da ordem e o seu modo de acontecer no mundo. As narrativas aristotélico-tomista, que foram densamente assumidas, com a sua importância à sistematização racional da Contra-Reforma católica do século XVI, ainda hoje têm a sua relevância interna à compreensão da nossa dogmática católica; mas que não é mais determinante para que estejamos inseridos nos novos movimentos da história, principalmente quando estes são assumidos de modo anacrônico e descontextualizado. O desenvolvimento da teologia do sacramento da ordem na nossa Época hipermoderna precisa discernir que há novas engenharias, que podem ser invólucros eficazes para que sejamos capazes de ser e estar no mundo, com uma inserção epistemológica e pastoral. Em tempos não tão distantes, o neotomismo e outras linhas de reflexão conseguiram perfurar e estar inseridos nas correntes do pensamento contemporâneo, quando foram capazes de dialogar com as demais ciências e campos do saber. Sem isso, nem nós mesmos estaremos abertos a nos ouvir entre nós. Tudo isso nos prepara ao enfrentamento da questão de qual seja o nosso lugar de existência e da nossa dignidade enquanto ministros ordenados.
Quando tratarmos da identidade e da dignidade da pessoa do presbítero, nas nossas Igrejas Particulares, devemos, necessariamente, ter presente os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Como afirmou recentemente o Papa Leão: “ele continua a ser a nossa bússola”. Também gostaria de mencionar uma obra já traduzida no Brasil, que é do teólogo jesuíta Albert Vanhoye - in memoriam - , com o seguinte titulo: “Sacerdotes Antigos e Sacerdote Novo segundo o Novo Testamento”. Nesta direção já fiz algumas reflexões às quais também indico como complementar ao que proponho-me neste ensaio: https://ihu.unisinos.br/categorias/628349-o-presbitero-no-mundo-artigo-de-matias-soares e https://blogoalerta.com.br/sacerdotes-e-presbiteros-uma-leitura-aproximativa. Como estamos sentindo uma retomada aguerrida do retorno à “grande disciplina” (cf. B. Libânio), com sua negação dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, que nos colocou em sintonia dialógica com a principal reviravolta da cultura contemporânea, faz-se mister algumas reflexões nesta direção; tendo como ponto de partida a centralidade da pessoa humana, com a sua consciência, como protagonista de todos os processos, pois é “no fundo da própria consciência, que o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (cf. Gaudium et Spes, 16). Assim como os demais membros do povo de Deus, o protagonismo está agora sob a responsabilidade da pessoa do presbítero, com suas subjetividades, dramas e história, que não podem ser descartadas e tratadas com indiferença e confusões.
Na atual conjuntura, somos evocados a ter ciência de que “o estilo sinodal é o caminho da Igreja no terceiro milênio”, como já nos ensinou o Papa Francisco e continua o Papa Leão XIV. Na Igreja, “todos devemos ser sinodais”. A pirâmide precisa estar invertida. O principal método é o da escuta. O discernimento evangélico e eclesial passa pelo reconhecimento de todos como baluartes dos processos. A nossa carta é o Evangelho de Jesus Cristo e não o Príncipe de Nicolau Maquiavel. Temos que governar pela conquista, que é consequência do testemunho, que harmoniza e enobrece o todo; e não o medo, que fere e afasta. Urge mais respeito à nossa história e às comunidades, com suas caminhadas e dinâmicas eclesiais. Enquanto presbíteros, todos estamos ligados a estes processos, com a nossa humanidade, marcada por afetos, desafios e possibilidades. Enquanto seres humanos, com liberdades e projetos, não podemos ser tratados como “profissionais e burocratas do sagrado”. Os presbíteros precisam ser também objetos do cuidado e da proteção, sem vitimismos; mas com profunda empatia evangélica. Assim como os demais seres humanos, nós também desejamos a felicidade. Sem comportamentos humanizados e estruturas humanizadas, seremos tentados a nos distanciar da mística presbiteral e poderemos causar feridas na vida dos demais membros do povo de Deus. Se há algo que a teologia do presbiterato no Concílio nos ofertou, lido no conjunto dos seus documentos, é que na base de quem recebe o sacramento da ordem está sempre uma pessoa. Já afirmavam os Padres da Igreja: “a graça pressupõe a natureza”. Esse ensinamento continua fundante. Cuidemos da pessoa dos presbíteros e teremos comunidades mais felizes com seus pastores e vive-versa. Quando a lógica do poder se sobrepõe a do serviço, o estrago vai acontecer, cedo ou tarde. Assim como existe a preocupação da Igreja com a dignidade dos demais fiéis, também deve haver com a dos presbíteros, que desejam ser sujeitos e construtores de história.
