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ARTIGO - A educação digital começa em casa

  • há 19 horas
  • 2 min de leitura

Dom João Santos Cardoso

Arcebispo de Natal


Uma das cenas mais comuns de nosso tempo é a de crianças muito pequenas com um celular nas mãos. Às vezes, antes mesmo de aprenderem a falar, já sabem deslizar o dedo sobre uma tela, escolher vídeos e passar de um conteúdo para outro. A tecnologia entrou definitivamente na vida das famílias. A questão, portanto, não é simplesmente proibi-la, mas aprender a utilizá-la e, sobretudo, educar para o seu uso.


Gosto de uma comparação: entregar a uma criança um celular conectado à internet, sem acompanhamento, é como deixá-la sozinha numa imensa rua. Nessa rua há coisas maravilhosas: bibliotecas, museus, aulas, música, comunicação e inúmeras oportunidades de aprendizagem. Mas, nessa mesma rua, também existem violência, pornografia, discursos de ódio, publicidade agressiva, jogos e conteúdos capazes de gerar dependência, pessoas mal-intencionadas, modelos irreais de beleza e felicidade, cyberbullying e mecanismos sofisticados desenvolvidos justamente para capturar e reter nossa atenção.


Deixaríamos uma criança pequena caminhar sozinha por uma rua desconhecida? Provavelmente não. Por que, então, permitir que percorra sem acompanhamento o mundo digital?


A Amoris Laetitia, publicada há dez anos, já advertia que os meios de comunicação podem enfraquecer valores recebidos na família e recordava que, numa época marcada pela “pressa tecnológica”, cabe às famílias ajudar os filhos a desenvolver uma capacidade crítica (AL 274-275).


Na Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV chama a atenção para a posse prematura de um celular e para seu uso sem o acompanhamento dos adultos, situações que podem acentuar fragilidades e favorecer dependências entre os adolescentes (cf. n. 141). Diante dessa realidade, propõe uma verdadeira “educação para a sobriedade digital”, associada à proteção dos menores e à defesa da liberdade interior (cf. n. 170).


Sobriedade não significa rejeitar a tecnologia, mas aprender a usá-la sem se tornar dependente dela; saber quando se conectar e quando se desligar; reconhecer que nem tudo o que aparece numa tela merece nossa atenção e que nenhuma experiência virtual substitui a presença, a conversa, a amizade e a convivência.


Por isso, a educação digital começa em casa. Não basta perguntar quanto tempo o filho permanece diante da tela. Precisamos saber: o que ele vê? Com quem conversa? Quem está formando seus desejos? Que compreensão de felicidade, corpo, sexualidade, dinheiro e sucesso está recebendo?


Antigamente, uma das preocupações dos pais era saber com quem o filho estava na rua: “Com quem você está saindo?”. Essa pergunta continua necessária, mas hoje precisamos acrescentar outra: Quem você está deixando entrar em casa?” Por meio de uma pequena tela, pessoas, ideias, valores e comportamentos entram diariamente em nossos lares, muitas vezes sem que percebamos.


Esse acompanhamento exige também o exemplo dos adultos. É difícil ensinar uma criança a deixar o celular de lado se os próprios pais permanecem continuamente diante das telas. Os limites que propomos aos filhos ganham força quando também orientam nossas escolhas.


Educar para o mundo digital, portanto, é estabelecer limites, acompanhar, dialogar, orientar e, sobretudo, testemunhar. A tecnologia deve estar a serviço da pessoa e das relações, e não o contrário. Antes de colocar o mundo digital nas mãos de uma criança, precisamos ajudá-la a adquirir maturidade, liberdade e discernimento para caminhar por ele.

 
 
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