ARTIGO - A criatividade da fé na cultura urbana
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Por Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Mirassol - Natal Capelão da UFRN
A fé necessita da cultura como canal à transmissão do mistério da Divina Revelação. Os elementos construidos e desenvolvidos no tempo e no espaço pelos atos humanos podem ser usados para o anúncio do Evangelho, desde que não sejam contrapostos aos valores desta Boa Notícia. A Igreja, neste sentido, revitalizou e qualificou a cultura com a sua Tradição Viva. Contudo, esse dinamismo sempre deve fazer com que tenhamos consciência que o adágio latino - semper reformanda - precisa ser assumido pelo corpo eclesial em cada momento da história, gerando em todos nós o desejo do estado permanente de conversão e mudança das estruturas para o melhor desempenho deste anúncio da “Alegria do Evangelho”. Ainda estamos a colher o que nos foi transmitido. Todavia, temos que no hoje da história fazer a nossa parte de forma consistente e criativa. Assim como já aconteceu com o cristianismo europeu, profundamente sufocado pelo secularismo pós-moderno, estamos sendo eclipsados por uma onda de religiosidades e ateísmos práticos, que dizem muito do tipo de evangelização que foi implementada em tempos passados e que tem apresentado as suas fragilidades metodológicas e eclesiais em nossa época.
A pastoralidade na ação evangelizadora é extraterritorial e transterritorial, pela própria realidade da Igreja, com a sua catolicidade e universalidade a partir das Igrejas Locais. A cultura, sendo construção humana, que precisa de vias para circular em todos os lugares e recantos geográficos, é um caminho privilegiado ao anúncio do Evangelho. Em nosso tempos, tendo a maioria da população presente nas grandes cidades, a Igreja precisa ter clareza de que os desafios da ação evangelização devem ser considerados a partir da ideia de cultura urbana. Essa tem tomado formas e possibilidades céleres e de muita dinamicidade. Essas suas características tornam mais patente o relativismo como fenômeno moderador das relações e estilos de vidas, com os quais, enquanto Igreja, temos que aprender a conviver e assumir como possibilidade de inserção das sementes da Boa Notícia do Reino de Deus nas mentes e corações de todas as pessoas, já que na Igreja há lugar para Todos. Aliás, o Cristianismo nunca deixou de reconhecer “as sementes do Verbo” em todas as culturas. Para isso ela - A Igreja - sempre utilizou-se do processo de inculturação; mas também, em algumas situações, da aculturação. Como vivemos na pós-modernidade, como também numa fase de pós-humanismo, e tempos de inteligência artificial, em contexto de “admirável mundo novo”, com as possibilidades e preocupações portadas por essas maravilhas, o que devemos fazer para evangelizar no mundo de hoje, deve nos interpelar.
A nossa criatividade, todavia, não pode tornar-se refém da superficialidade. Por sinal, uma das características de muita dinamicidade é essa capa de mediocridade, que disfarça o vazio próprio desta Era. A evangelização precisa da qualidade evangélica e eclesial. As nossas Igrejas Particulares necessitam de um “rosto missionário e pastoral”. Os reducionismos massivos e alienantes podem até fortalecer politicamente a quem não tem compromisso com as causas do Reino de Deus, mas fazem mal ao processo de evangelização que converte e salva; não geram profetismo e mudança de mentalidades. Ferem profundamente a sacramentalidade da Igreja e a sua missão de protagonizar, à luz do mistério de Jesus Cristo, a salvação integral de cada ser humano. Infelizmente, o que vemos é triste e lamentável em muitos contextos eclesiais, que estão a apelar para um ‘populismo eclesiástico’. Quando fazemos uso destas artimanhas políticas jogamos para longe o “cristianismo puro e simples”. A religiosidade popular tão cara ao processo histórico de evangelização da nossa América Latina precisa ser meio; mas não fim da prática pastoral dos nossos métodos de envolvimento das massas. Abandonar a racionalidade e o discernimento evangélico em nome da visualização de multidões é mecanismo falho e corrosivo a longo prazo da própria identidade da comunidade dos discípulos de Jesus.
