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Teologia e ideologia


Por Pe. Matias Soares Mestre em Teologia Moral (Gregoriana) e Pós-graduado em Teologia Pastoral (PUC-MINAS)

Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral (SBTM)

Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório-Natal/RN

A teologia feita sem testemunho torna-se ideologia. O Papa Francisco tem chamado a nossa atenção acerca das ideologias que podem nortear as construções teóricas e ativas da existência cristã. As bases teóricas do estilo de vida cristão não podem ficar presas, só e somente só, às formalidades da subjetividade, sem coerência com a realidade, ou mais propriamente sem relação com o mistério da Encarnação e da Páscoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus (cf. Jo 1,14; Mc 1,1). Uma afirmação de Bento XVI traz uma luz inestimável ao que nos propomos quando abordamos essa questão e ei-la: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (cf. DCE 1). Ou seja, não é questão ideológica, mas uma experiência que transforma a vida e a ela confere um sentido novo, que nos coloca em situação de abertura para Deus e ao próximo pelo reconhecimento do significado do que é o amor.


A teologia feita a partir de escritórios, salas de aula e prefácios de livros, é causadora de malefícios ao modo de ser cristão e membro da comunidade eclesial. A teologia também está precisando de reformas (P. Coda). É necessário que ela seja contextualizada. Assuma definitivamente os horizontes históricos, que permitam a “hermenêutica dos sinais dos tempos” em todos os âmbitos que tenham o ‘humano’, quiçá, o ‘demasiadamente humano’, que confirme que o “real é mais importante do que o ideal”, como ensina o Papa Francisco (cf. EG 231). Isso supõe que seja evitado, inclusive na elaboração teológica “várias formas de ocultar a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projetos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-históricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria” (cf. Idem, 231). O cotidiano iluminado pela abertura ao que o Espírito quer dizer às Igrejas, com a orientação contínua da Palavra de Deus, que nos envolve no processo permanente de conversão ao Outro e adverso ao pecado que gera indiferença, pecado e morte.


A confusão mental e espiritual que nos leva às incoerências testemunhais faz com que as ideologias sufoquem a reflexão teológica, quando esta existe. Paul Ricoeur faz uma análise muito interessante, considerando a polaridade existente entre “ideologia e utopia”, que nos interessa neste contexto, já que o intento desta reflexão é referente ao problema que pode ser posto entre a teologia e a ideologia. Para ele a “ideologia designa inicialmente um processo de distorção ou de dissimulação pelo qual um indivíduo ou um grupo exprime sua situação, mas sem conhecê-la ou sem reconhecê-la” (cf. A ideologia e a utopia, pág. 15). Isso pode acontecer quando nos ambientes eclesiais, especialmente em espaços de formação, a reflexão teológica é feita sem testemunho evangélico e cristão.


A tentação de se fazer teologia como serva de ideologias é muito comum em cenários eclesiásticos, que são dominados pelo mundanismo espiritual, que de acordo com o Papa Francisco “se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, buscando, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal. É uma maneira subtil de procurar ‘os próprios interesses, não os interesses de Jesus Cristo’ (Fl 2, 21). Reveste-se de muitas formas, de acordo com o tipo de pessoas e situações em que penetra – e aqui à teologia. Por cultivar o cuidado da aparência, nem sempre suscita pecados de domínio público, pelo que externamente tudo parece correto. Mas, se invadisse a Igreja, ‘seria infinitamente mais desastroso do que qualquer outro mundanismo meramente mora’l (cf. PP Fco, EG 93)”. Por isso, as possibilidades que são tidas pela teologia na sua elaboração devem estar fundadas na fé, na esperança e no amor.

O paradigma para uma reviravolta é apresentado lucidamente pelo Papa Francisco na Alegria do Evangelho (cf. EG cap. I). Trata-se de uma “transformação missionária da Igreja”. Essa mudança de forma e horizonte, em continuidade com a Tradição Viva da Igreja, deve contemplar também o próprio estilo de fazer teologia, sem ceder às tentações das ideologias, que nos conformam às proposições do mundo, com a relativização da conversão e da fé no evangelho (cf. Mc 1,14-15). Refletindo sobre essa questão dicotômica do nosso tempo, Tomas Merton afirma que “a grande tragédia do nosso tempo – se podemos ter a ousadia de dizê-lo – é que haja tantos cristãos sem Deus; isto é, cristãos cuja religião é questão de puro conformismo e conveniência. Para esses, a ‘fé’ pouco mais é do que uma evasão permanente da realidade – uma acomodação com a vida. A fim de evitar a desagradável verdade de que não têm mais necessidade alguma, real, de Deus, nenhuma fé vital Nele, conformam exteriormente sua conduta à de outros como eles. Esses ‘crentes’ se agrupam, oferecendo-se mutuamente uma aparente justificativa para vidas que são, essencialmente, semelhantes às de seus vizinhos materialistas, cujos horizontes são puramente os do mundo com seus valores materialistas” (cf. O Pão Vivo, pág. 31-32). Essa descrição de Merton reassume a questão que envolve a relação entre a teologia e a ideologia, que no pêndulo do ‘testemunho evangélico’ pode ser equilibrada. Quando não acontece essa polaridade equilibrada, na qual a mudança de mentalidade está vinculada à vida performada pela Palavra de Deus, a ideologia toma o lugar da teologia, ou a sufoca levando-a ao declínio.


Deste modo, uma orientação dada pelo grande teólogo Urs von Balthasar de que é necessário que a teologia “seja feita de joelhos”, ou seja, pela via da contemplação do Senhor torna-se mais necessária que nunca. Em outra reflexão, quando abordo a relação entre a missão do teólogo, quando o mesmo relativiza a ‘mística’, pondero que ele “pode ser um ideólogo, profissional da teologia, não vive o que ensina. Nem sempre tem fé. No tempo de Jesus poderiam ser considerados os doutores da lei, os fariseus, os que não consideravam além do que era pensado. Não eram capazes de ver Jesus. Não percebiam os sinais que Ele realizava. Sua relação com Deus, não brotava de um coração que ama”. Mas, ao mesmo tempo, ele é chamado a ser “místico de olhos abertos”, e assim a sua teologia, como nos lembra J. B. Metz. Atento à realidade e ao compromisso com uma teologia pública. Que esse desafio seja considerado por cada um que veleja por ele campo do saber com seriedade e senso de responsabilidade. Assim o seja!

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