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A força moral da autoridade


Por Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal A Doutrina Social da Igreja ensina que “a autoridade deve deixar-se guiar pela moral: toda a sua dignidade deriva do desenrolar-se no âmbito da ordem moral” (cf. CDSI, 396). Segundo essa ética social, “a autoridade não pode ser entendida como uma força que encontra a sua norma em valores de caráter puramente sociológico e histórico: ‘algumas, infelizmente, não reconhecem a existência da ordem moral: ordem transcendente, universal e absoluta, de igual valor para todos” (cf. Idem). Esses pressupostos são colocados em xeque, amiúde, no contemporâneo, não só por autoridades políticas, como também religiosas, num contexto em que a pós-moralidade (G. Lipovetsky) assume uma fisionomia sistêmica, com a superação dos paradigmas teológicos e, inclusive, racionalistas.


Numa conjuntura social marcada pela perda dos referenciais de uma moralidade objetiva, há a predominância da “ditadura do relativismo” (J. Ratzinger). A crise de valores é situada neste ordenamento cultural em que a verdade já não aparece como uma realidade a ser reconhecida pela adequação entre a razão e o mundo objetivo, mas como uma construção da linguagem, que encontra nas mídias sociais e no universo da inteligência artificial um novo estilo de expressão e de construção de verdades. A humanidade tecnocrática está escorregando nesse ‘admirável mundo novo’. Essa massificação de novos paradigmas tem portado uma complexidade à engenharia civilizacional, na qual a moralidade é desconstruída instante pós instante.


Pensando essa temática, me vem à mente o filme o Gladiador, num dos diálogos formidáveis entre o imperador, Marco Aurélio, e o general, Máximo. Questionado pelo último acerca da possibilidade do filho do imperador, Cômodo, ser o sucessor no comando do império, retruca o soberano filósofo: “Cômodo não tem moral!”. Podemos fazer as ressaltas devidas aos aspectos históricos; contudo, essa afirmação continua a nos dizer e ensinar muito sobre a importância da ética e da moralidade para quem tem responsabilidade de exercer o poder e o papel de liderança. Um chefe de instituição sem reconhecimento moral e desacreditado publicamente presta um desserviço à instituição que conduz. Esse princípio sempre foi transversal e intrínseco ao pensamento e ao modo de agir que definem a identidade cristã.


Os de consciência moral laxista e deformada, não só na sociedade civil, como nas estruturas eclesiásticas, inescrupulosamente justificam comportamentos transgressivos, criminosos e pecaminosos, quando o bem pessoal e de comunidades tribais é a finalidade dos envolvidos. Colocam-se em situação de substituir o senso moral das pessoas, ainda mais quando deveriam ser modelo e testemunha credível, colocando na vitrine a constatação de que um dos grandes dramas da modernidade é o de que “o homem perdeu sentido do pecado” (PP Paulo VI). O referencial a partir do qual é feita essa interpretação é o teológico. A própria Igreja tem vivido confusões acerca da relação entre amor e justiça. O Papa Bento XVI fez esclarecimentos importantíssimos na sua encíclica Amor na Verdade, que “é um princípio à volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores da ação moral” (cf. Caritas in Veritatem, 6). A compenetração e associação entre as duas virtudes são correntes na ética pessoal e social cristã.


A morte de Deus na cultura, fomentada pelas inovações filosóficas do Iluminismo, mas também pelas contradições testemunhais e morais dos cristãos, vai cada vez mais ganhando fôlego no contemporâneo pela exposição constante de desvios comportamentais das forças vivas da Igreja e da sociedade. O desencanto humano como fenômeno do contemporâneo passa por essa leitura dos sinais deste tempo. No contexto sistêmico hodierno, “à medida que as normas da felicidade se reforçam, a consciência culpada torna-se mais temporária, a figura do pecador é substituída, a depressão, o vazio ou o stress é o que nos caracterizam, não o abismo da má consciência mortificadora” (cf. G. Lipovetsky, O Crepúsculo do Dever, pág. 67). Essa percepção transdisciplinar, entre ciências teológicas e sociais, é iluminadora, já que “a cultura da autodeterminação individualista chegou à esfera moral: a época da felicidade narcísica não é a do ‘tudo é permitido’, mas sim a época de uma ‘moral sem obrigação nem sanção’” (idem, pág. 68).


Para a Igreja, o testemunho dos santos é sempre uma referência de moralidade. Quando a temática moral é abordada por nós, cristãos, devemos ter presente que a sua fonte é o evangelho. Mesmo que seja a descrição da vida e obra de Jesus Cristo, os evangelhos são, para seus seguidores, a base da moralidade e da existência cristã (cf. Optatam Totius, 16). Na prática das bem-aventuranças, a santidade torna-se atrativa e reluzente no mundo (cf. Mt 5). O Papa Francisco, quando ao escrever sobre “a santidade no mundo contemporâneo”, atualizou essa perspectiva cristã e eclesial, confirmou o primado da graça e a liberdade humana em responder ao chamado do Senhor. A moralidade não é para o cristianismo uma busca em si mesma, mas a comprovação de que a experiência da conversão ao Reino de Deus tem repercussões, não só individuais, mas também sociais, para a glória de Deus e a felicidade do gênero humano.


Sendo assim, diante destas imediatas provocações, é imperante afirmar que as lideranças, assim como em tempos passados, precisam ter uma postura ética e moral, tanto para quem está nas instituições às quais elas são delegadas a administrar e, outrossim, nas relações com as demais entidades com as quais elas precisam se relacionar. É horrível para uma instituição quando seus representantes vêm a ser desacreditados. O que pode libertá-la? Só a amizade com a verdade! Quando o que perdura é a mentira, mais cedo ou tarde, a casa vai ruir. Por isso, os líderes precisam da força moral para que o bem e a justiça possam ser valores buscados e amados por todos. Assim o seja!

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