ARTIGO - A linguagem religiosa e beligerante
- pascom9
- há 2 dias
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Pe. Matias Soares

Capelão da UFRN
Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Natal-RN
A religião da linguagem beligerante voltou a ganhar espaço em nossas comunidades e estruturas. Há quem a tente descrever como uma tentativa de “teologia do domínio”, com um intento pré-moderno de defesas e ataques a tudo o que é diferente dos seus elementos doutrinários. Não tenho bases mais consistentes para aprofundar que tipo de reflexão teológica seria essa; mas ouso situá-la na corrente da religiosidade pós-moderna.
É estranho está com uma linguagem barroquista, com uma crescente presença contemporânea. Penso ser mais uma construção das subjetividades hipermodernas que criam uma imagem de deus à sua imagem e semelhança. Como estamos atolados numa crise do humano, também estamos a sufocar o Deus revelado por Jesus Cristo. Aquele dos Evangelhos, que nos apresentam o filho de Deus, puro e simples (cf. Mc 1,1; Mt 1,1: Lc 1,32 e Jo 1,1).
Essa balbúrdia teológica faz com que a religião seja usada para a manipulação das massas e as projeções individuais dos pregadores de plantão, pela internet, encontrem eco nos inconscientes coletivos de uma sociedade marcada por tantos males pessoais e sociais. A religião, num continente, como é o latino-americano, marcado pela carência na educação e com sentimentos religiosos herdados dos nossos antepassados, tem tornado-se um lugar atraente e terreno fértil à alienação e à impostação destas religiosidades aguerridas e combativas das diferenças.
Neste sentido, a negação dos valores evangélicos são patentes na sua raiz e as intenções dialógicas do Concílio Vaticano II são jogadas para fora da sacramentalidade da Igreja.
A linguagem é expressão do que temos nas nossas mentes e corações. Ela é canal para a análise e a justa interpretação dos sentimentos e da cultura de um povo. Isso não é diferente quando pensamos a realidade da Igreja e o seu estilo de ser e agir no mundo, que na atualidade necessita percorrer um urgente caminho de “diálogo e amizade social” (cf. FT, cap. VI).
Num mundo marcado por sinais de violências físicas e simbólicas, polarizações e expulsões dos outros, precisamos fermentar a cultura com a compaixão e a ternura, com testemunhos permanentes da bem-aventurança da paz (cf. Mt 5,9). Esse é o dom do Ressuscitado (cf. Jo 20,19-23). Essa “paz deve ser desarmada e desarmante” (cf. Papa Leão XIV). É, antes de tudo, para nós, cristãos, consequência de uma experiência com O senhor.
A linguagem assim como manifesta o que está em nosso interior, passa a ser também o meio pelo qual geramos e incentivamos atitudes de paz. Por isso que, as narrativas propositivas de paz são mais importantes do que a ideia, martelada com insistência, de que somos “combatentes”. Temos que cantar em nossos tempos sómbrios a oração de São Francisco: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”! A nossa revolução não passa pela violência, mesmo que seja só simbólica. Ela é consequência da nossa capacidade de perdoar e buscarmos o perdão.
A humanidade necessita de reconciliação, assim como nós, na própria Igreja, devemos exercer essa cultura do encontro. As polaridades, com suas alteridades, não são motivos para “criarmos muros; mas pontes”, pois é esse o caminho a ser seguido por nós, cristãos e filhos da Igreja (cf. Papa Francisco, FT, 276).
Na Fratelli Tutti - Todos Irmãos - no capítulo VIII, o Papa Francisco, de saudosa memória, nos ofereceu uma bela reflexão de como as religiões podem estar a serviço da fraternidade no mundo. Contudo, também analisa o que elas podem gerar quando distorcem a sua linguagem e o seu papel, justamente “sem uma abertura ao Pai de todos”, que oferece razões estáveis para o apelo à fraternidade (cf. FT, 272).
Neste mesmo documento, Francisco afirmou que a “Igreja não pretende disputar poderes terrenos, mas oferecer-se como uma família entre famílias - esta é a Igreja -, disponível (...) para testemunhar ao mundo de hoje a fé, a esperança e o amor ao Senhor, mas também àqueles que Ele ama com predileção” (cf. FT, 276). Segundo Francisco, “o culto sincero e humilde a Deus ‘não leva à discriminação, ao ódio e à violência, mas ao respeito pela sacralidade da vida, ao respeito pela dignidade e pela liberdade dos outros e a um solícito compromisso em prol do bem-estar de todos’” (cf. FT, 283).
A nossa religiosidade está vinculada ao mandamento do amor a Deus e ao próximo. Deste modo, tudo que sombreia essa forma de religar-se com o absoluto, pode impedir que estejamos vivendo a fraternidade humana. O cristianismo sempre foi a religião da radicalidade evangélica, sem radicalismos farisaícos. Esse último é fundamentalista e excludente. A radicalidade evangélica propõe a conversão, sem nunca violentar a liberdade.
Em tempos de tantos fechamentos ao outro, a grande missão da fé cristã, em nossos dias, é anunciar o Evangelho, que é Jesus Cristo, o qual veio para que todos tenham vida (cf. Jo 10,10).
Seguindo o farol do Concílio Vaticano II, com suas intenções de abertura aos desafios do mundo, somos chamados a assumir uma eclesiologia com sua clareza identitária ad intra - Lumen Gentium - e ad extra com seu olhar aos desafios do homem contemporâneo - Gaudium et Spes. Os refluxos intestinais presentes nalgumas tribos fundamentalistas que estão necessitando de maior confiança no papel da Igreja, como Mãe e Mestra, precisam ser acompanhados com caridade, na verdade. Temos que nos voltar ao essencial.
O caminho da formação permanente e a proximidade evangélica fazem-se urgentes e pastoralmente importante. A sinodalidade e a diocesaneidade não podem ser só conceitos eclesiológicos. Precisam ser aplicados nas realidades territoriais de cada Igreja Particular. Isso tem a ver com a qualidade da nossa ação evangelizadora. Por mais que seja tentador, fomentar esses movimentos podem trazer confusões, não só estruturais, já que estão acontecendo em rede, mas também existenciais em nossas comunidades eclesiais.
Há muitas perturbações em mentes e corações, que assumem no espaço religioso máscaras de espiritualidades. A nossa linguagem poderia ser diferente; contudo, já que não está sendo, podemos tê-la como objeto de estudo e discernimento para aprofundarmos a realidade da nossa prática pastoral, os projetos eclesiológicos que queremos assumir e que tipo de cristianismo queremos alimentar e promover nessa época de tantas mudanças. A V Conferência de Aparecida nos ofereceu o projeto. Vamos recepcioná-lo.
Assim o seja!








