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Campanha da Fraternidade 2024


Pe. Matias Soares

Mestre em Teologia Moral (Gregoriana)

Pós-graduado em Teologia Pastoral (PUC-Minas)

Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral (SBTM)

Coordenador Arquidiocesano da Pastoral Universitária

Pároco da paróquia de Santo Afonso M. de Ligório-Natal/RN

A Igreja Católica no Brasil já começa os seus preparativos para a vivência da Campanha da Fraternidade de 2024. O tema deste ano será: “A Fraternidade e a Amizade Social”. Terá por lema: “Vós sois todos irmãos e irmãs (cf. Mt 23,8)”. Considerando as situações existenciais, sociais, políticas, econômicas e estruturais do Brasil, com suas regiões e multifaces eclesiais tão diversas, com marcas de polarizações religiosas, políticas, geográficas e culturais, a Igreja, como Mãe e Mestra, vem trazer uma proposta, à luz da Alegria do Evangelho e da sua Tradição Viva, magisterial e pastoral, de conversão ao Outro, como imagem amada e querida pelo Criador, a fim de que a “Fraternidade Universal” seja sonhada, desejada, buscada e testemunhada por todos os homens e mulheres de boa vontade.


O objetivo geral da Campanha é “despertar para o valor e a beleza da fraternidade humana, promovendo e fortalecendo os vínculos da amizade social, para que, em Jesus Cristo, a paz seja realidade entre todas as pessoas e povos”. A partir desta perspectiva geral, são propostas várias finalidades específicas, com o olhar voltado aos desafios reais que nos interpelam enquanto ‘seres sociais’, chamados à amizade social. Há uma proposta de civilização, que gere a cultura da paz entre os povos, nas relações humanas e no mundo; já que, existem ‘guerras em pedaços’ em tantos lugares e periferias geográficas e existenciais. Através do seu magistério petrino, com a Fratelli Tutti, especialmente, o Papa Franscisco tem sido uma voz profética e sinal de esperança para todos os que sonham com a paz e lutam para que ela exista entre os povos.

A Campanha deste ano traz consigo “o convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço (cf. FT, n. 1), nos interpela à comunhão e solidariedade, mostrando que a conversão passa pela experiência da humildade, da aceitação do outro e da alegria do encontro que vem da ressurreição, como Jesus que pergunta a Pedro: ‘Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?’ e Pedro responde: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo” (cf. Jo 21, 15). A proposta da fraternidade para o cristianismo tem no amor Ágape na sua base, cuja fonte é o amor de Deus (cf. 1Jo 4,8). A temática abordada é uma proposta de humanismo solidário e de realização da existência humana. Não é o ódio que leva o ser humano à felicidade; mas é no amor que a sua vida ganha sentido e plenitude. Num mundo marcado por tantos sinais de violências, simbólicas, físicas e digitais, a chamada de atenção que a Igreja promove é uma ação necessária, que está em consonância com a sua missão de ‘perita em humanidade’ (Paulo VI), que atende aos ensinamentos do nosso Mestre e Senhor (cf. Mt 5, 9).


A fraternidade e a amizade social, neste momento crítico da história, em que há um pipocar de conflitos mundiais, como frequentemente denuncia o Papa Francisco, passa a ser um ‘projeto civilizatório’. A humanidade padece de paz. Em muitos recantos do globo há nações que vivem em estado de beligerância. O lucro com a venda de armas é uma questão ética, que nos diz muito sobre a preponderância do poder econômico sobre a dignidade da pessoa humana. Essa, por sinal, desde os ultrajes da segunda guerra mundial, tem sido cada vez mais violentada, tendo como objetos os seres humanos em situação de vulnerabilidade. Cabe destacar o fomento da cultura do descarte, que coloca os idosos e embriões concebidos em situação de cancelamento e abandono. O patrocínio dos países sempre mais ricos à custa da promoção da colonização ideológica e política de outras nações é algo que clama aos céus. O Papa João XXXIII já denunciara essa emergência na Pacem in Terris (1963). Essa carta profética, mais uma vez, ganha eco nos espaços de reflexão e debates públicos, onde seja levado a sério a luta pela busca da paz entre os povos. De lá para cá, o movimento histórico nos coloca mais uma vez diante do mesmo desafio. A Doutrina Social da Igreja, com seus princípios basilares, dentre eles o da subsidiariedade, conclama para que haja, ao invés do usufruto parasitário, o apoio das potências econômicas e militares, com logística e educação, aos países mais pobres.