O Concílio Vaticano II aprofundou a temática da identidade presbiteral no decreto Presbyterorum Ordinis. Deveríamos rezar e estudar este documento e suas declinações pós-conciliares. Se referindo à missão destes ministros ordenados, assim afirmou o decreto: “o fim que os presbíteros pretendem atingir com o seu ministério e com a sua vida é a glória de Deus Pai em Cristo. Esta glória consiste em que os homens aceitem consciente, livre e gratamente a obra de Deus perfeitamente realizada em Cristo, e a manifestem em toda a sua vida. Os presbíteros, portanto, quer se entreguem à oração e à adoração quer preguem a palavra de Deus, quer ofereçam o sacrifício eucarístico e administrem os demais sacramentos, quer exerçam outros ministérios favor dos homens, concorrem não só para aumentar a glória de Deus mas também para promover a vida divina nos homens. Tudo isto, enquanto dimana da Páscoa de Cristo, será consumado no advento glorioso do mesmo Senhor, quando Ele entregar o reino nas mãos do Pai” (cf. Presbyterorum Ordinis, 2). Em continuidade, há a preocupação de situar o presbítero com a sua responsabilidade de estar no mundo, já que “o seu próprio ministério exige, por um título especial, que não se conformem a este mundo; mas exige também que vivam neste mundo entre os homens e, como bons pastores, conheçam as suas ovelhas e procurem trazer aquelas que não pertencem a este redil, para que também elas ouçam a voz de Cristo e haja um só rebanho e um só pastor. Para o conseguirem, muito importam as virtudes que justamente se apreciam no convívio humano, como são a bondade, a sinceridade, a fortaleza de alma e a constância, o cuidado assíduo da justiça, a delicadeza, e outras que o Apóstolo Paulo recomenda quando diz: ‘tudo quanto é verdadeiro, tudo quanto é puro, tudo quanto é justo, tudo quanto é santo, tudo quanto é amável, tudo quanto é de bom nome, toda a virtude, todo o louvor da disciplina, tudo isso pensai’” (cf. Presbyterorum Ordinis, 3). Com essa citação do Apóstolo, vemos como na comunidade eclesial a estabilidade humana dos sacerdotes é importante à própria vitalidade da caminhada pastoral dos fiéis.
Por fim, como cooperadores da ordem episcopal, os presbíteros, assim como os demais membros do povo de Deus, têm o seu lugar e a sua identidade própria. A teologia conciliar é a do reconhecimento da pessoa, como sujeito, e não só objeto das ações eclesiais. Não é a toa que os elementos da construção acerca do que seja a sinodalidade estão nos documentos do evento conciliar, especialmente na Lumen Gentium. Ainda sobre a relação entre os ministros ordenados, especialmente entre os bispos e os presbíteros, assim admoestam os padres conciliares: “os presbíteros, como esclarecidos cooperadores da ordem episcopal e a sua ajuda e instrumento, chamados para o serviço do Povo de Deus, constituem com o seu Bispo um presbitério com diversas funções. Em cada uma das comunidades de fiéis, tornam de algum modo presente o Bispo, ao qual estão associados com ânimo fiel e generoso e cujos encargos e solicitude assumem, segundo a própria medida, e exercem com cuidado quotidiano. Sob a autoridade do Bispo, santificam e governam a porção do rebanho a si confiada, tornam visível, no lugar em que estão, a Igreja universal e prestam uma grande ajuda para a edificação de todo o corpo de Cristo (cf. Ef. 4, 12). Sempre atentos ao bem dos filhos de Deus, procurem dar a sua ajuda ao trabalho de toda a diocese, melhor, de toda a Igreja. Por causa desta participação no sacerdócio e na missão, reconheçam os presbíteros o Bispo verdadeiramente como pai, e obedeçam-lhe com reverência. O Bispo, por seu lado, considere os sacerdotes, seus colaboradores, como filhos e amigos, à imitação de Cristo que já não chama aos seus discípulos servos mas amigos (cf. Jo. 15,15). Deste modo, todos os sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, estão associados ao corpo episcopal em razão da Ordem e do ministério, e, segundo a própria vocação e graça, contribuem para o bem de toda a Igreja” (cf. Lumen Gentium, 28). Há um longo caminho a ser percorrido. Tudo passa pela lógica do serviço e do amor ao Evangelho. Sem abertura de coração à conversão e ao diálogo sereno, verdadeiro e respeitoso, não avançaremos. São necessárias a coragem e a liberdade do Espírito Santo entre nós para que nos escutemos mutuamente e cresçamos sinodalmente. Assim o seja!



