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ARTIGO - Bíblia, mística e beleza literária

há 11 minutos
3 min de leitura

Monsenhor João Medeiros Filho

Assistente eclesiástico do Mosteiro das Filhas de Santana

 

Após a Encíclica “Mediator Dei” (1947), surgem movimentos de valorização da Palavra de Deus. A Igreja Católica celebra o Domingo da Bíblia, que antecede o dia 30 de setembro, festa litúrgica de São Jerônimo, tradutor dos textos originais para o Latim, versão conhecida como Vulgata. A Sagrada Escritura é revelação divina, mística e de significativo valor histórico-literário. No tratado “Doctrina Christiana”, Santo Agostinho põe em pé de igualdade a excelência literária dos clássicos e a qualidade dos Livros Bíblicos. Nestes, a mensagem espiritual é enunciada com beleza, fonte de experiência religiosa e escola de oratória e escrita. Quem desejar conhecer a elegância dos estilos e gêneros literários deverá beber na tradição retórica, descritiva e poética dos Textos Sagrados.


A verdade bíblica é transcendental, indissociável de um magnífico suporte linguístico. Fé e linguagem esmerada se completam. Os Escritos Bíblicos estão impregnados de inspiração divina, daí a sua profundidade e encanto que atravessam séculos. Desde os tempos mais remotos, há uma nítida consciência da perenidade da Palavra Divina. “As folhas e flores murcham, mas a Palavra do Senhor permanece para sempre” (Is 40, 8). Atualmente, autores leigos têm contribuído para aprofundar o conhecimento e amor à Bíblia, demonstrando em seus estudos a sublime qualidade dos relatos neo-vetero-testamentários. Dentre eles, destaca-se Erich Auerbach em “Mímesis”, estabelecendo dois paradigmas da literatura mundial: a Odisseia e a Sagrada Escritura. Para ele, os Textos Bíblicos contêm profunda intencionalidade artística e acentuada concepção harmônica do humano e divino. Hoje, há excelentes trabalhos, incentivando a leitura e proporcionando uma melhor compreensão do Livro Sagrado. 


Em “De profundis”, Oscar Wilde relata: “No Natal, consegui um exemplar do Novo Testamento e todas as manhãs, após limpar a cela da prisão e lavar os pratos, lia versículos dos Evangelhos. Era uma deliciosa maneira de começar o dia, enchendo-me de luz e paz.” Ao longo dos anos, tentaram ofuscar a beleza e o encanto dos Evangelhos, proclamando-os de forma inadequada ou apressada. Debruçar-se sobre eles é como entrar num jardim de rosas perfumadas, depois de sair de um ambiente estreito, escuro e fétido. Ali, o leitor poderá encontrar importantes realidades da vida: angústia, tristeza, alegria, amor, súplica, solidariedade, perdão, ternura, êxtase etc. Sua leitura desperta um sentimento no qual se percebem poesia e transcendência da Palavra de Deus.


Os Textos Bíblicos inspiraram inúmeras e renomadas obras artísticas, em suas variadas formas, criadas ao longo dos séculos: as catedrais (Chartres), as pinturas de Giotto, a Divina Comédia (Dante Alighieri), as esculturas e pinturas de Michelangelo, músicas sacras e clássicas, bem como a literatura mundial. Dentre os autores brasileiros influenciados pela Sagrada Escritura, destacam-se Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Adélia Prado, Rubem Alves etc. Basta folhear a Bíblia com mais interesse para verificar o que escreveu William Blake: “Ela é o grande código da arte ocidental.” O poeta Claudel a considera “um completo compêndio, pois nele – e às vezes só nele – apreende-se a difícil e interminável arte de narrar e escrever.” O pintor Chagall a denominou “atlas iconográfico”, pois tantas imagens ali contidas se fixam em nossa formação intelectual e espiritual. 


A Bíblia é tesouro e patrimônio cultural da humanidade. Obra de inspiração divina, transmitida por místicos, poetas e cronistas, cantada e recitada durante milênios, antes de ser escrita. Ela é tecida de vocábulos que envolvem o mistério e registram os rastros do sopro transcendente, presença silenciosa, atingindo o nosso âmago. Assim, compreende-se o arrebatamento do profeta Jeremias: “Mal encontrei as Tuas palavras, e já as devorava. Elas se tornaram para mim prazer e alegria” (Jr 15,16).

 
 
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