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Como tratamos os pobres



O Papa Francisco, na Alegria do Evangelho, faz uma observação que pouco é comentada em nossos meios eclesiais e pastorais. Ensina o Pontífice: “Dado que esta Exortação se dirige aos membros da Igreja Católica, desejo afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária” (cf. EG, 200). Essa admoestação feita por Francisco está num contexto mais amplo, que, sem dúvida, temos que aprofundar. Aliás, assim como a V Conferência de Aparecida, a Alegria do Evangelho tem que sair de nossas gavetas e formalidades e ser popularizada em nossas comunidades eclesiais. É um texto maravilhoso.


As nossas ações sociais precisam de um estilo novo de proceder. Aqui me refiro aos trabalhos feitos pelas pastorais sociais. A ação caritativa da Igreja precisa ser orgânica, permanente e visar o desenvolvimento integral da pessoa. Neste sentido, tomo o ensinamento de Bento XVI, que de modo lapidar nos ensinou o que significa e como essas práticas precisam acontecer: “O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o também para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus níveis: desde a comunidade local passando pela Igreja particular até à Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor. Consequência disto é que o amor tem necessidade também de organização enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado. A consciência de tal dever teve relevância constitutiva na Igreja desde os seus inícios: ‘Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um’” (cf. DCE, 20). Continua o Papa Emérito: “A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros. Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência” (cf. Idem, 25). Estejamos atentos como a linha de ensinamento dos dois pontífices estão em plena sintonia, complementação e continuidade.


As pastorais sociais têm que considerar essas premissas da mais pura Doutrina Social da Igreja. O cuidado para com os mais ‘pobres dos pobres’ tem que ocupar um lugar privilegiado da nossa ação missionária e eclesial. O pobre é um ‘lugar teológico’. Fazemos críticas às políticas assistencialistas dos governos, mas caímos muitas vezes nas mesmas práticas. As nossas ações sociais têm sua base no mandamento do amor, e este à pessoa na sua totalidade. A ação social da Igreja tem por ponto de partida um “humanismo integral’, ou seja, uma proposta que contempla o ser humano na sua totalidade: corpo, psique e espírito. Não tem a intenção de substituir o papel do Estado na consecução da justiça social e do bem comum, mas sabe que a sua missão evangelizadora acarreta uma dimensão social (cf. EG, cap. IV). Não é questão de comunismo, aquele que nega a transcendentalidade humana, sua liberdade e a propriedade privada. Não é isso. Seu referencial teórico é o Evangelho (cf. Mt 11, 4-6; 25, 40-46). O humanismo cristão é o dos ‘seguidores de Jesus Cristo. Por isso, tem sido cada vez mais necessário que os cristãos católicos, como também os demais homens e mulheres de boa vontade, conheçam a Doutrina Social da Igreja, que tem por fundamentos teóricos e práticos as palavras e as obras de Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus.


Por fim, o nosso modo de tratar os miseráveis e indigentes exige de cada um de nós, como seres humanos e cristãos, que sejamos capazes de “contemplar o seu rosto”. Os mais pobres dos pobres não são encarados face a face. Os tememos. Nesse momento é que aparece quem de fato é o ‘miserável’. De um lado o miserável social e do outro o miserável existencial. Cabe a todos nós um profundo ‘exame de consciência’: como seres humanos e cristãos, como tratamos os pobres? Nas nossas vidas existe lugar para o cuidado dos indigentes e miseráveis? Temos convicção evangélica que eles são “outros Cristos”? O Papa Francisco quer “uma Igreja pobre e para os pobres”. Talvez um longo caminho de conversão de todos nós, que compomos a Igreja ainda seja necessário percorrer. Não desanimemos! Vamos em frente. Assim o seja!


Pe. Matias Soares

Pároco de S. Afonso/Natal-RN

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