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ARTIGO - Quando o Espírito sopra nas margens

  • pascom9
  • 4 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Ir. Vilma Lúcia de Oliveira, FDC

Membro da Congregação das Filha do Amor Divino, Historiadora e Professora, Coordenadora Geral do Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal, Membro da Comissão de Cultura e Educação da Arquidiocese de Natal, Coordenadora da Subcomissão de Bens Culturais da Igreja.

 

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres.” (Lc 4,18)

À luz da Filosofia da História de G.W.F. Hegel, que entende a história como o caminho pelo qual a razão se realiza, podemos reconhecer no Movimento de Natal uma expressão concreta do Espírito. Ao promover alfabetização, cidadania e organização comunitária, treinamento de líderes cristãos, inclusão de leigos nos serviços da Igreja, esse movimento encarna a razão em ação evangelizadora e evangelizante — uma razão que se faz presença viva numa Igreja comprometida com os pobres e que caminha ao lado deles. Como afirma Hegel, “a história universal é o progresso na consciência da liberdade” (HEGEL, 2001).


Entre os que auxiliaram os protagonistas desse Movimento, destaca-se Padre Lebre, cuja missão pastoral era também profundamente filosófica e eclesial. Ele acreditava que pensar com o povo era parte essencial da evangelização. Inspirado por correntes como o personalismo cristão, promovia círculos de reflexão, leitura crítica da realidade e formação de lideranças com vistas a uma economia humanizadora. Sua metodologia era marcada pela escuta, pela presença e pela valorização da cultura popular (FERRARI, 2004).


Essa presença é também o centro da Filosofia de Gabriel Marcel, que via a existência como comunhão e esperança. O Movimento encarnou essa esperança ao estar junto dos pobres, dos agricultores, das crianças abandonadas, das mães desamparadas. Não como assistencialismo, mas como confiança ativa na transformação. A alfabetização era um ato de fé no futuro. Como quem planta sementes sem ver ainda o fruto, o Movimento acreditava que o Espírito germinaria nas consciências despertas. Como afirma Marcel, “a esperança é a memória do futuro” (MARCEL, 2010).


Outro pensador que ilumina esse caminho é Jacques Maritain, defensor da democracia integral e da dignidade da pessoa humana. Para ele, a educação é um direito espiritual, e a política deve servir à justiça. O Movimento de Natal assumiu essa visão ao formar cidadãos conscientes, capazes de transformar suas comunidades com fé e razão, basta revisitar as cartilhas preparadas para ajudar aos monitores das Escolas Radiofônicas. Como afirma Maritain, “a pessoa humana é um ser espiritual que deve ser respeitado em sua dignidade” (MARITAIN, 2011).


Michel de Certeau nos convida a enxergar o Espírito em ação. Para ele, os “modos de existir” dos pobres são formas de resistência, verdadeiras escritas silenciosas que desafiam o poder e revelam uma teologia do cotidiano. O Movimento de Natal, ao valorizar a cultura popular, a escuta comunitária e a organização de base, encarnou essa arte de fazer nas brechas. Como afirma Certeau, “a prática dos pobres é uma escrita invisível na cidade” (CERTEAU, 1994).


Conclusão: Estudando, refletindo, rezando, consultando as Fontes, à luz de pensadores como Marcel, Maritain, Certeau e Lebre, é possível afirmar: o Movimento de Natal revelou que evangelizar é também pensar, formar, organizar. É plantar sementes invisíveis na terra fértil da cultura popular, confiando que o Espírito germina onde há dignidade, comunhão e justiça.


Hoje, ao revisitarmos essa experiência, reconhecemos que as margens não são periferia do Reino — são seu centro. E onde o Espírito sopra, mesmo o que parece pequeno se torna sinal do novo, tornando-se caminho partilhado, onde fé e razão se entrelaçam como mãos que rezam e constroem.

 

Referências Bibliográficas

CERTEAU, Michel de.  A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

FERRARI, Alceu. Igreja e desenvolvimento – O Movimento de Natal. Natal: EDUFRN, 2004.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Lições sobre a filosofia da história. Tradução de Paulo Meneses. São Paulo: Centauro, 2001.

MARCEL, Gabriel. Homo Viator: introdução à metafísica da esperança. São Paulo: É Realizações, 2010.

MARITAIN, Jacques. O homem e o Estado. São Paulo: É Realizações, 2011.

 

 
 
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