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A concepção de família nas Exortações Apostólicas "Familiaris Consortio" e "Amoris Laetitia"


Dom João Santos Cardoso 

Arcebispo de Natal 

 

As Exortações "Familiaris Consortio" (FC), de São João Paulo II, e "Amoris Laetitia" (AL), do Papa Francisco, são fundamentais para entender a visão da Igreja Católica sobre a família, especialmente diante das mudanças culturais atuais e dos desafios pastorais que essas mudanças trazem. 


Na "Familiaris Consortio", o Papa São João Paulo II compreende a família como uma comunidade de vida e amor, essencial para a Igreja e a sociedade, fundada sobre o sacramento do matrimônio (FC 17-18), entendido como uma aliança indissolúvel de amor conjugal entre um homem e uma mulher (FC 18-19). “O amor conjugal fecundo exprime-se num serviço à vida em variadas formas, sendo a geração e a educação as mais imediatas, próprias e insubstituíveis” (FC 41). A família, fundada e vivificada pelo amor, é uma comunidade de pessoas, chamada a refletir a comunhão trinitária (FC 18-19, 42, 46). 


Na "Familiaris Consortio", são apontados vários desafios enfrentados pela família, como a desvalorização do matrimônio, a promoção de uma falsa liberdade que desrespeita a dignidade do matrimônio e problemas como o divórcio, o aborto e a contracepção (FC 6-7). O Papa São João Paulo II também destaca a influência negativa dos meios de comunicação e das ideologias que corrompem os valores familiares (FC 76). 


Para enfrentar esses desafios, a "Familiaris Consortio" propõe a promoção de uma catequese familiar que fortaleça a fé, pois a futura evangelização depende em grande parte da Igreja doméstica. Diante do secularismo que dificulta a transmissão da fé, a "Igreja doméstica" torna-se o único ambiente no qual crianças e jovens podem receber uma autêntica catequese. “Na medida em que a família cristã acolhe o Evangelho e amadurece na fé, torna-se comunidade evangelizadora” (FC 52). Também são importantes o apoio aos casais, a pastoral familiar que considere os casos difíceis, a valorização da dignidade da mulher, a abertura à vida e a defesa da indissolubilidade do matrimônio (FC 65-66, 72-84). 


Em continuidade com os princípios sobre a família e o matrimônio da “Familiaris Consortio”, a Exortação Apostólica "Amoris Laetitia" reconhece a complexidade moderna da realidade familiar, influenciada por rápidas mudanças culturais e sociais. Destaca desafios como o individualismo exagerado, que desvirtua os laços familiares; a cultura do provisório, que impede compromissos duradouros; as pressões econômicas e sociais; a ideologia de gênero e as mudanças nas concepções de identidade e relações sexuais (AL 33, 38-40).  


A Exortação destaca a importância do amor conjugal, mas também reconhece as fragilidades e desafios enfrentados pelas famílias hoje, influenciadas por rápidas mudanças antropológico-culturais que afetam todos os aspectos da vida familiar (AL 32) e a dificuldade de transmitir a fé em um ambiente culturalmente hostil e a crise de autoridade nas famílias (AL 43-44, 175-176). Apesar desses desafios, como cristãos, não podemos renunciar ao dever de propor o matrimônio como valor a ser buscado. Se descuidássemos desse dever por sentimentos de inferioridade ou para estar na moda, estaríamos privando o mundo dos valores que podemos e devemos oferecer (AL 35). De fato, o matrimônio cristão não é uma mera formalidade ou uma tradição obsoleta. É uma vocação profunda que contribui para a construção de uma sociedade justa e amorosa. Ao propor o matrimônio, a Igreja oferece ao mundo um modelo de relacionamento baseado no amor verdadeiro, na fidelidade e na abertura à vida. Essa proposta é essencial para enfrentar os desafios contemporâneos e para promover um futuro esperançoso e cheio de graça. 


Francisco nos chama a um esforço mais responsável e generoso, apresentando as razões e os motivos para optar pelo matrimônio e a família, de modo que as pessoas estejam mais bem preparadas para responder à graça que Deus lhes oferece (AL 35). Isso implica um acompanhamento pastoral contínuo, adaptado às necessidades e realidades das famílias modernas, reconhecendo tanto suas luzes quanto suas sombras (AL 36). 


"Amoris Laetitia" reforça a necessidade de preparação para o matrimônio e acompanhamento contínuo dos casais. Propõe também uma abordagem pastoral inclusiva e misericordiosa, acolhendo famílias em situações irregulares e promovendo o discernimento e a integração na vida da Igreja (AL 32-34, 293-312). Além disso, defende a promoção de políticas públicas que apoiem a família e encorajem a comunicação aberta e a participação ativa de todos os membros da família (AL 204-258). 


As Exortações Apostólicas "Familiaris Consortio" e "Amoris Laetitia" oferecem uma visão abrangente, profunda e atual sobre a família, refletindo os desafios e propondo soluções pastorais adequadas aos contextos de suas respectivas épocas. Ambas enfatizam a importância do amor conjugal e da educação dos filhos, enquanto respondem aos desafios contemporâneos com uma pastoral inclusiva e misericordiosa. A família, como célula básica da sociedade e da Igreja, é prioridade na missão evangelizadora da Igreja Católica. 

 

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