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ARTIGO - O silêncio que perdemos em um mundo que não para de falar

há 4 horas
6 min de leitura

Pe. Luiz Antônio Aguiar da Silva

Vigário paroquial da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição - Lajes


Vivemos em um mundo altamente agitado: acordamos de manhã com a agitação e o barulho em nossa casa e os sons externos da cidade anunciando que a movimentação de mais um dia começou. Desde o primeiro instante do dia, ao estendermos a mão para silenciar o despertador do celular, somos inundados por uma avalanche de mensagens, notificações, notícias, vídeos e opiniões. O mundo moderno transformou o barulho em uma necessidade artificial e o silêncio em um vazio intolerável. Diante disto, fica-nos um questionamento: Como compreender o silêncio e seu valor em meio a uma sociedade com tantos ruídos, distrações e tecnologias barulhentas?


Muitos em nosso tempo passaram a enxergar o silêncio como ausência, como algo negativo. Essa visão vem gerando bloqueios para vivermos de maneira profunda nossa espiritualidade e momentos de intimidade com Deus. O silêncio é, na realidade, o início de toda conversa, seja com os outros, com Deus ou conosco mesmos. Há uma dignidade no silêncio, mas as pessoas estão perdendo esta capacidade de ouvir as verdades que brotam de seu interior nos momentos de oração. Como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica a oração é este caminho de interiorização, um impulso do coração, a elevação da alma, um olhar lançado ao céu (cf. CIC § 2558-2559). O Cardeal Robert Sarah, em sua obra A Força do Silêncio, nos lembra de uma verdade esquecida: "Deus é o silêncio, e este silêncio Dele choca o homem modernista. Porque o silêncio é o lugar onde encontramos Deus." Precisamos silenciar não somente os barulhos externos, mas, também as vozes interiores que não nos deixam ouvir o eco de Deus. Este Deus que se deixa encontrar no silêncio de uma brisa leve (cf. 1Rs 19,7-13) e não nos grandes ventos e tremores de terra, e que fala muito aos corações que se permitem entrar em intimidade com Ele. Há silêncios que não são ausência de palavras, mas presença de paz. Frei Ignacio Larrañaga já ensinava: “Silêncio e Paz”! Quando tudo ao redor faz barulho, talvez Deus nos convide a simplesmente parar, respirar e escutar. No silêncio, o coração aprende a ouvir aquilo que o mundo não consegue dizer. Quando abolimos o silêncio da nossa rotina, fechamos a porta para a intimidade divina. “No silêncio alguma coisa irradia”, escreveu Antoine de Saint-Exupéry. Já Rubem Alves nos ajuda a refletir sobre a escuta quando diz que “escutar é complicado e sutil. Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.


Uma coisa é quase certa: dificilmente se encontrará uma pessoa verdadeiramente piedosa que fale muito, pois “quem muito fala, muito erra”. Já nos diz o autor sagrado: “No muito falar, não faltará pecado” (Pr 10, 19). Todos que possuem o espírito de oração amam igualmente o silêncio, que é justamente chamado o conservador da inocência, um baluarte contra as tentações e uma fonte de oração, pois o silêncio favorece o recolhimento e excita no coração bons pensamentos. Uma vida de oração requer momentos profundos de silêncio, onde estejamos desligados de tudo o que nos rouba a quietude externa e interna para estarmos ligados e conectados com Deus. O profeta Isaías diz: “O silêncio cultivará na alma a justiça” (Is 32,17). De um lado ele nos preserva de muitos pecados, removendo a ocasião de discussões, de difamações, rancor e curiosidade; de outro lado, nos auxilia a adquirir muitas virtudes. Parece que alguns não podem viver sem prosear desde a manhã até à tarde: querem saber tudo o que acontece, incomodam-se com tudo e ainda perguntam que mal fazem com isso. A esses respondo: deixai de falar tanto, procurai recolher-vos um pouco e conhecereis quantas faltas cometestes com vosso imoderado prosear. “Quem guarda a sua boca, guarda a sua alma”, diz o Sábio (Pr 13,3). O livro do Eclesiastes profere: “Há tempo para se calar e tempo para falar” (Ecle 3,7). E São Tiago escreve: “Quem não peca por palavra é um homem perfeito” (Tg 3,2). Quem, por amor de Deus, pratica o silêncio, fará também com diligência a leitura espiritual, a meditação e a visita ao Santíssimo Sacramento. Muitos santos na vida e na história da Igreja nos ensina a silenciar, a rezar e encontrar-se com Deus.