A Igreja no Brasil neste ano de dois mil e vinte seis nos oferece duas possibilidades de conteúdo e método que podem ser muito bem usadas pelos nossos organismos pastorais. São elas: 1) A Campanha da Fraternidade, com a chamada de atenção acerca da emergência da “Moradia” como um direito fundamental à promoção da dignidade da pessoa humana; e 2) As “Novas Diretrizes da Ação Evangelizadora” (cf. https://www.ihu.unisinos.br/categorias/661661-a-cf-de-2026-e-as-diretrizes-da-acao-evangelizadora-artigo-de-matias-soares). A Campanha da Fraternidade será um subsídio complementar ao que a Igreja necessita para pensar a Evangelização nas periferias das nossas comunidades, principalmente às grandes cidades. Temos um caminho desafiador numa realidade que já está contaminada pelo vírus do paganismo. O apelo ao ‘populismo eclesiástico’ também é sinal dessa lógica cultural que tem que engolir as potências da religiosidade. O drama para a Igreja é que esta também tem traído a “essência do cristianismo”. A Campanha e as Diretrizes terão um tema transversal que será o do desejo humano e divino da habitação. Assim como o ser humano necessita da moradia às suas necessidades básicas; Deus, com o seu estilo da proximidade, faz-se carne e vem habitar entre nós (cf. Jo 1,14), porque ama o seu povo. Assim como o Senhor, a nossa ação missionária tem que investir na proximidade; ou como nos provocara o saudoso Papa Francisco, numa Igreja em “saída missionária” (cf. Evangelii Gaudium, cap. I).
Considerando a dimensão antropológica da moradia, podemos pensá-la como lugar da proteção, da guarda de objetos, da intimidade e da fraternidade. Juntamente com essa constatação, somos instigados a reconhecê-la como um direito fundamental (cf. CF art. 6). Juntamente nesta linha surge também a urgência do “direito à cidade”: nela e em seus espaços públicos deve haver o direito às possibilidades da vida social e comunitária. Cada cidadão brasileiro tem o direito de ir e vir. Esteja ele onde estiver, nos centros ou nas periferias. O lugar da Igreja e da sua ação missionária precisa ser onde cada pessoa humana está, especialmente os mais pobres e excluídos pelos semelhantes e estruturas de pecado. A criatividade da fé tem que considerar essa fenomenologia da cultura, com seus tempos e espaços urbanos. A sua criatividade não pode dispensar a racionalidade, nem as sensibilidades da condição humana; mas, sem esquecer a “coincidência dos opostos” (cf. Nicolau de Cusa). Esse reconhecimento da Tradição Viva da Igreja, incluindo a sua ‘religiosidade popular’, não é sujeita às fantasias alucinantes de alguns assombros da religiosidade hipermoderna. A cultura urbana, que é efêmera e instantânea, não deveria ser usada para a instrumentalização da fé cristã que, desde Calcedônia (451), responde ao mistério do homem total e integralmente, a partir da verdade sobre Jesus Cristo (cf. Gaudium et Spes, 22). A morada por excelência, com a plenitude da Revelação, de Deus passa a ser à pessoa humana, como sua imagem e semelhança, como também como templo vivo do Espírito Santo (cf. 1Cor 6,19).
Deste modo, a nossa pastoralidade deveria dar um salto de qualidade e não de distorção de objeto e metodologia. Não podemos esquecer o Concílio Vaticano II e suas intuições mais significativas, com suas perspectivas de diálogo com o mundo e a sua sinfonia interna. Inseridos e capazes de nos misturarmos com todas as realidades de fronteiras, com a atenção à “doce e reconfortante alegria de anunciar o Evangelho”, o nosso arcabouço poderia deveras da aplicação efetiva da participação de todos na engenharia dos processos. A nossa criatividade para essa missão necessita, com urgência, de respeito, de diálogo atencioso para com todos, com a centralidade da escuta verdadeira e sincera, tendo a palavra de Deus como bússola, e não a lógica do poder pelo poder. Sem a “conversação no Espírito”, não faremos o discernimento para uma genuína experiência de sinodalidade. Infelizmente, essa última tem sido mais narrativa; e não um ‘estilo’. O porquê, sem dúvida, o evangelho do primeiro domingo da Quaresma nos responde (cf. Mt 4,1-11). A tentação do poder e do dinheiro também fere o corpo eclesial, gerando a mundanidade espiritual. A Quaresma é tempo de purificação. Que o Espírito Santo nos converta! Assim o seja!



