ARTIGO - Fidelidade e Ousadia no Caminho Sinodal
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Intuições Eclesiais para a Arquidiocese de Natal

Por Ir. Vilma Lúcia de Oliveira - FDC
Partilho, em espírito fraterno, breves intuições ao processo sinodal da Arquidiocese de Natal, frutos da escuta, oração e amor por esta Igreja viva. Compartilho-as confiando que o Espírito nos inspira no caminho conjunto.
O processo sinodal vivido pela Igreja neste tempo não pode ser visto como um simples ajuste administrativo ou uma reorganização funcional. Trata-se, acima de tudo, de um chamado à conversão do nosso modo de ser Igreja. Essa conversão abrange o olhar, as práticas, as relações e as estruturas, e é um convite que brota do Evangelho, se enraíza na Tradição viva e se confronta, com coragem, com os desafios concretos da história.
À luz do Concílio Vaticano II, a Igreja reconhece-se como “sacramento, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Lumen Gentium, 1). Portanto, a sinodalidade não é apenas um método ou um evento pontual, mas uma dimensão constitutiva da identidade eclesial. Como lembra o Papa Francisco, “a sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio”.
Caminhar juntos implica reconhecer que todo o Povo de Deus, a partir da comum dignidade batismal, é sujeito ativo da missão e do discernimento. Deus quis salvar a humanidade “não individualmente, mas formando com ela um povo” (Lumen Gentium, 9). Não há espectadores na Igreja, mas discípulos e discípulas chamados a escutar, rezar, discernir, decidir e assumir corresponsavelmente a missão.
Essa visão exige uma Igreja de escuta real, onde pastores, consagrados e leigos se reconhecem mutuamente, valorizando o sensus fidei, os carismas e os ministérios. Sem conversão pessoal e comunitária, comunhão e missão correm o risco de se tornarem palavras bonitas, mas vazias de vida.
A sinodalidade também se enraíza na história. A Igreja potiguar é lugar teológico. O Movimento de Natal, as experiências de educação popular, a presença profética das Irmãs Vigárias, o testemunho dos Mártires de Cunhaú e Uruaçú, e a devoção à Senhora da Apresentação revelam uma fé encarnada, comunitária e ousada. Não se trata de nostalgia, mas de memória que provoca, pois, uma fé que não se traduz em cultura, compromisso e transformação não é plenamente acolhida (Novo Millennium Ineunt 50).
O discernimento sinodal é, portanto, escuta do Espírito que fala através da realidade. As vozes das comunidades, especialmente dos pobres, das juventudes e dos feridos da história, não são periféricas. “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos pobres e de todos os que sofrem” são também as da Igreja (Gaudium et Spes, 1).
Neste horizonte, surge um desafio decisivo para o tempo presente: articular fidelidade doutrinal e prudência pastoral, sobretudo no acesso aos sacramentos. O Papa Francisco recorda que “a Igreja não é uma alfândega, mas a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa” (Evangelii Gaudium, 47). O Batismo, porta da fé, é dom e promessa, início de um caminho que exige discernimento, acompanhamento e verdade, sem fechamento automático nem banalização da graça.
A formação permanente revela-se eixo estruturante da fecundidade do caminho sinodal. O Documento Final do Sínodo afirma que a sinodalidade é, antes de tudo, uma disposição espiritual que deve moldar a vida cotidiana dos batizados e todos os aspectos da missão da Igreja. Formar para a sinodalidade é formar para a escuta, o discernimento, a corresponsabilidade e a missão.
O caminho sinodal que se abre diante da Arquidiocese de Natal exige, simultaneamente, fidelidade e ousadia. Fidelidade ao Evangelho, à Tradição viva da Igreja, ao Concílio Vaticano II e à história concreta desta Igreja local. Ousadia para permitir que o Espírito nos conduza além de respostas fáceis, de seguranças herdadas e de práticas que já não geram vida.
Não há caminho sinodal sem tensão. Fidelidade sem ousadia transforma a fé em museu. Ousadia sem fidelidade a transforma em experimento vazio. Sem ousadia a fidelidade corre o risco de se tornar repetição estéril. Ousadia sem fidelidade pode perder o rumo. O Espírito nos chama a habitar essa tensão com coragem evangélica. O caminho sinodal chama-nos a habitar essa tensão, guardando o que recebemos e permitindo que o Espírito continue a nos transformar.
O Sínodo Arquidiocesano de Natal não impõe respostas prontas nem nasce para conservar zonas de conforto. Reconhece uma história viva de escuta, compromisso e coragem pastoral e convida a Igreja a aprofundá-la com maturidade, discernimento e esperança, abrindo processos e confiando que o Espírito continua a agir na vida real das pessoas e das comunidades.
Assim, fidelidade e ousadia tornam-se expressão de uma Igreja que escuta, acompanha, discerne e caminha junto, com os pés firmes na própria história e o coração aberto ao futuro que Deus prepara. Uma Igreja que não apaga o Espírito, não teme a complexidade da vida e permanece em comunhão enquanto segue em frente.
Que esta Igreja de Natal tenha a graça de ser fiel sem medo e ousada sem perder a comunhão, para que o caminho sinodal seja, de fato, expressão viva do Evangelho no hoje da nossa história. Que tenha a coragem e a humildade de não caminhar sozinha.



