top of page

ARTIGO - Na fonte do ministério presbiteral

  • há 10 horas
  • 3 min de leitura

Dom João Santos Cardoso

Arcebispo de Natal


Recentemente, participei do retiro da segunda turma do clero da Arquidiocese de Natal. Foram dias preciosos de interiorização, oração e convivência fraterna. Em meio às diversas exigências da missão pastoral, o retiro nos oferece algo indispensável: a possibilidade de interromper o ritmo das atividades para voltar à fonte, reencontrar o Senhor e permitir que Ele renove não apenas nossas forças, mas também o sentido do próprio ministério.


Durante o retiro, meditamos sobre o ministério presbiteral, tomando como fio condutor a oração de ordenação. Foi uma experiência particularmente fecunda: voltar às palavras pronunciadas pelo bispo no momento em que, pela imposição das mãos e pela invocação do Espírito Santo, alguém é ordenado presbítero. Não se trata apenas de recordar um rito celebrado no passado, mas de redescobrir, naquela oração, o que Deus realizou e continua realizando na vida de quem foi ordenado.


Essa oração recorda uma verdade fundamental: o sacerdócio é dom, não conquista. O bispo suplica: “Constituí estes vossos servos na dignidade de presbíteros. Renovai em seus corações o Espírito de santidade”. O ministério nasce, portanto, da iniciativa de Deus. Ninguém se faz sacerdote por si mesmo nem para si mesmo. É o Senhor quem chama e, pela ação do seu Espírito, transforma, sustenta e capacita o ordenado para a missão.


Tal consciência é particularmente necessária numa época que valoriza o desempenho, a eficiência e a visibilidade. O presbítero pode ser tentado a medir a fecundidade de seu ministério pelo número de atividades realizadas, projetos executados ou reconhecimento alcançado. A oração de ordenação aponta em outra direção: antes de desempenhar muitas tarefas, o padre é chamado a ser um homem habitado pelo Espírito. Sem vida espiritual, a ação pastoral corre o risco de se transformar em simples ativismo. É o Espírito Santo quem torna fecundo o ministério e impede que a missão se reduza às capacidades humanas.


A oração de ordenação revela também que o ministério presbiteral nunca é exercido isoladamente. O presbítero é constituído membro de um presbitério e cooperador da ordem episcopal. Sua identidade é profundamente relacional e eclesial. Não existe sacerdócio autossuficiente. Há um único sacerdócio, o de Cristo, do qual o presbítero participa para servir ao povo sacerdotal. Por isso, a comunhão não é algo acrescentado ao ministério: pertence à sua própria natureza.


E para que o presbítero é enviado? A própria oração responde: para anunciar o Evangelho, celebrar os mistérios da fé, reconciliar os pecadores, confortar os enfermos e implorar a misericórdia de Deus pelo povo e pelo mundo. O padre é, assim, homem da Palavra, dos sacramentos, da comunhão e da intercessão. Sua vida encontra sentido no serviço a Cristo e ao povo que lhe é confiado.


Um retiro espiritual busca precisamente isso: retornar ao essencial. Depois de anos de ministério, o padre acumula experiências, responsabilidades, alegrias e frutos, mas também cansaços, feridas e limitações. Por isso, precisa retornar continuamente à oração pronunciada em sua ordenação. Voltar a ela é recordar que, antes de tudo o que faz, está aquilo que Deus fez e continua fazendo nele. Talvez esteja aí o segredo para envelhecer bem no ministério: permitir que a graça recebida naquele dia continue fecundando o hoje da vida sacerdotal. Voltar à fonte é deixar que o Espírito Santo renove, a cada dia, o dom recebido para o serviço de Deus e de seu povo.

 
 
bottom of page