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Fidelidade, piedade e fraternidade humana


Por Pe. Paulo Henrique da Silva

Professor de Teologia


Quando todos respondemos a aclamação do ministro: “O Senhor esteja convosco”, com essa outra aclamação: “Ele está no meio de nós!”, sentimos essa realidade ensinada e exortada por Jesus: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”. Estamos reunidos no nome de Jesus. Quando ouvimos a Palavra de Deus, a ouvimos de sua boca. E ainda, a presença de Jesus em nosso meio, no meio da Igreja, garante um carisma que serve, não para sentir-se poderosa, não para destruir, mas para servir à própria verdade de Deus. Refiro-me ao carisma da “infalibilidade” ou “indefectibilidade” da Igreja, assumida pelo Pontífice Romano, mas vivida como tal pela Igreja inteira. Jesus estende para todos da Igreja, esse carisma que deu ao apóstolo Pedro. Mas, como viver nesta graça? Ele está no meio de nós, somente quando nos reunimos para celebrar? Já sabemos que Ele está presente, numa realidade pan-cósmica, se assim podemos afirmar, isto é, pela Ressurreição e Ascensão, Jesus não está mais sujeito às limitações de espaço e de tempo. Ele envolve todo o universo. A Palavra nos ilumina para que sigamos um caminho onde a Eucaristia, Jesus que se dá como Pão da Vida, se torne realidade que envolve toda a nossa vida, nossa história, nossos sentimentos, nossos desejos e aspirações. A reunião no nome de Jesus nos coloca diante de uma proposta de seguir uma conduta: ser fiel, buscar a piedade, deixar-se conduzir pela Palavra de Deus.


Fidelidade e piedade só são possíveis, para nós, contemplando, por um lado, a fidelidade e a santidade de nosso Deus. São duas expressões presentes no Antigo Testamento. Deus é santo, Deus é fiel. Ele vive essas realidades em seu ser, a tal ponto, de podermos chama-lo assim: o Fiel, o Santo. Deus é fiel, em primeiro lugar, ao seu próprio ser. Sendo Deus, não há como pensar Deus agindo contrariamente ao seu ser. Ele é “o supremo bem, além do qual não se pode desejar outro melhor”, como afirmava um grande teólogo e místico do século 12, Ricardo de São Vítor (1110-1173). Em si, Deus não pode desejar o mal, nem para si, nem para o diferente dele, os homens e as mulheres, criados por Ele. Quando dizemos que Ele é fiel, só podemos esperar dele perdão, compaixão e misericórdia. Ele é santo, também aqui entendemos santidade como o próprio ser de Deus. Nada e ninguém o santifica, a não ser Ele mesmo. Daí porque afirmamos: “Ó Pai, Vós sois santo e fonte de toda santidade” (MISSAL ROMANO. Oração Eucarística II). E mais, como santidade se confunde com o seu próprio ser, quando Ele se aproxima do que não é Ele, os homens e as mulheres, Ele os santifica. A sua santidade é comunicativa. Ele é chamado, no Antigo Testamento, o “Santo de Israel”. E a sua santidade é plenitude para o ser humano. Eis a conduta que Deus deseja para todos nós: sustentados pela sua fidelidade e santidade, vivermos de sua Palavra, vivermos em nome de Jesus.


São Paulo faz uma declaração, na carta aos Gálatas, muito semelhante à primeira Carta de São João: “o amor é o cumprimento da Lei”. Não dever nada a ninguém a não ser o amor mútuo. Verdadeiramente, se somos comunidade de Jesus Cristo, se vivemos de sua Palavra, se celebramos o memorial de sua redenção, a Eucaristia, então, esse amor mútuo é a consequência. De fato, precisamos nos converter. Ao afirmar que os mandamentos, especialmente os que se referem ao irmão, à irmã, são resumidos no “Amarás ao teu próximo, como a ti mesmo”, o Apóstolo proclama a conduta dos seguidores de Jesus. Foi amando a todos que os primeiros cristãos, com seu sangue derramado pelos ímpios, aqueles que não consideravam a dignidade de cada homem e cada mulher, proporcionaram o crescimento do cristianismo: “sangue de mártires, semente de cristãos”, afirmava um escritor do 3º século. Amar é o maior testemunho de piedade que os cristãos podem dar. Amar é construir comunidade, é ter convicção de que formamos uma grande família, é acreditar que o nome de Jesus é poderoso e nos sustenta. E só é possível amar, porque Deus, na sua infinita bondade, nos redimiu e nos adotou como filhos e filhas.


A comunidade dos seguidores de Jesus é chamada a viver na fraternidade. Porque nos reunimos em nome dele, a nossa conduta deve ser semelhante a dele. Ou pelo menos, devemos buscar seguir esse itinerário. No Evangelho encontramos um exemplo claro, onde Jesus é categórico: a conduta de quem quer ser fiel e piedoso, necessita viver o amor ao próximo. Deve ser um amor que não desiste facilmente. Amor revestido de perdão, reconciliação. Jesus apresenta um caminho em crescendo: corrige teu irmão, chama duas testemunhas, chama a Igreja... Não podemos pôr freios à misericórdia divina.

 

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