O que dizer de São José? Ele é o artesão do silêncio. Não disse nada e fez tudo. O silêncio de São José reflete uma presença interior profunda e uma escuta atenta a Deus. Ele não precisou falar para cumprir sua missão; sua santidade se manifestou em atos de proteção, trabalho e obediência imediata aos avisos divinos. Ele é o mestre do silêncio, “mestre da oração” como nos ensina Santa Tereza D’Ávila: “Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração, tome a este glorioso Santo por mestre e não errará no caminho”. São José desde o começo fez aquilo que os Apóstolos só começariam a fazer de fato em Pentecostes. Ele, a exemplo da Virgem Maria de Nazaré, guardava todas as coisas de Deus em seu coração (cf. Lc 2, 19). Ele, a exemplo de Maria de Betânia, tinha escolhido a melhor parte (cf. Lc 10, 42). Daí a conveniência de lhe chamarmos “mestre de oração”: com seu silêncio, São José aponta-nos para o grande “porteiro da vida interior” (cf. São Josemaria Escrivá, Caminho, 281.), sem o qual é absolutamente impossível ter intimidade com Deus: o silêncio.


E o que observamos em nossas Igrejas? Infelizmente percebemos que, ao cruzar as portas de alguns templos, o comportamento de certos fiéis evidencia a falta de Fé na presença eucarística e o esquecimento do que requer um espaço sagrado. No interior da Igreja, mantêm a mesma agitação iniciada lá fora, na rua, como se o ambiente fosse trivial. Mais grave ainda quando este comportamento ocorre durante celebrações religiosas. Importa valorizar o silêncio nessas ocasiões e lugares. Ele também significa nossa condição de pecador. É o que se deduz dessa passagem de São Paulo, na Epístola aos Romanos (3, 19): “Toda a boca se cale e o mundo inteiro se reconheça réu em face de Deus”. Muitos se esquecem que no templo o relacionamento é com Deus. Vamos ao templo para nos encontrarmos e conversarmos com Deus.  Lemos no Evangelho de São Lucas (9,36) que, ao ser revelada a divindade de Cristo na transfiguração do Tabor, “os discípulos mantiveram silêncio”. Essa deveria ser a nossa atitude, o nosso comportamento.  O profeta Habacuque (2,20) nos adverte: “O Senhor reside na sua santa morada. Cale-se toda a terra diante dele”. Sofonias (1,7) insiste no mesmo sentido: “Silêncio na presença do Senhor”.


E nas celebrações litúrgicas? Infelizmente nos esquecemos que o silêncio é requisito importante. Certos instrumentos, cânticos, ações indiscretas, ritos apressados, muitas das vezes tiram o foco do sagrado. A Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia já nos alerta que para promover a participação ativa dos fiéis “não deve deixar de observar-se, a seu tempo, um silêncio sagrado” (SC 30) e Instrução Geral do Missal Romano (IGMR 45) recomenda que ele seja oportunamente observado e indica os momentos prescritos para se fazer silêncio. E os celebrantes, os presbíteros? Ah! Precisam fazer “movimentos”! Precisam ser “barulhentos”! O padre mais “top” é aquele que mais faz barulho. Não se valoriza mais o “padre silencioso”! O padre que busca silenciar é “introspectivo”! Esquece-se do mistério do Calvário. A liturgia é um sacrifício que exige temor e tremor, não um espetáculo midiático. O silêncio é o lugar da Palavra, sua manjedoura, seu ventre. O Silêncio é uma expressão clara de que, na liturgia, primordialmente, a ação é de Deus, não é humana, o ato é divino, não nos pertence.


O silêncio é um valor importantíssimo a ser resgatado, redescoberto, como parte integrante da comunicação (disponibilidade para ouvir o outro) e da liturgia, para que assim possamos estar, conscientemente, com Deus e consigo mesmo, em plenitude de coração e de mente. Temos que aprender a silenciar, a rezar. Como nos exorta Santa Tereza D’Ávila “para aprender a rezar, é preciso pôr-se de joelhos e escutar o silêncio”. Que São José nos ensine a beleza do recolhimento, mostrando-nos que as maiores graças não se realizam no estardalhaço do mundo, mas na quietude de uma alma que sabe adorar, que sabe se voltar para o fecundo silêncio da cruz.

 
 
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