ARTIGO - Quando tudo ainda era silêncio
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Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal
O cotidiano nos permite encontros inesperados. Muitos passam sem deixar marca; outros, discretamente, tornam-se significativos. Às vezes, chegam na forma de uma mensagem, de um texto partilhado, de uma palavra oferecida quase sem pretensão. Foi assim que, de maneira inusitada e, ao mesmo tempo, profundamente corriqueira, um jovem me pediu que lesse um texto.
Apenas isso. Não buscava aplausos nem análise técnica; queria, simplesmente, ser lido. E talvez aí resida uma das verdades mais humanas da escrita: quem escreve deseja encontrar um leitor, um coração que acolha. Não há solidão maior para um texto do que não ser lido; igualmente, não há alegria maior para quem escreve do que perceber que suas palavras encontraram morada em alguém.
Li o poema com atenção. Depois reli. À medida que avançava, fui sendo surpreendido. Num primeiro momento, pensei tratar-se de um autor já consagrado. Havia ali algo da interioridade densa de Fernando Pessoa, como os pensamentos que habitam sem pedir licença; a delicadeza de Cecília Meireles e de Adélia Prado, onde o essencial se revela nas entrelinhas; e a intuição de Manoel de Barros, capaz de descobrir o extraordinário no cotidiano, no simples, no que passa despercebido e parece supérfluo.
Mas, ao reler com mais atenção, percebi que a autoria era dele. E então compreendi algo ainda mais precioso: ali não estava apenas a beleza da poesia, mas a memória viva de uma experiência. Não era um exercício literário; era vida tornada palavra.
O título — "Quando tudo ainda era silêncio" — já indicava o caminho: a travessia do não dito, ainda tentando aprender a ser nome. O título me remeteu imediatamente ao Gênesis, ao princípio de tudo. Antes de qualquer palavra humana, houve o silêncio primordial: a terra informe e vazia, as trevas cobrindo o abismo e o Espírito de Deus pairando sobre as águas. Não havia forma nem linguagem, mas um silêncio fecundo, carregado de sentido. Então Deus disse: "Faça-se a luz!", e a luz se fez.
É nesse dinamismo que o poema se inscreve. Também ali, no início, tudo era silêncio: um sentimento ainda sem nome, uma presença intuída, mas não compreendida. Aos poucos, porém, o que era informe ganha contorno, o disperso se organiza e o silêncio se converte em palavra. "A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei" (Manoel de Barros).
O texto revela uma delicadeza rara. O sentimento não chega de forma ruidosa, mas se instala lentamente, até tornar-se presença constante, "um pensamento que não pede licença". Trata-se dessas experiências profundas em que algo passa a habitar o interior, reorganizando afetos, memórias e sentidos.
Como na criação, também aqui há um processo: reconhecer, distinguir, nomear. O que antes era apenas intuição torna-se consciência; o que era silêncio interior transforma-se em linguagem. E, ao ser nomeado, passa a existir de modo novo. Dar nome é, de certo modo, participar do gesto criador.
Há, por fim, uma dimensão espiritual que atravessa discretamente todo o texto. Ao falar de encontro, de dom e de luz, ele nos conduz à fonte de tudo: Deus. Sem pretender fazer teologia, o poema acaba por testemunhar que, no fundo, todo amor verdadeiro aponta para Ele.
Ao fim, como no sétimo dia da criação, resta o repouso. Não um silêncio vazio, mas pleno, aquele que guarda, reconhece e agradece. Porque há experiências que, uma vez vividas, já não precisam ser explicadas. Basta acolhê-las. Tornou-se experiência, presença, memória viva. E isso para quem escreve e para quem lê já é tudo.



