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O maniqueísmo no Brasil de hoje


Por Pe. João Medeiros Filho


Uma das grandes lições da Universidade de Louvain (Bélgica) é o seu empenho para incentivar o diálogo e a convivência entre seus alunos, oriundos de dezenas de nações e etnias, com diferentes visões ideológicas, sociais, econômicas e religiosas. Faz parte do cristianismo. Na década de 1970, partidos políticos e movimentos sociais pressionaram o episcopado belga a cindi-la em duas instituições universitárias, alimentando a divisão linguística entre flamengos e francofones. Analogamente, a sociedade brasileira vem sendo marcada por um dualismo intransigente. Tais comportamentos remontam à antiguidade, ressurgindo sob novas configurações em certos países e épocas. Há cinco meses, as eleições no Brasil terminaram. Entretanto, os embates continuam na mídia tradicional e nas redes sociais. As concepções ideológico-políticas dividem visceralmente os compatriotas. Segundo a convicção dos seguidores de cada partido, de um lado estão os bons e de outro, os maus. Essa radicalização não é nova. São como ondas; vão e voltam.

No século III, despontou na antiga Pérsia o maniqueísmo, teoria defendida por Mani (Maniqueu), disseminando-se pelo Império Romano. Defendia a dualidade de princípios antagônicos: o Bem e o Mal. Há uma permanente oposição entre a luz e as trevas. Esses princípios opostos não se unem. Os historiadores narram que tal movimento exerceu profunda influência, a ponto de Santo Agostinho tê-lo abraçado, antes de sua conversão. Após sua adesão ao cristianismo, o Bispo de Hipona tornou-se um ferrenho adversário dessa visão de mundo, argumentando que Cristo pregou a unidade, respeitando a diversidade. “Pai, que todos sejam um, como Tu e Eu!” (Jo 17, 21).

Nos séculos XII e XIII, os fundamentos maniqueístas voltaram a ter evidência na França. Reaparecem nas práticas religiosas dos cátaros e albigenses. Periodicamente, o maniqueísmo ressurge aqui e ali, não mais no campo doutrinário, mas como ideologia ou teoria política. Divide a humanidade em dois grupos que, à semelhança do óleo e da água, se encontram, porém não se misturam. Pregam que o outro deve ser considerado um perigoso inimigo. Este, pleno de defeitos, deverá ser exterminado a qualquer custo. “O outro é o inferno”, afirmava Sartre séculos depois. Para cada uma das correntes político-ideológicas sua maneira de pensar é a única certa, sábia e verdadeira. A sociedade fica, então, dividida. Quanto mais o outro fracassar, melhor, pois o “bem” triunfará. É o que está acontecendo no Brasil hodierno, eivado de intolerância e radicalismo e arrogância, onde pensar e falar diferentemente é inaceitável, podendo passar a ser crime.

Enfrentam-se dificuldades em conviver com o divergente. Sonha-se com uma sociedade em que todos teriam idêntico pensamento e partido político. Os sistemas totalitários alimentam-se desse sonho e elaboram projetos para torná-lo realidade. Viver é difícil. Conviver é bem mais. Todavia, “Homem algum é uma ilha”, afirmava Thomas Merton. Se vivêssemos totalmente isolados, tendo tudo o que fosse necessário à nossa disposição, seríamos egocêntricos e monocórdicos. O diferente e o contraditório enriquecem-nos, pois levam-nos a um maior autoconhecimento. Todavia, os maniqueístas (do passado e do presente) não admitem erros. Consideram-se infalíveis e irretocáveis. Por conseguinte, são impositivos, incapazes de dialogar.

A convivência exige respeito e saber ouvir para se enriquecer com outras maneiras de conceber a vida. Quão triste seria um mundo apenas de robôs, submetidos a comandos externos! Cristo interagia com todos, convivendo com os oponentes. Transigia e mostrava-se sempre aberto ao diálogo, indo na contramão da mentalidade reinante em seu país. “Como é que tu, sendo judeu, pedes água a uma mulher samaritana?” (Jo 4, 9). Esta frase revela o radicalismo dos contemporâneos de Jesus. Os dias atuais mostram-nos que o maniqueísmo continua vivo e atuante. Deus é trino, diverso, plural, segundo a teologia cristã. Somos seus filhos e não devemos pensar e agir de outra maneira. A primeira Carta do apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto é um hino à diversidade em função da harmonia e do bem comum. O Criador não quis a uniformidade, mas a unidade. É o que se infere da metáfora bíblica paulina: “Há muitos membros, mas um só é o corpo” (1Cor 12, 20).

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