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ARTIGO - São Miguel e a batalha espiritual do cristão

há 19 horas
3 min de leitura

Dom João Santos Cardoso

Arcebispo de Natal


Os nomes e missões dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael atravessam as páginas da Sagrada Escritura. Gabriel anuncia; Rafael acompanha e cura e Miguel combate. Para a fé cristã, falar de anjos, arcanjos, querubins e serafins não é entrar no terreno da fantasia, da superstição ou do fanatismo religioso. O Catecismo afirma claramente que a existência dos seres espirituais, que a Sagrada Escritura chama de anjos, é uma verdade de fé. No Credo, professamos a fé em Deus, Criador do céu e da terra, “de todas as coisas visíveis e invisíveis”. A criação não se reduz àquilo que nossos olhos podem ver ou nossas mãos tocar. Ela também possui uma dimensão espiritual, que nos envolve e ultrapassa o mundo material e sensível, tendo em Deus seu princípio e fundamento.


No encontro com Natanael, Jesus abre diante de nós esse horizonte: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51). A imagem recorda a escada de Jacó, mas agora é o próprio Jesus quem une o céu e a terra. O Céu não está fechado. Cristo é a porta aberta entre Deus e a humanidade. Em Cristo, Deus vem ao nosso encontro e abre-nos a porta da eternidade. Por isso, toda autêntica devoção aos anjos encontra em Cristo seu centro e a Ele necessariamente conduz.


Entre os arcanjos, Miguel ocupa lugar especial na tradição cristã. Seu nome significa “Quem como Deus?”. No livro do Apocalipse, Miguel e seus anjos combatem o Dragão, identificado como Satanás, o sedutor e acusador (cf. Ap 12,7-12). A tradição da Igreja reconheceu nessa passagem a expressão do combate entre o bem e o mal e, sobretudo, o anúncio de que a vitória definitiva pertence a Deus. Por isso, São Miguel aparece na Sagrada Escritura e na fé cristã como defensor do povo de Deus que combate contra as forças do mal.


Mas é preciso compreender corretamente o sentido desse combate. O Papa Francisco recorda, na Gaudete et exsultate, que a vida cristã comporta uma verdadeira luta espiritual. O mal não é apenas uma ideia abstrata, mas uma realidade que procura afastar o ser humano de Deus, romper a unidade interior e a comunhão com os outros e com a criação. Entretanto, o mal não tem um poder equivalente ao de Deus. O Catecismo ensina que o poder de Satanás “não é infinito”. A vitória definitiva pertence a Deus.


Essa certeza ajuda-nos também a compreender contra quem combatemos. O combate cristão não é uma luta contra pessoas. O cristão não pode transformar o diferente, o adversário ou aquele que pensa de outra maneira em inimigo a ser destruído. O primeiro campo dessa batalha é o nosso próprio interior, o coração humano, de onde procedem nossas intenções e escolhas e onde amadurecem nossas atitudes e ações. É aí que o mal precisa ser discernido e combatido, para que não encontre espaço em nossos pensamentos, palavras e comportamentos.


É dentro de nós, portanto, que precisam ser vencidos o ressentimento, o ódio, a inveja, o egoísmo, a mentira, a arrogância, a indiferença e tudo aquilo que fere a dignidade do outro e rompe a comunhão. O Papa Francisco lembrava que o mal pode envenenar a alma “com o ódio, a tristeza, a inveja, os vícios”. Por isso, o combate espiritual exige vigilância e conversão permanente. As armas do cristão não são a violência, a agressividade ou a condenação do outro, mas aquelas que o Evangelho nos oferece: a oração, a Palavra de Deus, a Eucaristia, a Reconciliação, a caridade, a vida comunitária e o compromisso com a missão.


Por isso, quando rezamos: “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate”, não pedimos apenas proteção diante do mal que nos ameaça de fora. Pedimos também a graça de reconhecê-lo e vencê-lo dentro de nós. Talvez seja essa uma das batalhas mais difíceis da vida cristã para não permitir que, ao combater o mal existente no mundo, acabemos reproduzindo em nosso próprio coração aquilo que desejamos vencer.

 

 
 
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