Além dessa trajetória feita com seus documentos mais relevantes da sua Ética Social, A Igreja, através dos seus pontífices, já emitiu cinquenta e sete mensagens para o Dia Mundial da Paz. Sempre atenta aos sinais dos tempos, com os desafios culturais e estruturais para a consecução da paz, ela atualiza a sua proposta de promoção da amizade social. Com esse intento, ela torna audível que é fundamental que a política contemporânea retome essa base de sustentação das relações humanas e entre os povos. Essa é a “melhor política” (cf. FT, cap. V). Assim como a igualdade e a solidariedade, que nas construções das narrativas liberais foram mais desenvolvidas, a temática da fraternidade também precisa ser levada a bom termo e consecução. No cristianismo, o tema da fraternidade entre todos os que são criados à imagem e semelhança de Deus é uma norma fundante (cf. 1Jo 4,20). Quem é de Deus, ama o semelhante. Os ensinamentos de como ‘ser cristão’ são sintetizados evangelicamente por Jesus Cristo no seu Sermão da Montanha (cf. Mt 5,1-12). Matar em nome da religião, ou pior, promover a guerra e a destruição do Outro em nome de Deus é contraditório com a proposta da fé cristã. No Brasil, a manipulação política e ideológica do imperativo religioso tem sido constantemente assumida por lideranças que usam a boa fé de milhões de cidadãos para o acirramento do ódio e o incitamento do caos psicológico e social. A Campanha da Fraternidade é uma bússola para que muitas luzes sejam postas nos caminhos de todas as camadas sociais do nosso país. Com sua capilaridade, a Igreja se propõe a ser missionária da justiça e da paz neste contexto de polarizações e desmandos relacionais.


Normalmente, a Campanha da Fraternidade acontece com mais ênfase durante o tempo litúrgico da Quaresma, que é, por sua vez, tempo de ‘penitência e conversão’. Contudo, há a orientação que essa seja veiculada durante todo o ano, com ações que estejam em total harmonia com o pensamento social da Igreja. Os que atacam, por motivos ideológicos, esse ‘projeto de evangelização’, há uma perspectiva pré-moderna e inconsistente que é contrária ao que o Concílio Vaticano II assumiu para toda a catolicidade. Basta a leitura das Alegrias e Esperanças (cf. Gaudium et Spes), com uma perspectiva da ‘justa hermenêutica’ (cf. Bento XVI), que teremos os elementos eclesiológicos e epistemológicos para a fundamentação das preocupações assumidas pela Igreja Católica no Brasil acerca das questões sociais, ainda mais quando desde o início a Campanha foi pensada tendo presente que a conversão é a Deus, mas também ao meu irmão e irmã, com sua história e com suas chagas, sejam elas sociais, materiais e espirituais. Mas sempre o ser humano na sua integralidade existencial e social. Os problemas que assolam a dignidade de cada pessoa e da sociedade na sua totalidade serão sempre os dramas que a Igreja vocacionalmente deve assumir para remir, nos seus projetos de evangelização e missão.


Na Igreja Particular de Natal, esse projeto de evangelização, deve ser concretizado com mais empenho e zelo por todos os seus agentes eclesiais, pois foi nas nossas paragens que começou a Campanha da Fraternidade, como uma das filhas prediletas do Movimento de Natal. Não assumi-la com plena força e entusiasmo é uma traição à nossa história e belíssimo testemunho eclesiais. As ações concretizadas naqueles idos podem ser pensadas como um presságio de tantas inovações portadas pelo Concílio Vaticano II. Tudo o que em nossos dias vemos e ouvimos ser incentivado pelo Papa Francisco acerca da sinodalidade, como processo de comunhão, participação e missão, já fora sensível nas ações pastorais desenvolvidas pela Arquidiocese de Natal, lá pelos anos sessenta. Sempre que lemos sobre aquela dinâmica de efervescência evangélica e eclesial, somos provocados a nos questionar e deixarmos algumas perguntas: Nós continuamos, avançamos ou regredimos pastoralmente? Existe um vácuo pastoral em nossos processos? Existe uma prática pastoral continuada e consistente, ou estamos deveras perdidos na “Era da pós-narrativa”? (cf. B. Chul Han. “A crise da narração”). A Campanha da Fraternidade deve ser uma referência de ação eclesial e de “princípio de humanidade” (cf. J. Claude Guillebaud) a ser fomentada e valorizada por todos os homens e mulheres de boa vontade; já que a responsabilidade pelo ordenamento da vida em sociedade exige a participação de todos. Urge a formação de mentalidades que assumam a fraternidade e a amizade social como um direito fundamental, que integre todos os seres humanos.


Deste modo, os nossos caminhos exigem e esperam de todos nós a coragem ao discernimento e o encantamento pelas causas do evangelho. É uma exigência do ser cristão a nossa compaixão pelos sofrimentos do Outro (cf. FT, cap. II). A Campanha da Fraternidade é isso: evangelização em palavras e ação. precisamos avançar! Temos ainda mais, a nosso favor, o testemunho e o magistério social do Papa Francisco, que nos provoca à confiança na força transformadora do evangelho. Essa amizade social, que constrói fraternidade, é uma necessidade irrenunciável para os nossos dias. Tenhamos coragem para seguir e nos lancemos com ousadia para proclamar a Alegria do Evangelho ao mundo e no mundo. A Campanha da Fraternidade de dois mil e vinte quatro é mais uma proposta que nos faz bem aventurados e confirma que somos todos irmãos e irmãs (cf. Mt 5, 9; 23,8). Assim o seja!

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