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ARTIGO - O Amor de Deus é insuficiente

  • pascom9
  • há 12 minutos
  • 4 min de leitura

Pe. Matias Soares

Capelão da UFRN

Natal-RN


O amor a Deus é necessário; mas o amor de Deus é insuficiente. Esse amor não nos torna só objetos; mas também sujeitos dele. Essa reflexão pode gerar inquietação em alguns; contudo, o que nos propomos é pensar numa ‘ética da responsabilidade cristã’ frente aos desafios existenciais e sociais da nossa Era, com tantas complexidades e injustiças no seu ordenamento sistêmico. A leitura que somos chamados a fazer da Dilexi Te - Exortação Apostólica do Papa Leão XIV, sobre o amor para com os pobres - deve nos levar a essa conclusão: o amor com o qual somos amados deve ser aquele com o qual devemos amar o Outro, especialmente os Pobres (cf. DT, 24-34). Temos uma constatação de algumas religiosidades católicas pós-modernas de que a relação com Deus tem uma dimensão mais vertical do que horizontal. Há uma mística de olhos fechados às situações históricas que são claramente contrárias ao projeto do Reino de Deus, anunciado por Jesus de Nazaré (cf. Mc 1,14-15; Mt 4,17.23; Lc 4,18-19). Os textos evangélicos entrecruzam-se e favorecem uma visão clara da missão de Nosso Senhor em vista da conversão pessoal e, com ela, a transformação das estruturas sociais e excludentes (cf. Mt 5,1-12; Lc 6,17-26; 25,31-46).


O magistério social do Papa Leão está em continuidade com o dos seus predecessores, ainda mais quando a escolha do seu nome para o exercício do ministério petrino é em referência ao do Papa da Rerum Novarum (1891), que foi a Encíclica do Papa Leão XIII, pela qual demarcou-se o início orgânico da Doutrina Social da Igreja. Estamos também em sintonia com a teologia latino-americano, que coloca a reflexão da ciência sobre Deus situada contextualmente e antropologicamente, em diálogo com a sua cultura, diante dos desafios gritantes causados pelas estruturas de pecado da América Latina. Essa também tem os seus fundamentos na justa hermenêutica do Concílio Vaticano II. Podemos pensá-la com a leitura integral da Gaudium et Spes - Alegria e Esperança -, que já no seu proêmio nos coloca em urgente provocação acerca do estilo eclesial de ser e estar no Mundo, a saber: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história” (cf. GS,1).

A “Dilexi Te” tem cinco belíssimos capítulos. É um texto de espiritualidade cristã e eclesial; ou seja, tem os seus fundamentos na Sacrada Escritura, na Tradição Viva da Igreja, com a construção teológica presente no Magistério Eclesiástico. Não tem incisões ideológicas. O seu coração é fluxo da “Dilexit Nos” - Amou-Nos (cf. Rm 8,37) -, que é a Carta Encíclica escrita pelo saudoso Papa Francisco. O amor pelos pobres está radicado no amor humano e divino do Coração de Jesus Cristo. Podemos dizer que no desenvolvimento dos seus capítulos, o texto pontifício tem uma Teologia da Pobreza. Sendo essa, não só uma crítica aos ditames históricos que geram a miséria; mas uma chamada para que vivamos a experiência de Deus que nos proporciona a necessidade existencial de cuidar do Outro, com suas muitas possibilidades de “pobrezas”: espiritual, material e psicológica. Essas situações precisam ser combatidas. Em todas há uma violência à dignidade da pessoa humana. Em todas ‘pode’ existir a negação do amor por Deus, já que deste espera-se o amor ao outro; mesmo que exista aquele a Deus, com a negação do outro (cf. 1Jo 4,20-21).


A genuína e tradicional teologia católica nunca distanciou o natural do sobrenatural, o humano do dívino, a ortopráxis da ortodoxia, a tal ponto de sintetizá-los de modo unidual no dogmática cristológica, com sua união hipostática, de Calcedônia (451), justamente para combater duas heresias daquele período - o monofisismo e o nestorianismo -, que atribuíam a Cristo uma única natureza, ou duas naturezas. Algumas correntes espiritualistas, ou imanentistas, também precisamos reconhecer, pré-modernas desta nossa Era pós-moderna, com suas mudanças, têm os azedumes destas heresias, justamente na tentativa de renegar as teologias contextuais do pós-concilio, com a narrativa de que são elas - espiritualidades ou declinações ideológicas - as advogadas da verdadeira tradição. Desta forma, estão a sombrear o que é mais autêntico daquela Tradição, fazendo com que o problema das nossas confusões eclesiais, com suas polarizações, passe pela deficitária teologia e pela superficialidade formativa da maioria dos sujeitos eclesiais. Com o avanço dos meios de comunicação e, ainda mais das mídias sociais, há muitos teólogos para pouca teologia; ou pior: com nada de teologia. O Papa Leão já teve o cuidado pastoral de chamar-nos à atenção para o Concílio Vaticano II. Contudo, há muitos destes teólogos de internet que combatem, seja por palavras, ou por indiferença, o próprio Concílio. Não podemos deixar de frisar que existe também uma negação prática dos ensinamentos conciliares dentro das Igrejas Particulares, inclusive por quem deveria converter-se a eles e aplicá-los.


Enfim, o texto do Papa Leão deveria ser, não só lido, mas estudado profundamente em todas as Igrejas Locais do nosso Brasil. É urgente e necessário. As correntes e tribos eclesiásticas que assumiram com força os ‘lugares teológicos e eclesiais’ das mídias sociais estão promovendo desconstruções preocupantes, tanto do ponto de vista pastoral, quanto eclesiais, daquilo que deveria ser a “Diocesaneidade”. Os projetos pastorais pensados pela CNBB, através dos Sucessores dos Apóstolos, que estão em cada Arqui(Diocese), não são assumidos e, muitas vezes, até questionados por essas realidades eclesiais novas, que não reconhecendo a totalidade dos ensinamentos conciliares vivem um ‘protagonismo eclesial infantilizado’, com muitas subjetividades, sem o reconhecimento de uma ‘autonomia relacional’, em todos os âmbitos; seja internamente, quanto externamente, à vida da Igreja. Há grandes preocupações que deveriam fazer com que tivéssemos mais tempo para a oração, o estudo e o diálogo para o discernimento evangélico e pastoral dos nossos tempos. Esses são métodos aos quais deveríamos recorrer para percebermos os novos sinais dos tempos aos desafios da nova evangelização. Assim o seja!

 
 
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